O Ocaso da Gostosona

A última edição de Playboy que me emocionou foi a que trouxe Karina Bacchi na capa; cheguei a pensar em comprar, acredite. Pressentia o fim de uma era, e aquela edição, adquirida em uma banca qualquer dessas de alumínio e abarrotada de revistas junto à porta. Desisti quando me vi imbuído da certeza de que o vendedor, aquele ente genérico, não lançaria um olhar de cumplicidade masculina, de quem sabe o que o moleque quer quando compra aquela revista. Se houvesse um moleque ali, seria o vendedor, e não saberia o que era uma Playboy na virada dos anos oitenta para os noventa.

Vinte anos depois, a Playboy não é nada. Recebo as fotos principais de algum colega do mundo internáutico, algum colaborador que sempre redireciona o farto material para sua lista de emails. Muitas vezes ele enfastia os receptores de seu material, principalmente quando este se trata de documentação de incursões ao corpo feminino profundas o suficiente para serem material didático, e não mais erótico.

Recebo apenas as fotos, claro, e mesmo elas não chegam mais. Não me animo a buscar pela rede, e morro de rir quando chegam aqui procurando por imagens da Juliana Paes. Quase penso em abrir uma franquia do cata-corno dos Malvados.

Lembro de quando a Karina Bacchi apareceu na capa de alguma revista de celebridades; ela aparecia de par com o baixinho da Kaiser, aquele ser desprovido de nome, tal qual o careca do Bombril. A chamada de capa incitava-nos a acreditar em algum possível romance. Na fila do caixa do Angeloni, eu exercitava o sarcasmo interior de que é capaz apenas o vilão de filmes de terceira: deduzia o passo seguinte àquele imbroglio, e se tratava, como de praxe, de um factóide preparando as audiências peludas para uma aparição na Playboy.

Vale um parênteses: já repararam como uma mulher fica mais atraente quando está acompanhada de um homem feio? Observei este efeito em diversas ocasiões, e em diversos ambientes. Funciona quase tão bem quanto uma mulher bonita ao lado de um homem; este, com certeza, passará a ser mais valorizado no mercado. Minha conclusão, no caso inicial, é que o homem percebe a mulher que gosta de caras feios como mais acessível do que outras, mas eu deixo tu teres a tua opinião, e até publico se mandares para cá.

Karina Bacchi não é exatamente um modelo de mulher que eu aplique a qualquer faceta da minha vida. Ela é perfeita, entretanto, para aparecer na Playboy. Seu rosto é de uma beleza clássica, com olhos e pele que se adequam perfeitamente ao ideal de beleza caucasiano que nossa era tanto preza. Além disso, nádegas, coxas e seios, itens básicos, são contemplados com louvor. Mãos e pés, excelentes, bem cuidados como devem ser os de uma mulher de tal calibre. Fora isso, ela teve uma presença em mídia impressa e transmitida suficiente para que eu criasse uma imagem glamurosa dela, mas apenas na medida certa: um pouco mais, e seria banalizada.

Tempos modernos, e o Photoshop impera, seja em montagens grotescas, seja em correções ostensivas como as da Suzana Vieira tempos atrás. Sou de um tempo em que éramos enganados com arte. Cresci com ângulos bem pensados, que escondiam aquelas gordurinhas. A luz era usada em dezenas de truques sutis, assim como peças de roupa colocadas estrategicamente sobre partes do corpo de forma a criar contrastes atraentes.

Kenneth Branagh falou, em uma entrevista, que previa para breve o desaparecimento do ator; seriam todos substituídos por modelos digitais. Como cita Steven Pinker, a única previsão acertada de um futurólogo é a de que suas previsões se mostrarão erradas no futuro. Ainda temos atores humanos a rodo. Os modelos digitais são perfeitos para uma nova forma de animação, mas a atuação em filmes adultos ainda é privilégio de seres de carne e osso.

Entretanto, eis que nosso amigo inglês se mostrou certo de alguma forma: logo não teremos mais modelos humanos para outdoors. Alguns destes cartazes descomunais já assumiram a era digital em seu âmago. As pessoas que ali aparecem receberam tanto Photoshop que parecem feitas de plástico encerado, menos reais do que possíveis réplicas no museu de Madame Tussaud. É uma invasão de réplicas sintéticas, de revistas vagabundas a álbuns de formatura: todo mundo será bonito como uma daquelas frutas de cera que a sua avó tem sobre a mesa da copa, em uma fruteira sobre uma toalhinha bordada.

A Playboy ainda não cedeu a este modelo totalmente, mas já se perdeu no atrativo básico que movia seus leitores: a nudez de uma garota qualquer, por mais linda que fosse, nunca foi o objetivo principal. O que realmente interessava era ver o que se escondia pela roupa de uma personagem que nos excitasse, com a qual tivéssemos alguma fantasia. Nestes tempos melancólicos, o senso de linha de produção se estende à libido: as futuras peladonas da Playboy são geradas em série pelo BBB, num ritmo rigorosamente cronometrado que deixaria Henry Ford orgulhoso.

Talvez seja a hora de começar a ler as matérias e as entrevistas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para O Ocaso da Gostosona

  1. Ana Corina disse:

    Uau!!! Excelente texto! Confesso que se a estrela da capa me agrada e a entrevista é de alguém minimamente interessante, compro Playboy. Faz muito tempo, porém, que a conjunção não acontece… Mas ainda ontem reparei na capa da última. Mas não convenceu. Parabéns pelo blog, é tãoooo bom e do tom que eu gosto que o meu “de gente” (pq o http://www.maedecachorro.com.br quase que tem vida própria e não pode parar), que já anda a ver navios porque estou totalmente sem inspiração latelly, pelo jeito vai continuar à deriva. Muito bom mesmo!

  2. mafra disse:

    realmente, mereces os parabéns, adoraria ter dito algo do tipo. na verdade, veho pensando nisso a muito tempo e confesso, não sem algum pudor (bem pequeno, claro), que sinto saudades dos ensaios da revista ele ela…

    abraço.

  3. MM disse:

    Lendo esse texto pensei em uma frase de um professor: Deram-lhe uma transparência e ele fez uma conferência.
    Você conseguiu criar um texto maravilhoso, tendo como base uma revista que está longe de atingir a profundidade das reflexões que você conseguiu expor.
    Tal fato despertou uma vontade de ler a tal revista principalmente porque tenho usado personagens da mídia através dos tempos para mostrar aos alunos a transição nutricional. Aliás, uso inclusive o Batman (tb influenciado por vc) e sua evolução. Procuro mostrar aos alunos a mudança da composição corporal. Afinal o Batman da década de 50 era magro e levemente barrigudinho. Já a mudança da composição corporal nas mulheres seguiu um caminho inverso. Elas faziam o tipo violão e agora buscam a magreza exagerada por vezes. Baseiam-se no peso apenas e esquecem a importância da composição corporal como um todo (massa muscular e massa óssea).
    Nos dias atuais a preocupação com a imagem está detonando o conceito de saúde. A mídia vende uma imagem irreal e a população procura chegar perto dessa imagem de fora para dentro, por meio de atalhos e atitudes invasivas. Com certeza vou parar por aqui, pq esse não é um texto médico, mas não pude me conter com sua deixa.

  4. turnes disse:

    mas caro gilvôncio, todo comediante é um ator, não importa o estilo.
    “correr atrás para absorver as características de atuação necessárias para aquele tipo específico de espetáculo” é tornar-se ator. É bem isso que os neófitos do ofício devem fazer, pro bem da humanidade. Não estou falando que eles devam ter formação clássica, terem feito os trágicos gregos, os dramas elizabetanos, obvio que não. Mas
    entre ser engraçado entre os amigos e apresentar-se para uma platéia em troca de dinheiro, existem enormes diferenças.

  5. Michele disse:

    Comecei lendo Sinestesia e vim parar aqui. Parabéns pelos posts, são bem escritos, prenderam minha atenção. Gostei das matérias relacionadas ao Radiohead.

    Fale mais sobre Aikido quando for possível. Venho já há algum tempo pensando se começo a fazer ou não. Tenho receio de não conseguir me adaptar ou achar muito monótono.

    Desculpe escrever coisas não relacionadas a este post. Mas não achei seu email.

    Abraços!

    Michele

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