Los Hermanos: Quatro

Quatro deve ter sido um dos últimos discos que comprei no formato de disquinho prateado. Esqueci de qual foi a impressão quando o ouvi pela primeira vez, mas eu poderia apostar um par de chopes que minha cara foi do tipo “mas é só isso?”. O disco abre com Dois Barcos, entoada por um Camelo desanimado, como se buscasse uma emulação de seu ídolo Chico Buarque. Sintomático que a faixa subseqüente, Primeiro Andar, do sempre lamentante Amarante, soasse, em comparação, animada.

Uma faixa do Amarante parecendo animada? Cáspite! Algo de errado acontecia, e algum tempo depois eles estariam separados, reunindo-se apenas em ocasiões constrangedoras como a da abertura para os shows do Radiohead no Brasil. Para começar, o nome do disco: Quatro, simplesmente Quatro, ele parece ter saído como solução de consenso onde este não era possível, ou apenas uma preguiça do tipo “bota um nome aí, vai, e deixa eu voltar para o meu boteco”. A capa é das mais desleixadas também, e, bem, o som mostrava uma banda estruturalmente coesa, mas cujas duas cabeças queriam ir para locais distintos.

Este canto do cisne, entretanto, foi adequado. O Los Hermanos foi uma banda digna de um mercado bem desenvolvido de música pop, um verdadeiro estranho na lastimável situação em que se encontra a indústria fonográfica do Brasil. As composições da dupla Amarante e Camelo eram densas ao mesmo tempo em que apelavam aos nossos assovios. A evolução instrumental, combinada com a teimosia criativa, pagava pau para a tradição da MPB ao mesmo tempo que acenava para o cenário indie internacional.

Passado o tempo, um bom par de anos, no mínimo, é bom retornar a este disco, ainda mais nestes dias tenebrosos do começo da semana. Quatro é um disco para encaixar em dias parados, aqueles em que até a chuva vai se enrolando para chegar no chão, algo como o que o Manfredini queria dizer quando cantava “fica a poeira se escondendo pelos cantos”. Separando em blocos de Amarante e Camelo, fica assim:

Primeiro Andar é uma das faixas mais perfeitas que já fizeram para apoiar o processo de lascar um pé na bunda. É uma ilustração exata do que ocorre no universo de quem se propõe a dizer que o problema é consigo e não com a outra parte, a chutada. Paquetá tem um charme de estirpe quase caribenha, e uma paradinha extremamente charmosa; descrição acurada para um amor conformista. Os Pássaros se arrasta como se fosse uma composição da outra parte da dupla, e chove. Bastante. E ele tinha de encaixar “quiproquó”, além de “ver você levantando o véu”. Gostei, apesar de não funcionar em outros dias. O Vento, como boa parte do miolo do disco, engana, parece coisa do Ventura: empolga, faz bater o pé sob a mesa, e mais uma canção sobre os casos amorosos problemáticos da pena de um dos maiores resmungões da música brasileira. Cara, o Amarante deve ser muito chato pessoalmente, mas tenho de dar o braço a torcer: por conta da forma como ele canta “doces deletérios” em Condicional, ele merece cadeira cativa na minha vitrola mental.

Dois Barcos e Fez-se Mar são dois exemplares de alguma fixação do Camelo com o litoral e sua inserção no universo MPB tradicional. Existe uma primorosa construção dos arranjos em Dois Barcos, mas paciência é exigida na fruição. A coisa toma uma forma mais interessante em Morena, que abre um sorriso no meio do disco, coisa fina, de cantar nas escadas do prédio e ouvir de rosto grudado com a gatinha. Horizonte Distante, com letra épica e refrão grudento, remete a uma encruzilhada entre V, disco do Legião Urbana com pinceladas progressivo-conceituais, e alguma coisa do Raul Seixas que eu não devo ter ouvido. Sapato Novo me diverte intensamente quando estou fazendo faxina sozinho em casa, mas só porque eu criei uma letra nova. Pois É pede um trocadilho com o seu título, não cheira nem fede. E já te contei que odeio música com “lágrima”? Soa mal em português, principalmente. “Teardrop” é menos incômodo, até passa, mas “lágrima” é de lascar. Ainda mais no começo da música. Gosto do final desta canção, parece uma banda marcial, mas do jeito legal. E parece um adeus também. Apropriado. Correto.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para Los Hermanos: Quatro

  1. Pingback: Ô Marianaaa-aaaa-aaaa! « sinestesia

  2. Ana Corina disse:

    Fui no show em Sampa City… http://www.anacorina.com.br/2009/03/fui-no-velorio-do-clodovil-e-antes.html

    Sinceramente? Saí de lá sem saber se deveria ouvir mais Los Hermanos ou se com melodia diferente eles fizeram só a ‘chatenha’ Ana Júlia.

    😉

    • gilvas disse:

      los hermanos, na minha opinio e como quase toda msica, deve ser escutado apenas depois do hype, e com muita calma. e, sim, los hermanos chato, como certos filmes so chatos, pessoas como eu so chatas, enfim, elas acabam se dando bem com outras coisas chatas.

  3. cristina disse:

    Será que Los Hermanos voltará a cantar juntos? Adoro eles e não meceriam a acabar.

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  5. mafra disse:

    ai ai ai, fiquei com vontade de ouvir o disco. a verdade é que não gosto dele. não gostei quando saiu. não gostei depois. acho (até) o primeiro deles melhor… acho… mas vou re-ouvir.

    agora, de fato, “o vento” é fantástica.

    mas, para não deixar de dizer, acho que temos outras bandas/artistas contemporaneos tão bom ou melhores. sinto que em geral adoramos dizer que está tudo ruim e isso, no fundo, é preguiça nossa. ok, o melhor da música brasileira (e aí uso o termo do modo mais amplo e preciso) está longe da “grande mídia”, mas penso que isso se dá também por culpa de todos (incluindo aí os proprios artistas e a mídia débil e os jornalistas brasileiros que querem ser gringos e os inteligentes, que não perdoam quem é adotado pelo mainstrein e…).

    mas essa fala deveria se arrastar e esse não é o lugar apropriado.

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