A Canastrice Compensa

Canastrões, ao contrário do que poderia acreditar o vulgo popularesco, não são vilões, embora não raro os interpretem. Neste último caso, o conceito se confunde com a personagem, o que não deixa de ser engrandecedor para a arte das grandes telas, mas que não é o assunto do dia de hoje neste almanaque de freqüência incerta.

Em vez de me dispersar na imensa selva dos intérpretes de maneirismos exagerados, prefiro manter meu foco em Dave Gahan, um dos primeiros indivíduos em que percebi esta tendência ao burlesco sentimental de pouco recheio, e que, ainda hoje, é emblemático da categoria. Ou falta de, diriam os maldosos.

Hoje mesmo eu escutava o aglomerado multimídia islandês Gus Gus entoar sua criativa e competente versão para Monument, do obscuro e injustiçado segundo do Depeche Mode, quando me ocorreu que Dave Gahan era um elemento estranho aos plúmbeos anos entre o primeiro disco, ainda com Vince Clarke, e o estouro mundial em Music for The Masses.

Capturado em um pub para encabeçar o Depeche Mode bobíssimo do final dos anos setenta, Gahan era uma primadonna desde o princípio. O clipe para Just Can’t Get Enough faria Rick Astley passar vergonha, e não estou falando da indumentária couro e tachinhas do quarteto, um prenúncio da estética sado-masô que os marcaria no futuro próximo, mas sim das insinuações de um trivial boys-meet-girls de sessão da tarde.

Este papel inicial cabia nas roupagens de Gahan, mas a saída de Clarke lançaria-o na interpretação de um Martin Gore instável e ainda imaturo, oscilando entre a manutenção do pop aguado do primeiro disco e sua própria visão de uma música séria com reflexos modernos do postpunk, da coldwave e do industrialismo de matriz germânica com matizes comunistas.

Gahan queria sexo, e provavelmente tinha, em quantidades mais do que satisfatórias. Gore sempre problematizou demais o instinto, e isto rendeu belas canções. Gahan cantava, colocava-se como crooner de divagações religiosas recheadas de dúvida e culpa, e manifestos de um socialismo adolescentemente pueril.

Assim o barco foi sendo tocado, sempre imerso na névoa funesta, até que o tempo viesse a encontrá-los, junto com Anton Corbjin. A habilidade de Gore em cunhar letras e canções grudentas ainda que inteligentes, a experiência e o domínio de palco de Gahan, o silencioso suporte de Andrew Flechter, os timbres e os arranjos criativos de Alan Wilder, tudo isso se mescla na imagética poderosa que Corbjin forjou, e que, posteriormente, transplantou para o U2.

Após o topo, havia um pouco a caminhar, e o Depeche Mode chegou a Violator: irretocável, uma gema perfeita onde a futilidade anda lado a lado, bochecha a bochecha, com o requinte de um pop refinado e eletronicamente orgânico. Gore poderia deixar tudo de lado, com receio de repetir-se.

Então Gahan surtou. Se foi jogo de marketing ou apenas um acontecimento fortuito, eu nunca saberei: o vocalista mergulhou na grungelândia reinante, levando a sua gloriosa agremiação eletrônica a navegar mares estranhos, tais como o rock. Ainda que fossem composições de Gore, ficava clara a motivação: Gahan, bombando de aditivos não confessáveis, encarnava um pastor no vazio deixado pelo ímpeto de Gore.

Mais de quinze anos depois, é isso que vemos: Gore deixa Gahan mostrar suas composições no disco. Elas não são lá tão boas, mas Gore também não é mais tão bom. Como todo ex-adicto, Gahan absorve sua força em algum ícone. Neste caso, o deus cristão. Quando ele canta, é um gospel. Sempre foi, sabe-se agora, mas não era possível ter certeza enquanto Gore dava as cartas.

Um certo formato se fixou em Ultra, divergiu em Exciter, que eu não ouvi, e rendeu frutos em Playing The Angel. Em Songs Of The Universe, ele é novamente exercitado. A voz de Gahan finalmente cedeu às investidas de seus excessos, e já não exibe a potência que tinha no final dos anos oitenta. Mesmo as canções, mais chorosas, entoadas por Gore, apresentam esta perda de densidade sonora. Que medo de vê-los velhos e carecas cantando Just Can’t Get Enough. Espero que eles tenham ganho dinheiro o suficiente para uma aposentadoria sem riscos de serem cooptados pela indústria de dinossauros herbívoros fracassados.

Sounds of The Universe é um título que propõe uma pretensiosidade que fica por ali mesmo. A primeira audição não mostra muitos ganchos, deixando o ouvinte desorientado. Lá pela quarta ouvida, a ficha cai. Os timbres nostálgicos de Peace, assim como seu refrão grandioso, se encaixam com as repetições com variação de enfoque em Wrong. The Truth Is é outra de apelo imediato.

A massa crítica de apreciação cresce até abranger quase todo o disco. Quase. Bobagens como Jezebel me levam a indagar, interiormente, se existe um desejo envergonhado em Gore, uma vontade imensa de se lançar em carreira solo como cantor de churrascaria. O clima reinante no clipe de It’s No Good, de Ultra, poderia ser uma pista.

Gostei sobremaneira da vinheta Spacewalker, e poderia ser um novo caminho a ser tomado pela trupe do Depeche Mode. Menos exposição, mais diversão. Por outro lado, melodias luminosas como as de Perfect são bem-vindas: Gahan canta com leveza, e a eletrônica faz coro com as guitarras graciosamente. Por um instante eu estive em um universo idealizado de alguma década de oitenta que não aconteceu.

Somando tudo, o saldo é de honestidade. Se não encanta, ao menos não decepciona. E Gahan, claro, é aquele canastrão legal: pode não cantar mais tão bem, mas ainda sabe como deixar as moças emocionadas com seu show. O canastrão vive com intensidade quase didática.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para A Canastrice Compensa

  1. Pingback: Eu e meu Violão de Cordas de Aço « sinestesia

  2. mafra disse:

    adorei.

    do disco, inclusive. aliás, o melhor desde ultra… e, quer saber, dei uma chance ao songs of faith and devotion e gostei, mesmo (mas ficou evidente a divisão entre gore e gahan aqui citada ao se reparar no figurino do show do depeche em são paulo em 1994!).

  3. Pingback: A Canastrice Compensa | Vídeos, Fotos, e Muita Cultura Pop em New York City - Speakorama.com

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