Portishead: Third

Tempo. Um dos significados, no léxico, para “tempo” é o que costuma-se designar pelo termo inglês “timing”. É um conceito que os garotos aprendem assim que adentram as arenas preliminares da conquista junto às garotas. Ou não aprendem, o que é menos raro do que seria suposto em uma sociedade que se reproduz na taxa atual. Tempo também é a corda em que se balança o humorista; ele sabe que uma frase mediana dita no tempo certo pode ser superior a uma excelente piada que tenha perdido seu ritmo.

Todo este papo se presta a dizer que o Portishead perdeu seu tempo. Perdeu sua janela de entrada. Na esquina do século estavam diversas celebridades do submundo cultural, e o Portishead era foco de ansiedade intensa. Na mesma época, o Radiohead surtou, lançou seus discos esquisitos, encontrou um caminho para fora da esquizofrenia da fama. Talvez o Portishead não precisasse se esforçar tanto, talvez não precisasse de uma quebra, mas apenas continuar seu caminho.

Assim, é duplamente estranho o lançamento deste Third, sucessor do homônimo segundo disco. Dummy era de uma perfeição cinematográfica, uma película misteriosa e hermética. Houve o deslize de associar o disco a imagens, efetivamente; fosse a promessa apenas, a lenda seria mais poderosa, mas a marca foi feita na face da música popular. Portishead, o disco, era uma conseqüência bem resolvida, uma cápsula de claustrofobia mergulhada estaticamente em um copo de bebida pálida.

Third, em primeiro lugar, veio tarde demais. Quase uma década se passou para que Gibbons e Barrow reunissem seus asseclas em torno de algumas faixas novas: custaria tanto assim a inspiração? Ou eles estavam se divertindo com as notícias de um disco novo que volta e meia apareciam na rede, ou ainda discos de outros artistas que apareciam nas redes P2P com os nomes mudados para Portishead?

Em segundo lugar, a esquisitice, a presença fora do mundo, os seres de um planeta paralelo, que olham de fora e para fora da atmosfera, mas que ainda sentem sufocar pela existência de um ar que não é seu para respirar.

O disco abre com uma amostra de som em português, a locução de algum pastor de igreja evangélica, mas poderia ser alguma seita com preceitos misteriosos. Confesso que não pesquisei o assunto, até porque não faz meu gênero. Acredito que a música é centro de um disco, embora as lendas do entorno possam torná-lo mais charmoso. Silence é de um nervosismo soturno, um animal espancado numa noite em fuga pelo meio de prédios de portas trancadas e vidros quebrados. Se existe redenção para a produção atual do Portishead, uma de suas virtudes reside na sinestesia tridimensional que sua música continua a evocar.

Hunter é mais um golem despedaçado, com fatias de seu barro se espalhando pela calçada enquanto ele caminha na cidade do parágrafo acima. Barrow age como o cientista louco que se arma de formão para destruir a criatura profanamente bela que dá seus primeiros passos dentro do seu laboratório novecentista.

Nylon Smile é um bolero desconfortável, um intermezzo dentro do filme que mescla horror e ficção científica retrô. The Rip transborda a Beth Gibbons de seu solo para então se transformar uma corrida contra o relógio em uma estação de trem de um subúrbio dos anos cinqüenta, estranhamente moderna.

A entrada em cena de Deep Water, com seu sotaque sulista, surpreende: o bandolim carrega o ouvinte em braços bucólicos, Gibbons conta uma história que parece ter escapado por baixo do arame farpado de seu disco solo. Sintomaticamente, a agressão se reforça na faixa seguinte: Machine Gun é carregada de percussão desconfortável, que abafa por vezes a voz de Beth Gibbons. Barrow procura um suicídio desnecessário. O disco ainda embrenha pelo lado negro dos anos sessenta em Small, é obsessivo em Magic Doors, e segue por uma trilha assombrada em meio a árvores secas e neve suja de cinza em Threads.

A pretensiosidade de Barrow e Gibbons, noves fora, cria um álbum coerente, uma realização absolutamente pessoal. Realiza a difícil missão de ser relevante, audível mas não acessível. É efetivamente um álbum no aspecto de que encerra um conceito geral, de que busca ser mais do que um amontoado de canções realizados em uma certa faixa de tempo. Mesmo que este tempo seja um estranho, à deriva no espaço da música popular.

Esteja alerta para a regra dos três.

Mais? Hooverphonic, Blonde Redhead e Shannon Wright.

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Sobre gilvas

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3 respostas para Portishead: Third

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  2. Humberto disse:

    eu nao gostei tanto do third…

    tipo, nem ouvi muito para não misturar com as impressões do cinematográfico dummy, como vc diz. 🙂

    nao lembro se vc gosta de goldfrapp, mas aplicar o seu texto a eles também.

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