Talk Talk: Natural History

As antologias oitentistas costumam dar atenção aos astros mais óbvios. Saltam à vista os cabelos espetados e as roupas bizarras de uma Cindy Lauper, os figurinos de tia velha e os beicinhos abichalhados do Modern Talking ou as camadas sobrepostas de maquiagem na cara de um Bob Smith, só para ficar em alguns exemplos didáticos. Em meio a uma fauna tão diversificada e exótica, não podemos culpar olhos destreinados por não divisarem as guapas figuras que compõem o Talk Talk.
Nascidos sob a égide do tecnopop trivial do início dos anos oitenta, a banda inglesa é uma lição de evolução em tempo exíguo. Esta caminhada é o que se ouve em Natural History, coletânea lançada em 1990, e que traz um apanhado bem esclarecedor da capacidade da banda em cunhar clássicos pop em roupagem impecável.

Esqueça as duas primeiras canções, ou ouça com o devido distanciamento. Today e Talk Talk não são tão bobinhas quanto Just Can’t Enough, mas causam no Talk Talk o mesmo tipo de constrangimento que devem causar no Depeche Mode atualmente, apesar de eu desconfiar que o Dave Gahan, especificamente, não se constranja com coisa pouca.

A coisa começa a ficar interessante em My Foolish Friend. O estilo da banda, apenas entrevisto nas faixas anteriores, começa a tomar forma. A crônica da vida diária, com a inevitável dose de auto-ajuda, se impõe como temática, algo que pode ser notado na obra de um Lloyd Cole, por exemplo. O caso de Cole, entretanto, descarta o psicologismo de banca de revistas em prol de um enfoque decididamente literário que chega às raias do pedantismo.

Mark Hollis é um frontman de outra estirpe. Seus vocais remetem à grandiosidade blasé de um Brian Ferry. Hollis canta o cotidiano com uma emoção que poderia soar deslocada, mas que, pela sua habilidade, se transforma na matriz para belas pérolas de música popular. Nesta fase inicial, a banda mostra sua capacidade de burilar belos arranjos para momentos triviais, executando tudo com uma boa vontade exemplar.

No meio da caminhada, entretanto, eles ganhariam um reforço: Tim Friese-Greene, um mago dos estúdios. É ele quem guia os caminhos da banda, ajudando a criar a magia de álbuns como It’s My Life, que é homônimo do maior sucesso da banda, martelado nas FM da época, e regravado pelo No Doubt, ganhando novamente muito espaço nas transmissões comerciais. Sob a influência de Friese-Greene, Hollis arrisca-se mais, fugindo do óbvio que já domina. Os instrumentos ganham em sofisticação a cada álbum, as canções ficam mais lentas, e certas passagens soam como protótipos do que seria o post-rock da primeira década do século XXI.

As três longas faixas do último disco são as mais difíceis. Os instrumentos viajam por diversos timbres, os arranjos são esparsos e elegantes. É uma música mais elaborada, que pede ao apreciador o tempo da absorção antes de envolvê-lo no prazer da audição, que chega às raias do vício. Beleza exótica, aqui, não é um eufemismo para encobrir traços grosseiros.

As duas faixas gravadas ao vivo, e que encerram o disco, mostram que o Talk Talk não era apenas uma boa banda de estúdio. Os arranjos não fogem dos que foram gravados, mas as dinâmicas são alteradas sutilmente, e as competentes execuções individuais se unem para criar um som organicamente funcional.

Natural History é uma boa chance de descobrir porque o Talk Talk cativa pessoas de bom gosto como Neil Hannon e Feist, e como foi um laboratório para a criação do Rustin Man que acompanha Beth Gibbons em sua empreitada solo.

***

Sei que não tem nada a ver, mas eu ri muito com isso que a Maricota me enviou.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Música e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Talk Talk: Natural History

  1. mafra disse:

    ahahahahahahahahah

    porra, mas que blog doido é esse?!? tu consiguiu desviar de um assunto e jogar fora o clima de curiosidade que havia me despertado ao longo de todo o post, nego!!!

    mas ok, não conheço o talk talk, mas fiquei curiosíssimo. e perdoe qualquer erro, não fui alfabetizado em inglês, mas não domino a norma culta como uma xuxa…

  2. Pingback: Talk Talk: Natural History | Mulher Gostosa e Cultura Pop em New York City - Speakorama.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s