Duncan Sheik: Whisper House

Duncan Sheik anda triste. Ou assim andam seus discos. White Limousine tinha o sabor de uma ressaca distante, a ressaca de enxergar o sucesso corporativo próprio se desvanecer junto ao soçobrar do sucesso corporativo como um todo. O rock’n roll foi feito para ser vendido, e agora nem para isso ele serve. Exceto pelo universo fechado do iTunes. O resto é trincheira do P2P.

Sheik canta que é melhor estar morto. Nada estranho para quem começava seu disco anterior reavivando brasas desnutridas em torno do mito do Casanova. Mais estranho deve ser ouvir uma segunda voz, feminina, na canção. Sheik sempre procurou ocupar todos os nichos vocais que sua música pedia, mas algo mudou.

Holly Brook veio a bordo da idéia de um álbum conceitual. Whisper House tem como proposta contar uma história. Um garoto que vai morar com sua avó em um farol, e que é visitado por uma banda de fantasmas. O conceito envolve todas as canções e a arte com a força de um amálgama.

Boa parte dos resmungões que rabiscam resenhas amadoras no site da Amazon reclamaram que este é um disco muito uniforme, sem grandes canções a marcarem-no. Bobagem. Se fosse assim, Phantom Moon, outra excelente obra de Sheik, deveria ser lançado à fogueira também. We’re Here To Tell You, segunda faixa, destoa de cara, quebrando um tanto o clima do álbum.

Nada de que se possa reclamar. A terceira faixa, And Now We Sing começa com a voz da menina apenas, e remete à audição de I Don’t Believe in Ghosts de White Limousine. O mesmo silêncio preenchido por uma música inquieta e vozes serenas. Sheik está do outro lado de uma janela, e gotas escorrem pelo vidro. A sala é grande, o chão são pedras. O fogo está constante e pequeno. Sheik surge no coro, contido, uma sombra esmaecida.

O disco anterior de Sheik não foi White Limousine, confesso. Ele musicou e interpretou outra peça de teatro com Stephen Sater, Spring Awakening, mas o disco resultante era apenas uma boa trilha de peça, e não funcionou em meus ouvidos em seu formato autônomo; Phantom Moon não é algo que se possa fazer em qualquer palco.

A pretensão de fazer um disco conceitual não é algo que possa ser considerado novidade, mesmo para as novas gerações, que dificilmente vão navegar nos mares psicodélicos dos dinossauros setentistas como Yes ou o Genesis de Peter Gabriel. Lembro do Mansun fazendo isso, e há quem considere Ok Computer um disco conceitual, ou mesmo Kid A. Vai saber. O ponto é que Sheik poderia apenas usar o conceito, criar o disco, e não contar sobre ele. O conceito seria um mistério a descobrir, um charme obscuro, bem-vindo nestes tempos em que os monstros não mais habitam os armários mas os noticiários.

The Tale of Solomon Snell deve ser a canção que se sobressai entre a massa coesa de Whisper House. Os arabescos orquestrais somam-se aos coros escondidos para dar chão aos vocais burlescos uma vida acima dos alto-falantes. A habilidade de Sheik como compositor se mostra em plenitude nesta faixa, mas ainda me agradam mais os delicados matizes de Earthbound Starlight. Trata-se do tema que mais se encaixaria em White Limousine. As rimas são simples mas encantadoras. Os beijos nas bochechas, os dias se tornam semanas, e assim segue. A ponte é inquietante com as guitarras carregadas e infinitas e os metais cheios e comoventes, mas Sheik logo nos deixa ser tranqüilos novamente. Afinal, é uma criança, do tipo sensível, que habita aquele farol.

Play Your Part é um tanto óbvia, mas me conquista com sua bateria. O engenheiro de som que gravou este disco é monstruosamente bom. Quando o segundo refrão fica nu, apenas ritmo e violão, eu penso que mais discos deveriam ser tão inteligentes, no aspecto da gravação, quanto este. Oh You’ve Really Gone and Done visita cabarés para sublinhar sua intenção, mas é apenas mais uma faceta da inteligência musical de Sheik.

Sheik continua relevante. É um compositor competente e experiente, e um intérprete inspirado. Não venderá horrores em discos, não vai tocar a não ser nas vitrolas de seus fãs, não aparecerá na Billboard nem na trilha da novela. Ele será apenas uma alegria intensa para aqueles que o entendem. Sheik, eu já devo ter dito, é mais importante por quem ele admira do que por quem ele é, e sua música fala disso: é sublime a ponto de não lhe pertencer.

***

Ainda há o que falar? Experimente Such Reveries e Songs Of Freedom, épocas distintas em textos díspares.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Duncan Sheik: Whisper House

  1. altox blog! vou acompanhar!

    e altax dica de morador do itacorubs II…

    valeu, querido!

  2. altox blog! vou acompanhar!

    e altax dica de morador do itacorubs II…

    valeu, querido!

  3. marcelo de almeida disse:

    Caralho!!!!! Ficou doido esse novo visual!!!! Muito bommmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm…

  4. Pingback: Duncan Sheik: Whisper House | Mulher Gostosa e Cultura Pop em New York City - Speakorama.com

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