Legs McNeil e Gilliam McCain: Mate-me Por Favor

Cuspe é um dos costumes triviais do macho da espécie homo sapiens que eu nunca entendi. Vejo alguém cuspindo em via pública, e classifico imediatamente esta pessoa na mesma prateleira que abriga adolescentes que jogam chiclete mascado na calçada e fumantes que arremessam xepas na rua: gente sem educação, em suma, e que se notabiliza por ser mal-educada por via oral.

Vasculhando nas prateleiras mentais, e aplicando a palavra-chave “cuspe”, logo retorna Bob Cuspe, notório personagem do Angeli, fruto das incursões do cartunista brasileiro pelo submundo do ABC Paulista. Bob era a representação do punk da periferia paulista, que foi copiado quase diretamente da matriz britânica definida inicialmente pela trupe de Malcolm Maclaren, os Sex Pistols.
Apesar dos Sex Pistols se apresentarem como a grande tramóia do roquenrrôu, havia quem comprasse seus discos e fosse a seus shows, assim como continua havendo. Existe, suspeito, uma necessidade de ser enganado e iludido, e o resultado, resmungos e lamentos, parecem fazer parte do pacote, como se a infelicidade fosse uma parte inevitável do conceito de classe-média.

Eles eram musicalmente ruins, e o tempo não fez nada de bom por eles. Marcaram época, apesar disso: o arquétipo de punk foi cravado por eles, assim como o conceito que se faz de sua música. Outra vertente que inauguraram, ou ao menos reforçaram, foi o da música popular em simbiose com a moda, esta lamentável bizarrice que é celebrada nas páginas da Rolling Stone brasileira, e receio, pela matriz gringa. Sou meio antiquado, confesso: prefiro que o fenômeno sociológico se submeta à música, e não o contrário.

As divagações acima surgiram enquanto eu lia Mate-me Por Favor, livro que se propõe a contar a história do movimento punk em terras ianques. A história começa nos proto-punks MC5 e Stooges, depois de uma introdução ao espaço novaiorquino onde se desenvolveriam os seus principais eventos, e segue os estilhaços dessas existências perdidas através dos anos oitenta.

O formato escolhido para a narrativa é curioso: os depoimentos são alinhadas cronologicamente dentro de cada capítulo. As diferentes visões contribuem para a dinâmica, seja pelas facetas distintas, seja pelas contradições. A tradição da narrativa oral cabe perfeitamente no registro de um movimento cujo manifesto não fazia menção clara a empolações em prosa.

Lançando luz sobre as pessoas e os eventos, o livro esclarece o punk a ponto de entendermos o quanto ele foi furado, nada devendo a qualquer “movimento” que os jornalecos de música ingleses anunciam a cada semana. E qual seria a diferença? Possivelmente a velocidade: o punk foi rápido para os padrões de comunicação da época, e autodestrutivo a ponto de não ser compreensível.

Fica claro que o punk não era importante em si, mas apenas como uma quebra de paradigma. Dinossauros dominavam a Terra, envolvidos em uma espiral de pedantismo e pretensiosidade, e o punk resgata a espontaneidade do roquenrrôu. Soa bobinho, soa Poliana, mas foi isso que aconteceu, apesar dos tais punks serem apenas um conjunto novo de celebridades, que pouco destoavam das anteriores: drogas, groupies, decadência, putaria, mais drogas, brigas, gravadoras, egolatria, era tudo a mesma merda, fosse o Led Zepellin, fossem os Dead Boys.

Embora não tenha restado romantismo em minha pessoa após ler este livro, não há do reclamar. Mate-me Por Favor lembra as revistas Bizz dos anos oitenta, recheadas de fofocas que nós, machos em formação, poderíamos ler sem o risco de sermos confundidos com as leitoras patricinhas de Capricho. Ainda que não hajam figuras e o assunto seja restrito, há diversão de monte: quatrocentas e poucas páginas de Bizz, concentradas e sem propagandas.

Nunca precisei tanto do conhecimento sobre a vida pessoal de quem fazia uma ou outra música de que eu gostasse. Meus dias eram absolutamente viáveis mantendo minha noção de que Morrissey, por exemplo, realmente era um celibatário e que nunca fora visto com qualquer companhia de qualquer sexo. Era meio difícil deixar de saber que Bob Smith se borrava ao passar batom, mas eu não pensava muito sobre como os caras do Depeche Mode se vestiam, e parece que se vestiam com lingerie feminina, ostentando um visual de putas S&M nas apresentações dos anos oitenta, ouvi falar mais tarde.

Assim, o roquenrrôu podia continuar rodando em alguma outra esfera, sem contatos com as minhas. O confessionismo nascido dos Smiths era tudo o que eu precisava para desenvolver uma apreciação saudável da música popular daqueles anos estranhos. Agradeci ao punk inúmeras vezes, e não pelo que era, mas pelo que havia proporcionado: Cure, Echo, Joy, Smiths, e toda uma leva de artistas eletrônicos criativos e engenhosos com seus teclados e seus ideais estéticos, sendo que este conceito deve ser lido na amplitude que lhe pertence, e não no paralelo curto que lhe empresta a mente dada a presenciar desfiles de moda.

Ainda que  não seja totalmente explicativa, a passagem abaixo dá uma idéia do que se pode encontrar neste livro:

Iggy Pop: O último show de Iggy and The Stooges foi no Michigan Palace, quando todos aqueles motoqueiros vieram. Veja bem, na noite anterior a gente foi para Detroit e fez um daqueles showzinhos secundários que se faz para complementar o show principal, pra pagar a conta do hotel. E um cara ficou atirando ovos em mim.
Eu estava com uma roupinha de bailarina, uma tanga de mulher e tudo mais e me enchi daquilo. Era um ponto de encontro de motoqueiros, sabe? Então finalmente parei com tudo e disse: “Ok, estou convocando este escroto! Abra espaço, todo mundo!”
Todo mundo abriu espaço, e ali está o sujeito, com cerca de um metro e noventa de altura e uns cento e quarenta quilos, com uma luva-soqueira que literalmente ia até o cotovelo e tinha umas tachinhas.
Então ele está parado lá com a luva-soqueira numa mão e os ovos na outra, tipo: “Ha, ha, ha.”
Eu disse: “Bem, que porra. É melhor eu descer e acabar logo com isso.” Então larguei o microfone e desci. Sabe como é, eu estava com sapatinhos de ballet, e foi como ver um trem chegando: “Choo… choo… choo… choo… BAM!”
Ele me acertou. Mas não me derrubou. Não conseguiu me nocautear, foi muito estranho. Continuei de pé e não conseguia bater nele. Finalmente o sangue foi demais pra ele, então ele parou e disse: “Ok, você é cool.”
Não me senti tão cool.

Nada a ver, eu acho, mas tu podes ler coisas do tipo: Oitenta, Das coisas que eu entendo, Inveja, Roberto Carlos, British Sea Power, Idlewild, ou Góticos Tenebrosos e Malvados. Diversão garantida!

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Legs McNeil e Gilliam McCain: Mate-me Por Favor

  1. gilvas disse:

    bem apontado: ainda vou escrever umt texto sobre esta mania que o povo tem de competir pela maior tragédia, seja ela social ou acidente de trânsito.

    nos anos oitenta eu tinha acesso apenas à parte mais apelativa e banal do pop, de modo que também lia as bizz oitentistas na década de noventa, e só então fui descobrir cure e smiths, por exemplo. aliás, conheci tudo de morrissey antes de ouvir decentemente smiths. e, boa, assumir orgulhosamente meu mau gosto, faceta depeche mode, foi um dos méritos daquela publicação da editora azul, que trazia propagandas de fitas basf em suas páginas.

  2. mafra disse:

    sabe que, mesmo tendo gostado muito do livro e da versão da história que ele apresenta, não me convenci com esse papo de que o punk não foi criado por mclaren e cia?!? pois é.
    temos formações parecidas – li a bizz de cabo a rabo, praticamente todas as edições até 97 (a questão é que eu lia as dos anos 80 nos anos 90 e com mais tesão que as que estavam saindo). e formei parte do meu gosto musical através da revista. foi ela que me deu subsídios para gostar de pet shop boys e afirmar isso em público, por exemplo (imagina para mim, que sou fã de jazz e que tenho amigos que houve e fazem esse tipo de som!!!). e foi através dela que descobri e passei a amar smiths, cure, echo, new order e mais um montão de bandas inglesas que eram filhotes do punk. por essas e outras, punk, para mim, nunca foi ramones, mas sex pistols (podrera por podrera, prefiro as inglesas que são muito mais charmosas)…

    sei lá, me esetendi…

  3. “como se a infelicidade fosse uma parte inevitável do conceito de classe-média”.
    E responde a classe-média: “Mas quem sou eu se, quando alguém vier me contar uma desgraça, não tiver uma desgraça-mor para contar?”
    E isso é ridicularmente real, pior que cuspir na rua…

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