Pele Impressa

Martin Rossiter cantava, na primeira canção do segundo álbum do Gene, algo como a whole life led/with every minute spent/trying to feel things/no one has ever felt. Ou algo assim. Pode soar como a confissão de um adicto de drogas sintéticas ou o credo de um esportista radical dos mais chatos, mas eu leio estas linhas como um manifesto de busca dentro da vida. Tentar coisas diferentes, sentir coisas diferentes, se é que você me entende.

Minha busca é tímida, confesso. Não sou dado aos vôos soltos e inconseqüentes, e há alguma bibliografia mental sobre o assunto, algo que não vale a pena ser consultado neste momento. Assim, prossigo: não há grandes feitos ou passos imensos, e mesmo as desistências podem se enquadrar facilmente nas prateleiras da banalidade. Eu, por exemplo, desisti de ter uma tatuagem. Ou mesmo duas, talvez mais do que isso.

Devo ter pensado nisso, pela primeira vez, há mais de uma década. Ora, como será que é fazer uma tatuagem? Dizem que dói, há gente que até se orgulhe do feito de resistir a longas sessões de agulhas e tintas. Como será que é ter uma tatuagem? Soube de tintas que esmaeceram, e há mais de uma piada envolvendo velhos tatuados. O laser apagaria tudo, caso eu me arrependesse, como eu li numa lista de promessas da moderna cirurgia plástica. Várias dúvidas atravessaram minha mente, mas nenhuma teve o poder daquela que surgiu quando me pus a definir o que tatuaria.

A definição do que não tatuar é simples, quase pueril em sua clareza. As imagens da cabeça de um cavalo ou do busto de uma índia norte-americana são encontradas em braços diversos ao redor do mundo, e definem toda uma declaração de princípios em torno da breaquice humana. São pontos cegos do bom gosto, da mínima percepção do que efetivamente se enquadra num conceito de estética. Além destas obviedades, descartei de imediato caveiras, personagens de quadrinhos, frases de efeitos, e, claro, tribais. Tribais são tão providos de personalidade quanto uma dançarina do Faustão, personagens de quadrinhos geralmente ficam tortos, e a única frase interessante que já vi tatuada em alguém foi Je Ne Regret Rien.

Balancei quando me ocorreu a simbologia de filosofias orientais. Nada de ideogramas como Felicidade ou Paz; por que espécie de criatura patética me toma o leitor? Pensei em algo colhido do Tao ou do Zen, e quase me encontrei ao pesquisar expressões associadas ao samurai e ao aikidô. Era uma época de intensa vivência, tanto em treinos quanto em leitura, e senti que poderia ter algo discreto e que me expressasse em alguma faceta, ao menos.

Não fiz tatuagem alguma, como o começo do texto já explicou. Ocorreu-me que as tatuagens não diferem das camisetas no aspecto de divulgarem o que pensamos, ou achamos pensar. Camisetas, inclusive, me remetem àquela fase difícil chamada adolescência. Somos especiais demais quando somos adolescentes, ou apenas nos sentimos assim, e achamos que todos precisam ter certeza do que somos. Somos posers. Alguns são posers mesmo depois do vinte anos, mas isto é assunto para psicanálise, e não para sociólogos de beira de balcão de boteco.

Enfim, digo: se sinto algo, se estou envolvido verdadeiramente em algo, não deveria eu estar, naturalmente e sem esforço, emitindo aquilo que tenho dentro de mim? Existe uma piada envolvendo feijoada e o dia seguinte aqui, mas estaríamos fugindo ao ponto, apesar da óbvia diversão possível.

Vou mais longe: se estou imbuído de uma paz meditativa, ela não deveria estar fluindo por meus poros, e intrigando os transeuntes em torno de mim? Porque eu deveria colocar isto em um cartaz sobre mim? Digamos que eu estivesse usando um cartaz que expressasse minha paz meditativa, mas meu rosto se mostrasse angustiado: seria eu coerente, não estaria, de certa forma, traindo o conceito que minha camiseta, ou tatuagem, visava divulgar? Muitas vezes saio de casa sem prestar atenção a que camiseta estou usando. Mais de uma vez fui surpreendido por alguém que comentava também se interessar por aikidô, e só então notava que usava uma camiseta de aikidô. Minha atenção não estava ali, eu não estava presente, e não estudava.

Por outro lado, há certos hábitos que fazem o monge. Imergir no ambiente de um mosteiro pode facilitar o caminho para limpar a inquietação da alma. Uma roupa de algodão cru, simples e leve, assim, pode inspirar maior atenção, e uma busca silenciosa da serenidade. Olhar uma tatuagem em meu braço poderia, da mesma forma, lembrar-me do que busco, me realinhando com minhas intenções mais difíceis de encaixar no cotidiano.

Por via das dúvidas, talvez eu amarre um fio de algodão no meu dedo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Pele Impressa

  1. ian disse:

    Analisando a minha personalidade que vive em constante mutação – ainda estou na busca da “titular” -, não fazer uma tatuagem pra mim seria um convite pra não fazer besteira. (Mais uma)

  2. md disse:

    penso que fazer uma tatuagem é como pegar um cão ou gato pra criar: se você tem alguma dúvida, melhor não fazer.
    …quem gosta e quer, vai lá, faz e pronto… agora, se faz pra si ou para mostrar, é de cada um.
    é como gostar de beringela. eu detesto. tem gente que não vive sem.

  3. gilvas disse:

    caro mafra, acho que ambos passamos da idade da tatuagem. aliás, notei que estava velho quando passei da idade do suicídio do rockstar, ou seja, vinte e sete anos, e resolvi curtir a vida.

  4. mafra disse:

    ahahaahahahahahaha

    adorei. nem sei se me identifico, mas acho que sim. também já me propus fazer uma tatoo várias vezes e até hoje nada. mas acho que ainda faço. acho…

    alguma sugestão?

  5. Pingback: Pele Impressa | Mulher Gostosa e Cultura Pop em New York City - SPEAKORAMA

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