Capitalismo ptIV: Produção Cultural

Por baixo das banalidades da existência humana, devem existir ondas, como as de um profundo e violento mar subterrâneo. Estas vagas diluvianas explicariam porque certos assuntos voltam a nos assombrar com tamanha persistência, de tempos em tempos. O assunto que assombra esta noite tenebrosa, úmida e fria de outubro são as mazelas de tempo de execução do sistema econômico sob o qual vivemos. Como sou um escritor que preza por uma certa dose de relevância, foco hoje meus resmungos nos sucedâneos que nos vendem à guisa de cultura.

A Revolução Industrial definiu novos parâmetros para as atividades humanas, e centrou os esforços na criação de excedentes, alcançados pelas máquinas, pelos novos processos e pelas novas formas de exploração da mão de obra. Os socialistas utópicos novecentistas, que mais pareciam anarquistas em sua expressão, imaginavam que tal excedente permitiria que as pessoas tivessem tempo livre para se dedicarem às artes e a idéias elevadas. Eles morreriam horrorizados caso fossem colocados subitamente diante do panorama atual.

O trabalho tornou-se uma obrigação compulsória, um costume sobre cujo formato não se reflete, pelo menos não o faz o grosso da patuléia. Se um vivente sai pelas baias de uma corporação atual, e questiona qualquer trabalhador sobre a sua motivação, receberá balbuciares em retorno, ou ares de incredulidade. Exceto, talvez, se encontrar o Dilbert, o que já seria bastante revelador, embora não suscite um análise de consistência.

Numa sociedade com um estilo de vida extremamente acelerado, e de pouca inclinação à reflexão, há pouco tempo para dedicar à fruição das formas artísticas que emocionaram nossos antepassados do século XIX, por exemplo. Não existe um tempo adequado de atenção, então não há como apreciar um texto mais longo ou uma tomada mais lenta. Aliás, estou admirado que ainda estejas aqui lendo um texto que demora tanto a ir ao ponto. Alô? Há alguém aí?

Entretanto, o ser humano, em suas profundezas, ainda clama por significado, ainda exige ser imerso em algo que sacie sua sede de entendimento de algo ou pertencimento a algo. Nada mais natural, então, que o mercado alimente este desejo com cultura em formato de sanduíches. Os lanches mais óbvios desta obtusa lanchonete são os livros de ficção de autores como Dan Brown e JK Rowling. Ambos trabalham com uma mistura bem calibrada de misticismo e aventura, tudo embalado por uma prosa burocrítica do estilo Veja de redação. Ainda que sejam inofensivos livros para idades mentais por volta de doze anos, o mais provável é que vejamos marmanjos e moças crescidas se esbaldando com as facilidades inócuas de suas páginas.

Existe a tecla óbvia da literatura da nova era, sempre pronta a abastecer nossas inseguranças de apartamento com soluções triviais que não poderíamos enxergar apenas pelo nosso nevoeiro mental. Prefiro passar para o cinema, oh, a grandiosa arte das telas. A tendência dos ícones culturais do cinema data da década de setenta, a princípio. Jornada nas Estrelas seria um produto interessante para uma análise, mas temos Guerra nas Estrelas, alvo de um culto muito mais néscio e parvo do que o sofrido pelo seriado do Doutor Spock e companhia.

A trilogia de George Lucas deveria ser apenas uma bobagem divertida, filme para consumir como se consomem pipocas ou barras de chocolate. Afinal, em termos de cinema propriamente dito, tivemos um mediano primeiro filme, uma continuação que subverte a lógica do segundo filme ruim, e uma ruína filmada em seu terceiro episódio, este calcado obviamente na venda de bonecos de pelúcia em detrimento da mínima coerência ou relevância. Falar dos filmes que foram filmados mais tarde, e que seriam anteriores, na cronologia, aos supracitados, seria chutar uma galinha mais morta do que o Caetano. Entretanto, mesmo estes desperdícios de filme seriam defendidos ferrenhamente por seus tacanhos admiradores, que ali enxergam profundas intrigas e um prodigioso estudo da política desenhada em uma sociedade metafórica. Quanta bobagem.

Em Springfield, quase tudo serve para mostrar que embarcamos nossas mentes numa efemeridade vergonhosa. Os bonecos amarelos dos Simpsons são tidos como inatacáveis,verdadeiras unanimidades em animação caricatural: heróis em epopéias que enxergam profundamente nossas almas, afogadas nos dilemas da humanidade, presas que estão sob nossas peles tão claustrofóbicas. Oh, diabos, eu soube de livros onde os Simpsons são usados para explicar toda sorte de dilema filosófico, numa ampliação dos baixios rasos em que Josten Gaarden arremessou a história do pensamento, e há pessoas que são capazes de levá-los a sério. Quando uma sociedade é transcrita em tons caricaturais, existe uma, talvez não tão, sutil diferença entre crítica social e simples homenagem. Em outras palavras, os americanos podem se identificar com o Homer, sem problemas. Que problema há em ser o Homer? E você ainda pode usar aquelas camisetas legais do Homer com o cérebro minúsculo, ou alguma mash-up em que o Darth Vader foi desenhado no estilo Matt Groening. E ainda há a Marge na Playboy! Uma dose brutal de iconoclastia de mentirinha para a multidão de Tyler Durdens de um planeta vendido.

Outro triunfo da publicidade que me assombra é a Apple. Estou digitando este texto em um desses teclados brancos que são uma merda para quem escreve em português arcaico, ou seja, com acentos e sem abreviações, o que me dá uma boa perspectiva do que o culto pode fazer por um produto. Produtos são elementos triviais da vida, e, como tal, apresentam virtudes e defeitos. Exceto o Mac. Um Mac é fantástico em qualquer das suas facetas, exceto, talvez, pelo preço, o que deveria te motivar a ganhar dinheiro para comprar um, e não questionar se Steve Jobs é, ou não, um dos enviados de deus na terra dos consumidores compulsivos. No evangelho do Macmaníaco não existe espaço para contestação da verdade divina em plástico branco, e é possível efetivamente traçar uma linha separando Steve Jobs de Bil Gates, como se eles realmente fossem tão diferentes assim. Em tempo: tive digitar novamente todos os acentos quando resolvi publicar este texto.

Isto me lembra uma das dezenas de razões que eu compilei para não ter filhos. Já imaginou o horror que seria ver o seu rebento, já bem evoluído em sua adolescência, lustroso e saudável, declarar que espera seguir a carreira de publicitário. Que dor imensa deve afligir o coração do pai forçado a decapitar subitamente sua cria, crescida na base de Toddy e raspa de pêra, e, logo depois, pôr-se a buscar local adequado para desovar o corpo, agora inocente das intenções pérfidas da mente que abrigava? É demais para um só coração, faz a pessoa se descobrir um joguete do destino, um títere que jaz nas mãos cruéis de deuses olímpicos de pouco espírito esportivo.

As coisas, claro, não param de piorar: ouvi falar que lançaram algo conhecido como Lost, e revistas pretensamente sérias, como a Bravo, se puseram a elogiar. É, o fim se aproxima numa cavalgada louca. Vou ler um livro de algum chato resmungão.

***

Veja também:

Capitalismo I, Capitalismo II e Capitalismo III.

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Sobre gilvas

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3 respostas para Capitalismo ptIV: Produção Cultural

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