A Improvável Arte de Empurrar

Cena: Toca o telefone, eu atendo, o sujeito se identifica, e diz que quer falar com o Senhor Gilvan Tessari, assim, em letras maiúsculas. Pode ser uma moça também. Assim como o gênero, o sotaque também muda, ao sabor dos incentivos fiscais para implantar callcenters em lugares improváveis, e levar aos povoados distantes a modernidade em forma de empregos civilizados. Ironia, claro.

A probabilidade maior, levantada pela observação do meu próprio campo amostral ao longo de dez anos, é de que seja cartão de crédito ou conta em algum banco safado que me vê como um vampiro enxergaria uma vítima, mas assinaturas de revistas têm uma boa fatia na incomodação. Vai longe o tempo em que me ligavam de instituições filantrópicas, e a razão disso constitui, para mim, um mistério. Que não pretendo investigar, muito obrigado, estou bem assim.

Apesar da pecha de ogro que me imputam, tenho dó das pessoas que caem nesses empregos. Ontem mesmo vi uma mulher diante do posto do Banco Real, com uma prancheta na mão, e o olhar de uma pessoa que precisa alimentar seus filhos, e que encararia qualquer emprego sério para isso. Exagero ao descrever Entrevistador para Contas de Banco Safado como “emprego” e também como “sério”, mas não é fácil manter a minha fama. Fiquei com pena, sim, mas não deixei de rodar o protocolo Sem Contato Visual, que utilizo direto em reuniões, e que já me poupou de muitas incumbências desagradáveis. Viva Scott Adams, onde quer que você esteja.

Sou assinante da Abril, que me envia, quando eles estão de boa vontade, meu exemplar mensal de National Geographic Magazine. O exemplar vem carregado de publicidade inútil, um bolo de papel e plástico que torna bem incoerente aquela campanha de planeta sustentável que a editora alardeia em suas páginas internas. Além da papelada, existem as ligações telefônicas, oferecendo, quase sempre, a lamentável Veja. Em outros momentos, é a Bravo, hoje em dia quase tão lamentável quanto sua irmã na família gorda que a adotou.

Disparei meu cartão de crédito uma vez, por barbeiragem da moça do caixa de uma loja. Na segunda-feira, minutos antes de eu cancelar, recebi a ligação de uma moça do banco, e ela exultava pelo meu feito, inflamava-se ao me admitir no maravilhoso Clube dos Empurradores com a Barriga. Tão emocionada ela estava que eu quase pensei que poderia desistir. Entretanto, fui forte, e informei-a do cancelamento iminente, recebendo imediatamente uma lista de vantagens que eu estaria perdendo. Nenhuma delas me comoveu, e despachei a mocinha elogiando sua competência, e sugerindo que procurasse um emprego melhor. Ela deve ter me odiado por um mísero instante, mas eu me senti como um experiente orientador de carreiras, o tipo de pessoa que aconselha caçadores de cabeça mundo afora.

Minha experiência de vida mostra que o mercado produz diversas coisas que ninguém quer, e aí precisa empurrá-las. Esta é a única razão para que você receba ligações telefônicas de estranhos simpáticos. Se cartões de crédito fossem boa coisa, eles precisariam ser empurrados pelos bancos? O mesmo vale para seguros, incluindo aí as diversas modalidades, como automóveis, imóveis, vida; seguros de automóveis, hoje em dia, chegam a vir com pacotes de auxílio em consertos domésticos. O que poderia parecer um equívoco de marketing, talvez demonstre que as corporações finalmente estão pensando em ofertar serviços de que precisamos, e não apenas o que lhes apetece.

Relacionados: Ganhar ou Perder, Atentado, Alegria.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para A Improvável Arte de Empurrar

  1. Pingback: Jack Torrance e os corredores do Angeloni « sinestesia

  2. marcelo de almeida disse:

    “Sr Gilvan Tessari “Moore” atacando sem piedade os capitalistas ! Assistam “The Corporation”Que vai fazer pelos grandes negocios o que o filme Tubarao fez pelos tubaroes”kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, Gostei ..Cara sumiram com a minha “PIAUI” Ja faz uns tres meses !! Abraços……

  3. Ana Corina disse:

    MAs ele falou, gente, National Geographic. Não? Eu voto na alternativa E.

    😉

  4. mafra disse:

    tô louco pra saber que revista tu assina…

  5. Ana Corina disse:

    Este eu consegui ler inteiro. hahaha.

    😉

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