Arthur C. Clarke and Gentry Lee: The Garden Of Rama

Clarke, a despeito da notável pilha de títulos, não exercita uma prosa especialmente atraente. A descrição de seus personagens é direta e seca, subtraindo-lhes a graça que um criador melhor versado em letras poderia proporcionar. A imaginação do homem compensa essas faltas, ou eu não teria passado da leitura de seu primeiro volume. Uma elucubração é o que busco, e não uma crítica óbvia.

Elucubrando, então: existem autores que se demoram descrevendo suas criaturas, e há os que, sobrenaturalmente, conseguem extrair um pacote completo de personalidade a partir de uma única pincelada. Não é o caso de Clarke, conforme colocado no parágrafo anterior. Chovem descrições do tipo “João entrou na sala. Ele era apaixonado por Maria desde que se conheceram.”, descrições que poderiam ser deduzidas pelo leitor, e não lançadas em sua cara tão diretamente. Porque um escritor experiente Clarke se limitaria assim? Uma possibilidade é que o desenho raso e apressado dos personagens seja intencional. Exemplos:

Explicação Um: Pessoas ordinárias não apenas costumam fazer coisas extraordinárias, como o fazem, pressinto, numa taxa maior do que as pessoas extraordinárias. Não lançarei mão de estatísticas aqui, até porque a definição de ordinário, mesmo em contraponto a extraordinário, não está ao meu alcance.

Explicação Dois: Uma das funções primordiais da ficção passada em dimensões cósmicas é nos ensinar humildade, uma noção romanceada de que somos partículas ridículas em um universo imensurável por nossos parâmetros. Um recurso do escritor para nos colocar na perspectiva, neste caso, seria trabalhar com humanos de menor expressão.

Apesar das restrições descritivas, Clarke é uma pessoa preocupada com a qualidade do que escreve. Verossimilhança, por exemplo, é um de seus nortes, e isto gera algumas situações estranhas. A presença de uma forte simbologia bíblica pode ser um esforço para buscar uma ficção que possa ser fundida, na mente do leitor, com a realidade geral ou específica daquele leitor. Clarke é um cientista, e, como tal, teria uma tendência ao agnosticismo, ou a um distanciamento crítico em relação à religião. Entretanto, ele continua consciente de que o restante da humanidade, boa parte dela, nutre sentimentos e até cultos religiosos. A humanidade que ele descreve, ou sua amostra, mostra-se preocupada com religião.

E Clarke vai mais longe: a colônia dentro de Rama III se chama New Eden. A situação de Nicole, malgrado haverem dois Adões, é semelhante a da Eva bíblica. Sua filha assumirá o manto efetivo da primeira mulher ao ficar com um dos Adões, aquele que não é seu pai, obviamente, no Nó, para observação. Clarke também se preocupa com a divisão dos seus grupos em diversas religiões, assim como não deixa de descrever diversas camadas da sociedade, incluindo a bandidagem e os marginais de outras espécies. Se o faz com o distanciamento frio de um cientista é pela simples razão de que ele é um cientista.

O ferramental de Clarke sempre foi confiável, o que pode parecer tedioso para leitores de autores de ficção cósmica mais dados a fogos de artifício. Clarke não é espetaculoso, ele dá passos pequenos para não dar passos errados. Os crescendos de sua epopéia são incrementais, pequenos degraus se alimentando dos anteriores, e dando pistas dos próximos. Difícil chegar diante de uma página de Clarke, e exclamar “Que mentirada”. Neste panorama de exercício restrito da futurologia, não podemos culpar o escritor por trabalhar quase exclusivamente com elementos da atualidade disfarçados em suas hipotéticas formas futuras.

Em primeiro lugar, esta estratégia entrega uma convicção: o futuro é mais do mesmo, a humanidade seguirá repetindo seus erros em um caminho fatalista que nunca será uma espiral, não tomando efetivamente um rumo acima ou abaixo, mas apenas seguindo. A humanidade de Clarke não reflete como uma massa, apesar de alguns poucos iluminados o fazerem, sendo rejeitados por isso. O pessimismo do autor vaza sobre suas linhas de forma contínua.

Em segundo lugar, a segurança: as parábolas futuristas ou alienígenas do romancista Clarke não perderão força porque ele recicla a realidade em sua ficção. Os vírus RV41 decalcada na Aids que assolava os anos noventa, a corrupção, as famílias disfuncionais, o preconceito, a ignorância: estes são os tijolos que Clarke usa em The Garden of Rama. Ainda que eu não tenha terminado, é previsível que a colônia em Rama III seja uma amostra gigante para que uma raça superior tome conclusões sobre a Terra e seus habitantes. Pode ser que não haja um martelo gigante balançando sobre nossas cabeças como em 3001, mas o conceito é familiar na literatura de Clarke.

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Seguindo para Marte? Tente As Crônicas Marcianas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Arthur C. Clarke and Gentry Lee: The Garden Of Rama

  1. asdrubal disse:

    crise.mmc.blogspot.com

  2. asdrubal disse:

    olha o meu blog Gilvas!

    asdra

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