Jonathan Mostow: Substitutos

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A duração de noventa minutos, na realização cinematográfica de qualquer calibre, é uma encruzilhada crucial. Cravar noventa minutos de filme é um objetivo nobre, e o realizador deveria carrega-lo consigo tal qual uma régua. Pela minha matemática simples, filmes que não alcançam noventa minutos deveriam ter ficado lá pelos trinta e poucos minutos que caracterizam um média-metragem, ou mesmo se contentado em um desenvolvimento rápido no formato de curta-metragem. A literatura permite que existam crônicas e contos além do romance, então porque a sétima arte não permitiria êxitos em metragens menores?

As durações longas podem ser necessárias: como contar um épico daqueles que atravessam gerações sem exigir três horas de um espectador? Maratonas de poltrona se prestam a este tipo de filme, ainda que muitos sejam decepções pavorosas como Sunshine, estrelado por Ralph Fiennes em algumas semanas pouco inspiradas. O território além das duas horas, todavia, muitas vezes é sequestrado por diretores incompetentes, do tipo que não sabem aplicar a máxima de que “uma boa pescaria se faz pelos peixes que ficaram de fora”. Tarantino é um ápice desta modalidade, embora muitos filmes de ação tenham se permitido estes deslizes nos últimos tempos.

Filmes de ação, por sinal, deveriam seguir a pauta de noventa minutos cuidadosamente, ou acabam por forçar a paciência: tiros, frases de efeito e correria podem ser divertidíssimos durante uma hora e meia, mas enchem o saco quando passam disso. É uma fronteira clara. A mesma regra se aplica a produções cômicas: a musculatura facial não pode ficar em estado de alerta por tempo excessivo, e meus extensos pés-de-galinha que o digam.

Ontem eu tinha duas opções para aproveitar a promoção de segunda-feira no xópis Floripa: Lua Nova ou Substitutos. Como não me apetece ver uma versão gringa e de caninos longos da Malhação, ainda mais sem o especial tempero dos maravilhosos perdedores da geladeira da Globo, foquei em Substitutos.

A sinopse fala logo em ficção científica, o que prendeu meu interesse, apesar do Bruce Willis. Apesar das dezenas de fãs, o astro de Duro de Matar é paradoxal: um astro do filme de pancadaria e ação com um viés sentimental capaz de emocionar qualquer reunião vespertina de crochê. Mas passa, vai: eu me diverti em Sexto Sentido e Duro de Matar, apesar de não lembrar qual das partes eu vi. E, acredite, eu fui uma das quatro pessoas que gostaram de Corpo Fechado. Isto me capacita a não torcer o nariz para mais uma película estrelada por Willis. Na verdade, podia ser bem pior: em várias cenas do filme tu podes observar que o diretor estrutura as coisas de forma que o Will Smith poderia substituir Willis, se necessário. Ninguém merece Will Smith.

Aos quarenta e dois do segundo tempo, eu confesso que gostei de Substitutos, mas deve-se levar em conta alguns atenuantes: era segunda-feira, sessão a seis pilas, cinema de casais e pipoca no colo. Cacoetes de Matrix e de Minority Report aparecem em mais de um momento, mas o que é ruim de aturar é a parte sentimental, que não convence nem uma taturana: aquele lance de perder filho é lamentável, e pouco acrescenta nas motivações do protagonista. O diretor também erra a mão no didatismo com que trata a relação com a esposa.

Bom é ver aquela tropa de bonecões parecendo âncora de telejornal, todos eles, e as engraçadas consequências de um mundo onde os avatares de MSN tomam vida. A cara plástica, inclusive, te deixa menos sensível à canastrice de Willis e de boa parte do elenco. Aliás, não há nenhuma interpretação memorável. Lembro mais das perseguições, este estigma do cinema ianque, que são bem resolvidas, tanto dentro da reserva de seres humanos quanto na cidade, quando o personagem de Willis persegue sua parceira sem saber que ela está sob controle de alguma outra pessoa.

Os furos de roteiro? Ora, não sejamos assim tão exigentes nestas circunstâncias, mas fica um pouco chato engolir o fato de que o desligamento massivo dos substitutos cause apenas alguns acidentes banais de trânsito. Como apontado pela Maricota e pelo Lucrécio, dois dos comparsas desta sessão, onde estão os aviões caindo e os doentes morrendo em hospitais? Resmungos à parte, diversão da boa!

Curte pipoca? Dá uma olhada em Jumper também.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Jonathan Mostow: Substitutos

  1. Fora ele estar há anos só “usando msn” e depois mete o pau “na vida real”. Músculo atrofiado pra que?

    Sobre a questão do desligamento, a série FlashForward foi muito mais sincera no apagão global da humanidade, mostrando um cenário apocalíptico. Mas também em dias já estava tudo resolvido, bonitinho.

  2. Jux disse:

    Cinco pessoas – tb gostei do Corpo Fechadézimo!
    Quanto aos noventa minutos… well… concordo e creio que essa norma deveria se aplicar a peças teatrais (salvo honrosas e raras exceções)! Nunca me esquecerei de uma peça, supostamente uma comédia (ok ok, nem lembro o nome da dita), que durou DUAS HORAS E DEZ MINUTOS! Tristíssimo porque era comédia muito ruim, piadas péssimas e chegou um ponto em que tudo se tornou arrastado demais. Não levantei e saí pq o teatro era pequenúsculo (teatro da ULBRO) e porque alguém ali precisava mostrar respeito pelo outro, ainda que a trupe-autor-diretor-enfim não tivesse demostrado qualquer consideração pela platéia! Abraço =)

    • gilvas disse:

      os companheiros de infortnio mereciam o apoio de cada sofredor que pudessem arregimentar, ento foi sbia a deciso de permanecer at o final. pior seria no tac, com aquelas cadeiras que rangem como se fossem animadas pelos gemidos infernais mais baixos que nosferatu j engendrou.

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