Gabriel García Marquéz: Notícia de um Seqüestro

Notícia de um Seqüestro, apesar de levar o nome de Gabriel García Márquez em sua capa e ter sido escrito por ele, não é um livro do escritor colombiano. Famoso pelas fantasiosas reconstruções de seu universo familiar em romances como Cem Anos de Solidão, Márquez, aqui, estava preso pelas correntes da amizade a figuras de projeção nacional em seu país, e também à delicada situação política pela qual a Colômbia havia passado.

A narrativa gira em torno da série de seqüestros deflagrada pelo cartel de Medelín no começo dos anos noventa, com o objetivo de gerar moedas de troca nas negociações com o governo colombiano. Este vinha ameaçando com extradições as pessoas ligadas ao tráfico de drogas, e a violência jorrava de ambos os lados da contenda.

Naquela época, pelas minhas enferrujadas lembranças, os telejornais pululavam de notícias sobre a guerra contra o tráfico, e a expressão “Cartel de Medelín” estigmatizou a palavra “cartel” a ponto de, quando esta foi usada, mui corretamente, para descrever as práticas pouco corretas dos postos de combustível em Florianópolis alguns anos depois, era difícil não pensar em Escobar.

Devidamente restringido pelas entrevistas dos seqüestrados e outros envolvidos, quase todos vivos e carregando os acontecimentos frescos em sua memória, Márquez pisa em ovos, fazendo antes um trabalho de compilador minucioso do que de romancista talentoso. Nada mais justo que ele tenha servido seu país com suas habilidades, mas o resultado serve apenas para os colombianos e estudiosos da história daquele país. Quem espera ler um legítimo Márquez, deve procurar outros títulos dele.

A proximidade com os relatos, e a impossibilidade de filtrá-los em suas famigeradas lentes de Realismo Fantástico, torna a linguagem de Márquez desagradavelmente próxima de uma coloquialidade jornalística. A tradução de Eric Nepomuceno pode ser culpada por alguns dos tropeços, entretanto: em vários momentos, mesmo um conhecedor raso de espanhol, como eu, pode notar que certos cognatos poderiam ter sido adaptados, e que certas terminologias, apesar de corretas, poderiam soar mais fluidas e contemporâneas se vertidas com mais cuidado.

Parágrafo aleatório extraído da página 103, edição brasileira da editora Record:

Escobar não gostou de uma única linha. Assim que leu os jornais no dia 11 de outubro, mandou uma resposta furibunda a Guido Parra para que eu ele fizesse circular nos salões de Bogotá. “A carta dos Notáveis é quase cínica – dizia ele. – Que soltemos logo os reféns porque o governo está demorando a estudar o nosso caso. Será que estão pensando que nós vamos nos deixar enganar de novo?” A posição dos Extraditáveis, dizia, era a mesma da primeira mensagem. “Não havia porque mudar, já que não obtivemos respostas positivas às solicitações da primeira carta. Isto é um negócio e não um jogo para saber quem é mais esperto e quem é mais bobo.”

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Sobre gilvas

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6 respostas para Gabriel García Marquéz: Notícia de um Seqüestro

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  3. marcelo de almeida disse:

    Nao vou ler esse. nao caio mais nessa!! Me basta”m
    emorias de minhas putas tristres”

    • gilvas disse:

      ora, ora, visitas um artista em seu crepsculo, ento s encontrars escombros ou artefatos por demais polidos. cem anos de solido, apesar das pardias que outros fizeram dele posteriormente, um romance encantador.

  4. mafra disse:

    curioso, eu tinha esse como um ótimo livro. o li assim que saiu. ou seja, lá por 97/98 e me lembro que adorei a “reportagem” do garcía marquéz e a li em uns dois dias (num golpe só). agora, eu tinha uns 20 anos e sei lá, talvez precisasse reler o trabalho… ou não, né?!?

    abraço.

    • gilvas disse:

      provavelmente “ou no”: lembre-se que no curto jornalistas que escrevem livros, e o gabo, neste livro, ficou abaixo do que eu esperava dele: competente, mas no chega a encantar.

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