Osama e Cidade de Deus

Devido a circunstâncias bem azucrinantes de ordem médica, estou recolhido em casa. Uma vez ilhado, ataquei a pilha de livros na prateleira, e, nos intervalos, tenho visto alguns filmes que ficam em outra estante.

Na manhã de quarta-feira, fui de Osama, um exemplar de cinema afegão. Um tanto ingênuo em sua realização, como seria de se esperar em um país sem nenhuma tradição no assunto, o filme tem os méritos óbvios ao denunciar uma situação que os ocidentais não gostam de ver. O que interessa, principalmente ao povo europeu, é o petróleo que se esconde na Ásia, e que poderia passar em oleodutos através das terras afegãs.

O filme é triste, na linha e na intensidade que podemos conferir em Tartarugas Podem Voar, o que poderia definir alguns parâmetros do cinema de países orientais e predominantemente muçulmanos. Desde os primeiros minutos da película, quando as mulheres se insurgem contra as arbitrariedades do talebã, o espectador sabe que nenhum destino será minimamente razoável ou aceitável.

Naipaul escreveu sobre o islamismo em países não-árabes, e é um bom complemento a este e outros filmes na mesma temática.

Cidade de Deus, revisto agora, mostra algumas fragilidades. A direção de não-atores, que o Meireles parecia dominar, não era tão boa assim. Nada que inviabilize a fruição deste bom filme, que ainda tem o mérito de ter definido um divisor de águas no cinema nacional. Meireles, por sua vez, cresceu horrores como diretor, então a perspectiva muda de plano.

Nesta segunda passada, saltou à minha vista o destino semelhante de dois bandidos gente-boa. Cabeleira e Bené. Eles foram interpretados por irmãos, o que reforça algumas semelhanças em seus personagens, também irmãos. Cabeleira é integrante do trio Ternura, que se desfaz por ocasião dos resultados funestos do assalto ao motel. Cabeleira, ídolo da molecada, se apaixona por Berenice, e é morto quando está partindo para um sítio, onde planeja fumar maconha o dia inteiro.

Bené se apaixona pela cocotinha que Buscapé queria para descabaçá-lo, mas tudo bem: não há como não amar o boa-praça Bené, que é o lado A do disco soturno que é completado por Zé Pequeno, o terror da favela. Quando este torna-se por demais violento, Bené resolve se mandar com sua menina para o mesmo sítio mítico e para curtir a mesma canabis com que seu irmão mais velho sonhava. Sua morte é épica como a de Cabeleira: este morre em câmera lenta enquanto Berenice segue no carro roubado, impossibilitada de salvá-lo. Bené morre sob os estouros estroboscópicos do baile onde Zé Pequeno surta, detonando a guerra que destruirá o status quo da favela.

Que eles tenham destinos semelhantes, é óbvio que se trata de uma escolha estética declarada de Meireles. O sítio, todavia, é que ficou na minha cabeça, apesar de todo o impacto das cenas que se seguirão no filme. O sítio, que é um resquício dos anos sessenta, seja pela herança hippie, seja pelo esconderijo contra a ditadura que assolava os espaços urbanos em primeiro lugar.

A inviabilidade do sonho é que choca: o que aqueles rapazes urbanos, sonhando com a redenção rural, encontrariam para fazer e teriam para subsistir? Muito pouco, eu presumo. Desintegrariam seus relacionamentos, a menos que algum milagre fizesse surgir em suas mãos e em suas mentes outro eu, este dado a resolver os dilemas da existência lenta no universo campestre.

O fato é que ambos se livram deste futuro, e morrem imaculados, perfeitos, como cornucópias tupiniquins de Jim Morrison, sem nunca escapar à juventude e ao mar de possibilidades inviáveis que deixam certos presuntos precoces.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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