Steven Pinker: Como a Mente Funciona

Estou ruminando Como a Mente Funciona, tijolão de Steven Pinker, há meses. Trata-se de um catatau com quase seiscentas páginas com que eu presenteei meu pai, pedagogo e filósofo de boteco, só para poder pegar emprestado. E agora terei de comprar uma cópia para mim, a menos que algum dos raros leitores deste pasquim se digne a buscar um exemplar em um sebo de sua preferência.

Existem razões práticas para ter demorado tanto, a saber:

a. Livros grandes pesam na mochila, ainda mais quando precisam dividir espaço com garrafa térmica, jaqueta, e outros apetrechos de quem anda de bicicleta em uma cidade de clima temperamental;

b. Pessoas mais velhas, como meu pai, têm um apreço diferente por livros, a ponto de encapá-los com plástico, e não sou eu, filho bagunceiro, quem vai acabar com a capa do livro dele;

c. Tenho poucas filas em casa, então o tempo disponível para ler é menor do que o encontramos na vida burocrática do ser humano brasileiro no século XXI. Para piorar, tenho a edição mensal da National Geographic Magazine para ler.

Como a Mente Funciona é um livro que deslancha efetivamente depois de um terço das páginas, e estamos falando aqui de um livro que ganha sabor mais óbvio lá pela página cento e alguma coisa; tenha paciência, e serás recompensado. Como isto funciona? Pinker precisa definir um solo adequado para trabalhar suas conclusões, como em qualquer trabalho científico. Sim, este livro é científico, conforme logo falarei.

Retorna: o trabalho do autor se pauta por duas grandes áreas da ciência, a saber, o evolucionismo de Darwin e a moderna teoria cognitiva. Ele pinça artigos e pesquisas de outros colegas, e vai construindo um mosaico onde suas teorias são encaixadas com a habilidade de um escritor competente.

Pinker é um cientista, mas não tem sangue de barata, como poderiam fazer alguns estereótipos difundidos pelos filmes de Roliúde e pela dramaturgia televisiva. Sobram farpas para os defensores de outras linhas de pesquisa, consideradas inócuas ou mesmo néscias, e é óbvio que evolucionistas nem precisam começar a folhear este livro.

Coerente, o autor não entrega soluções, mas sim subsídios para tratar problemas. A mente humana é reduzida a seu conceito: uma ferramenta, moldada pela evolução, e apenas uma ferramenta. A decepção pode envolver aqueles que enxergam a mente como o ápice da evolução. O próprio homem nada mais é do que um ramo em uma árvore que cresce em diversas direções. Noves fora, entenda: nós, humanos, não estamos no topo desta árvore. Aliás, nem existe topo.

Newton descobriu como a gravidade funciona, mas nunca conseguiu explicar porque, e os cientistas continuam tentando, sem sucesso, chegar a alguma solução deste problema que atormentou Einstein até a derradeira hora. Pinker, da mesma forma, não explica os mistérios da mente, como a consciência ou a falsamente trivial questão de como vemos, por exemplo, a cor vermelha. Tudo o que ele apresenta são as formas como o nosso ferramental se comporta, respaldado por dezenas de outros pesquisadores.

Nesta altura da resenha, alguns podem pensar que este é um livro chato, e estariam um pouco enganados, ou talvez até bastante enganados. Pinker é um nerd moderno, do tipo que come gente nos sábados à noite e tem uma vida social, além de gostar de livros além dos que a biblioteca do MIT recomenda. Suas citações são quase sempre divertidíssimas, e ele tem o raro talento de mesclá-las elegantemente dentro de suas explanações.

Os capítulos finais, uma vez que o embasamento teórico está bem assentado, fazem pontes com os eventos cotidianos. O sexo e a vida familiar, descritos no penúltimo capítulo, proporcionam diversão contínua e aquela dificuldade de soltar o livro, e, ao fim de cada trecho, idéias voam de um lado a outro da cabeça, conectando-se com nossas experiências pessoais. O último capítulo trata de arte, algo que não é trivialmente transcrito em termos de evolucionismo, e que Pinker trabalha com perfeição.

Todo este texto, como quase tudo aqui no Sinestesia, foi criado para te convencer a apreciar uma criação humana interessante. Como a Mente Funciona é um livro que areja nossa mente, que, afinal, é o assunto dele, e nos coloca na nossa dimensão real. Em vários momentos eu senti como se estivesse recebendo agulhadas de uma espécie de iluminação não-religiosa, uma percepção de que o universo interior é de uma riqueza inescrutável, e que toda uma vida é pouco para explorá-lo.

Gostou do assunto? Leia mais:

Newton versus Leibniz;

Carl Sagan e seus demônios;

Compre um Carro;

Seja enganado pela mídia.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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10 respostas para Steven Pinker: Como a Mente Funciona

  1. leandro domingues disse:

    Tb já li como a mente funciona ,ótimo livro mesmo.
    recomendo esses aqui .
    1 – tabula rasa – steven pinker
    2 – o mistério da consciência – antonio damásio
    3 – instinto humano – robert winston
    4 – filosofia da mente – joão teixeira

  2. Gilberto disse:

    Recebi o “tijolão” do Steven Pinker hoje. Recém terminei “O Erro de Descartes”, gostei. Estou lendo o do Eduardo Gianeti (“Uma Biografia da Alma”), estou gostando. Aceito outras sugestões. Já li vários do Dawkins, Danah Zohar, Stephen Hawkins,etc.

    • Nell disse:

      ESTOU LENDO Miguel NICOLELIS ” MUITO ALÉM DO NOSSO EU”…….ESTOU GOSTANDO..

      • gilvas disse:

        muito interessante a proposta do nicolelis. coloquei na minha lista de futuras leituras. só gostaria que eles deixassem de usar macacos nas experimentações.

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  4. Pingback: O Horror como Elemento do Design Contemporâneo « sinestesia

  5. glaucia disse:

    não foi pela armadilha de pássaros não. a propósito nem entedi a piada, rs. mas achei legal (e geralmente curto quando isso acontece) ler um engenheiro que escreve sobre cinema, arte e literatura, principalmente quando o engenheiro manja do assunto. pensei que esse tipo de coisa é possível, mas a recíproca quase nunca é verdadeira, um cineasta, ou crítico literário tentanto falar de cacarecos eletrônicos para fazer sei lá o que nas usinas hidrelétricas seria um fracasso. mas que bom que é assim!
    ah, depois de queimar alguns aparelhos eletrônicos aprendi a ler o modo de usar. de tudo. até!

  6. glaucia disse:

    olha, não sei como cheguei aqui, mas li alguns textos(inclusive o modo de usar, por incrível que pareça) e gostei bastante do blog do teu estilo de escrita. a propósito, eu tb nasci na carmela dutra.
    volto aqui!

    • gilvas disse:

      uhm, espero que no tenha chegado aqui pelas armadilhas de pssaros, como boa parte dos visitantes, haha! engraado que pouca gente l o modo de usar, ento no rola muita avaliao, por exemplo, ou cadastro de rss. mas tudo bem: seja bem-vinda, e divirta-se!

  7. Izabel disse:

    Na Estante Virtual tem vários volumes.

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