Roberto Freire: Cleo e Daniel

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Cleo e Daniel é um romance de Roberto Freire, o escritor, não o político. Lançado em 1976, o livro pode ser descrito como “datado” pelos críticos neutros, e de “cafona” pelos críticos malvados. Imagino que Freire não se importe com isso: a surrada edição de Cleo e Daniel que tenho em mãos é da décima-quinta edição, da fornada de 1987. É um considerável sucesso, de modo que realmente não importa a minha opinião sobre o assunto.

Deve existir quem leia este livro com um carinho intenso, possivelmente pessoas de duas levas bem distintas. A primeira é a de quem viveu os anos setenta, gente que estava entre quinze e trinta e poucos anos. Foge à minha compreensão aquela era de um sexo que se fazia seguro pela existência dos antibióticos modernos e contraceptivos eficazes, e que soçobraria diante da AIDS no alvorecer dos oitenta. Havia ainda a cocaína como uma droga charmosa; embora ela não seja mencionada no livro, seu espectro circula silencioso pelas páginas, bem diferente do tenebroso e sujinho fantasma do crack de hoje.

Tempo de largas costeletas, suíças fartas que se associavam a cabelos estufados, uma era onde ser peludo era socialmente aceitável. O peito cabeludo, como símbolo social, resistiu bem menos do que seu companheiro, o cigarro, e foi substituído pelos peitinhos marombados de academia, tímidos e tosados conforme as regras claras das revistas VIP, Você SA e assemelhadas.

Um segundo tipo é um certo jovem que vive de setentismo, e que viveria de sessentismo se fosse gringo. O Brasil e o atraso com que as modas chegam aqui. O ideário da ditadura é lido como se os militares e os festivais ainda estivessem ali, à espreita, e Chico Buarque nunca envelheceu, nunca teve um programa na Rede Globo com o Gilberto Gil. Aqui em Floripa é o povo que circula principalmente pelo CFH da UFSC, o centro de filosofia e humanas, e que se espalha por outros centros ditos politizados em outros campi.

Estes dois tipos seriam, presumo, os leitores carinhosos deste livro. Rudolf, seu protagonista, é um psicanalista, uma praga do início do século XX que teve um ápice nos anos setenta, e que freqüentemente é ressucitada. Desconfio que exista um culto subterrâneo a esta linha pseudo-científica da psicologia, e seus seguidores devem, ironia das ironias, tirar sarro do pessoal que segue terapia alternativa com cristais, badulaques ou energia trans-espacial com toques de feng-shui associado a algo indefinível que foi nomeado “física quântica”.

Freire deve ser absolvido. Seu livro é um testemunho vigoroso de seu tempo, e transpira honestidade. Simpatizo profundamente com a energia que Freire descarrega em sua escrita, mesmo quando me deparo com defeitos exagerados dela. Um deles: a síndrome do protagonista que é um alter-ego do próprio autor, e que possui três côcos. Rudolf é elogiado a cada quatro parágrafos por sua beleza, e sempre se irrita com isso. Freire abre esta portinhola, e se deixa observar pavoneando-se, sem pudores. Ele é correto.

Apesar do título do livro, o casal citado só se forma na metade do texto, apesar de várias pistas serem dadas antes. E, particularmente, o livro passa melhor sem seu motivo de existir.

Rudolf transita pelo ambiente porraloca dos anos setenta, entre puteiros, diretores viados de teatro, negros pintudões e sexo libertário, e pode colocar uns <sic> em todo este parágrafo, se é que você me entende. As histórias se sucedem, e são divertidas, mesmo quando se baseiam em estereótipos bobos para negros e mulheres artistas, por exemplo. Freire é um escritor que se dá melhor com os adultos, é notável.

A libertação é o objetivo desejado pelos personagens que são conscientes, e eles alcançaram isso, de certa forma. O restante são formigas, que não possuem consciência de si e do mundo ao seu redor. Rudolf busca uma criança em um prédio abandonado, num claro esforço de redenção, mas logo a larga, alcançando a compreensão que poderia tirar do evento, e sendo liberado de todos os objetos que trazia consigo no processo.

Todavia, não é o menino pobre que o comove, e sim os pobres meninos ricos, sufocados pela grana dos pais e por tudo o que ela proporciona. Neste ponto Freire se torna por demais cafona. Entretanto, atenua-se: como poderia saber ele que até mesmo as piadas sobre este assunto, escritas nos oitenta pelo Angeli, se tornariam cafonas? Ou datadas, sejamos menos malvados.

A três quartos do livro, o passeio pelo submundo paulistano se converte de forma repentina em um musical hippie: Rudolf desaparece, e o casal-título assume, inicialmente pelos olhos do psiquiatra loiro. Cleo e Daniel são mostrados em cenas fortes, onde o aspecto libertário do sexo que praticam se embate frontalmente com pinceladas de mitologia dos anjos e redenções diversas, tudo com um fundo de rejeição por parte do populacho genérico, a turba que se escondia logo após as vidraças da sala do general no condomínio do Laerte.

Uma pessoa pode gostar de Cleo e Daniel, o livro, e talvez nem goste do casal. A parte final pode não parecer um ápice para os dois terços de preparação, e nem mesmo aparenta se conectar às primeiras partes. Ainda assim, Freire passa sua mensagem, e entretém.

Um trecho extraído da página 46:

(…)
Vamos precisar os tipos de mulheres que se sentem atraídas por mim: as muito jovens e as muitos experientes, isto é, as de imaginação acesa e as de imaginação cansada. E a beleza física no homem é sempre uma esperança para ambas as coisas nessas mulheres. E, desculpem a modéstia, sou um macho eficiente para elas. Porém, satisfeita a imaginação, alimentada a esperança, a mulher quer mais. E esse mais significa comer o homem pela vagina, olhos, olfato, trompas, ouvidos, ovários, pele e intestinos. E o apetitoso e belo alimento, enfeitado por sua imaginação e colorido por sua esperança, uma vez digerido é eliminado, merda pura, numa fossa.
(…)

Se não resistes a uma literatura datada, recomendaria também este aqui, mas você ficaria pensando que eu sou uma pessoa amarga, então é melhor dares uma olhada neste outro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Roberto Freire: Cleo e Daniel

  1. md disse:

    conheci tudo isso de bem perto.. todos os personagens principais de seus livros era ele (RFreire) falando de de si e suas utopias.

  2. Jack disse:

    Boa resenha, só que o livro é de 1966, e não de 1976.
    No filme, de 1970, a Irene Stefânia (no papel da Cleo) dá um show de interpretação.
    Recomendo.
    Abs

  3. Pingback: Roberto-Freire-Cleo-e-Daniel : Sysmaya

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