Adam Brooks: Três Vezes Amor

A comédia romântica é um gênero cinematográfico bobo por definição. Aliás, “bobo” não descreve adequadamente a fofice que circunda este tipo de filme; “bobinho” é mais correto. Assim, quem se mete a produzir uma comédia romântica corre o tremendo risco de resvalar da bobice para a bobagem, pântano onde chafurdam dezenas de realizadores menores e mesmo alguns diretores de renome.

Exemplos abundam: pegue praticamente qualquer coisa que Adam Sandler tenha feito, ou digite “comédia romântica” na caixinha de busca ali em cima à direita, e será difícil pescar algo que fuja ao padrão besta dos finais felizes e óbvios, com aquele desrespeito básico pelas mínimas condições mentais do espectador. As exceções foram criadas em países periféricos a róliude, como Goldfish Memories, ou baseadas em bons livros, como Alta Fidelidade; existem outras, claro, e a França responde com bons exemplos, mas a grande maioria chafurda na irrelevância absoluta.

Desta forma, quando eu encontro o carimbo “Dos produtores de Simplesmente Amor e o Diário de Bridget Jones, o que eu devo fazer? Provavelmente eu deveria pular para o próximo DVD nas prateleiras bagunçadas das Lojas Americanas. Entretanto, algumas resenhas positivas, lidas no passado recente, me fizeram oscilar, assim como as férias em companhia da namorada. É sabido que este gênero de filme pode ficar extremamente apreciável se tivermos uma mão em qual encaixar a nossa, então levei-o.

E, agradável surpresa, Três Vezes Amor é um filme divertido como toda comédia romântica deveria ser. E bobo, muito bobinho, apesar de uma ou outra pincelada de referência de nível mais elevado.

Will Hayes, o protagonista, para começar, não é um yuppie workaholic que necessite de redenção por uma doidinha que deixou a fortuna da família para trás. Ele é um verme, do tipo que assessora políticos, o que é visto como um emprego para gente comum, e serve, no final das contas, para situar a trama numa linha de tempo paralela ao ápice da vida política de Bill Clinton, o que, obviamente, está bem próximo do ponto mais baixo dela.

A sinopse deste filme é, basicamente, o seguinte: a filha de Will quer saber como ele conheceu a mãe dela, de quem está agora se separando. Ele se dispõe a contar, mas usando nomes falsos, suas aventuras românticas, de modo que a pequerrucha descubra por si mesma quem, das três mulheres, é sua mãe.

Três Vezes Amor é exemplar porque se mantém na fronteira no limiar onde o descartável poderia se tornar algo realmente sublime, o que deveria ser um dos objetivos primordiais de todo cinema de entretenimento: provocar emoções sem dar uma sensação de peso que filmes mais vigorosos não conseguiriam evitar.

Adam Brooks, o diretor, consegue atuar sobre os centros de recompensa do espectador sem a obviedade que caracteriza o grosso da produção americana dos últimos trinta anos, e não existe mistério. O principal ponto é evitar que o espectador saiba de antemão quem o protagonista irá escolher no final. Além disso, nenhuma das mulheres traz para o filme aquele paradigma patético da alma gêmea: Will encontra vidas distintas com cada uma das garotas, e cada uma delas é conhecida, ou reconhecida, em um contexto bastante peculiar.

A menina das cópias é uma espécie de espelhos das aspirações polianescas dele, a jornalista é um cadinho feminino onde arde uma concentração fortíssima de Nova Iorque, e mesmo sua namoradinha de colégio é reinventada pela visão de outra mulher. Todos estes toques recheiam a trama com uma autenticidade que somente a vida poderia trazer.

Pequenas pitadas de pedantismo referencial sempre me divertem, então é uma delícia ver um escritor de sobrenome Roth vivendo numa história que se passa durante a administração Clinton, e só quem leu A Marca Humana entenderia isso. E, para fechar, quer coisa mais fofa do que ter um livro como conexão, e uma pessoa que coleciona edições distintas deste livro, procuradas em sebos mundo afora? Ainda mais se este livro for Jane Eyre, da mais prolífica das irmãs Brönte. Kurt Cobain também aparece, eu confesso, mas a referência é por demais popularesca e recente para ser considerada um diferencial. Ou deveria ser, o que nem sempre ocorre nestes dias canibalescos.

Por via das dúvidas, assista: se não funcionar, reclame.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Adam Brooks: Três Vezes Amor

  1. Pingback: Top Five: Comédias Românticas « sinestesia

  2. glaucia disse:

    nessa linha, indico um: ligeiramente grávidos. até.

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