Isaac Asimov: The Final Fantasy Collection

Isaac Asimov não é um gênio, embora deva ser admirado como tal. Sua caudalosa obra, em lugar de anunciar uma raridade miraculosa da produção artística, mostra, coerentemente, um homem de vontade poderosa que criou universos, e histórias para povoá-los. O que é um universo, enfim, sem histórias para povoá-lo?

Dotado de uma mente aguda, Asimov ainda tinha a seu lado o infernal ceticismo a apoiá-lo no esforço da criação. Como ele próprio diz neste volume, o homem ciente de que está lendo fantasia possui uma capacidade muito maior de se entreter com ela.

Este volume, um compêndio de escritos tardios deste magnífico escritor nascido na Rússia, é desigual. Sua primeira parcela, rotulada como The Final Fantasy Stories, compõe-se de rápidas anedotas recheadas de humor bem característico, quase todas de desfecho problemático para seus protagonistas. Nelas, sua primeira pessoa conversa com George, sempre em tom de chiste, e George destila suas crônicas sobre dramas suburbanos vividos por pessoas com nomes bizarros, em quais ele interfere usando dos favores de Azazel, uma criatura de outra dimensão, e que possui poderes inacreditáveis.

Exemplos de nomes? Comece com Euphrosyne Stump, e toda uma lista imensa de crimes de cartório se seguirá. Azazel, por sua vez, é uma criatura nos moldes do que Clarke, admirado por Asimov, colocava naquela fronteira vazadíssima entre a ciência absurdamente avançada e a magia. Ainda que possam divertir, estes textos são produtos por demais cozidos de uma inteligência em seus anos de platô. Vale mais concentrar-se nas partes II e III.

Na segunda parte, este Asimov maduro, com toda a sua obra a lhe dar crédito, escreve artigos onde seu conhecimento do campo da Fantasia e da Ficção Científica nos deixam boquiabertos. Ele discorre sobre Tolkien e Spielberg, colocando o primeiro num trono de influência para sua obra, e o segundo na latrina das pretensões falhas de seu Contatos Imediatos de Terceiro Grau; ainda bem que ele não viveu para assistir a AI. Lucas, entretanto, é quase elogiado, justamente por seus filmes serem extremamente bobos, apenas ferramentas  de entretenimento.

Com a lâmina afiada de sua inteligência, Asimov avalia as fronteiras entre Fantasia e Ficção Científica, e deixa a relação entre dúvida e certeza fina o suficiente para que tenhamos uma vaga idéia de onde pisamos e a firme vontade de caminhar em ambos os universos.

Gostei particularmente de sua inteligente análise do modo como o ser inteligente é rotulado previamente, pela ficção, como malvado, sendo dada vantagem ao tolo musculoso. Na página 167, por exemplo:

(…)
Very often, though, the magician is the villain, who threatens the hero with sneaky enchantments, who fights from behind the protective wall of his powers. Our poor hero, who fights in the open with simple and honest thwacks of his sword, must somehow reach and destroy the cowardly, unethical magician.

Clearly, the readers are expected to feel that is noble and admirable for the hero to pit his own superhuman strenght against the lesser physiques of his enemies, and also to feel that there is something perfidious about a magician pitting his own superhuman inteligence against the lesser wit of his enemies.
(…)

Qualquer semelhança com o boicote aos alunos estudiosos deixa de ser coincidência, mesmo que, para observá-la, seja necessário apelar a pastiches que invertem esta pirâmide de poder, como em A Vingança dos Nerds.

Sobra ainda munição para tratar de passagens da Bíblia e as diversas traquinagens feitas para convencer os estúpidos endinheirados da Idade Média sobre a existência de unicórnios. Ainda que estejamos convencidos de que cavalos de um único chifre são parte do mundo da Fantasia, vale reviver os golpes com dentes de Narval para que caiam as fichas de truques modernos como a palhaçada da pretensa Física Quântica da Nova Era. Asimov, há mais de década falecido, permanece um poderoso professor, direto e preciso.

A derradeira parcela de textos trata de aspectos estruturais do pensamento, e da escrita. Assim como Sagan, Asimov alerta para o constante emburrecimento da população de seu país, e conversa sobre evolucionismo e as bobagens que muitos usam para tentar manter as verdades enviezadas de livros sagrados.

Magic, tivesse uma capa menos medonha, seria uma beleza de livro de cabeceira. Entretanto, disfarces podem ser conseguidos para a capa, e sua cabeça dormiria a cada noite iluminada pelo pensamento acuradíssimo de um dos mais esforçados escritores da era atual.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Isaac Asimov: The Final Fantasy Collection

  1. joão sebastião bastos disse:

    Admiro Asimov,mas Ray Bradbury consegue transformar sci-fi em poesia.

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