O Horror como Elemento do Design Contemporâneo

Os carros, quando em bandos espalhados pelas ruas e avenidas das cidades, são indubitavelmente feios, quiçá horrorosos. Esta feiúra do conjunto se deve ao fato de que as pessoas não costumam combinar seus carros antes de sair de casa, e existe também o ponto de que as pessoas deveriam usar mais o transporte coletivo e meios de locomoção mais harmoniosos, como a bicicleta. A paisagem das cidades, onde a ambição de ser mais chamativo compete com o simples desleixo estético, não é um pano de fundo dos melhores, e o fuzilamento de alguns arquitetos e urbanistas poderia incentivar os sobreviventes a fazer algo pelo espaço onde vivemos. A solução óbvia de executar políticos catalisaria o processo, confesso.

Resolver conjuntos, seja de carros, seja de edifícios, é um problema de muitas variáveis e de muitas vontades, e é compreensível que não convirja para uma solução bela. Ainda que haja perdão para esta categoria de projetista e planejadores, o fogo há de arder nos traseiros dos criadores do design de alguns veículos automotores atuais.

O carro, sozinho, pode ser belo, e isto se reflete em várias facetas. Ele pode ter linhas harmoniosas, traduzir desejos, apresentar soluções ergonômicas criativas ou mesmo cacarecos tecnológicos realmente impressionantes. O investimento nestes projetos costuma ser elevado, e existe uma poderosa história do design de veículos para servir de inspiração e aviso aos novos jogadores em campo.

Considerando isto, como explicar certos monstrengos de metal nas ruas? Não falo de imbecilidades como o Hummer, tanque urbano incômodo e desnecessário, assim como não falo do interessante Kia Soul, cujo defeito mais saliente no que tange à minha pessoa é o preço elevado. Não, meus resmungos estão no quintal.

A Renault, por exemplo, responsável pelo belíssimo Megàne atual e pelo genial Twingo, praticamente inventou a Mini-Van, que ilustrava com sua regularmente desenhada Scénic. Inspirada nos medonhos Logan e Sandero, a montadora francesa nos brindou com uma nova versão da sua Mini-Van mais popular, e agora as ruas são assombradas por um amontoado disforme de lata que atende por Grand Scenic. Minha primeira impressão, ao ver o monstrengo pelas ruas, foi de que o projetista havia esquecido de colocar o porta-malas, e teve de empurrá-lo à força depois de finalizadas todas as etapas de estudo e projeto da aerodinâmica.

A General Motors segue aquela tradição ianque de carros pomposos e molengas, e há quem enxergue virtude nisso. Eu mesmo não vejo nada demais em carros desprovidos de graça, como os modelos Astra e Corsa, mas as coisas começam a se tornar ameaçadoras quando as ruas são invadidas por patões feios como a perua Meriva. Uma vez que o público foi tolerante nesta etapa, a montadora se tornou mais ousada, e o resultado de nossa falta de vontade, nossa histórica incapacidade de reagir aos insultos de outros países, foi o início das vendas do Chevrolet Agile. O bicho é feio como bater em mãe, uma espécie de sabonete que iria à quermesse para ser vendido em forma daqueles sabonetes cheios de alfinetes e fitinhas, mas que a molecada seqüestrou da senhora artesã suburbana, e aplicou-lhe quatro tampinhas de laranjinha Max Williem.

Acabo de citar dois exemplos do pavor que assola o pobre pedestre nestas ruas selvagens, mas o leitor pode observar por si próprio a incompetência que ronda os estúdios de design automobilístico. Semelhante falta de noção e de criatividade só encontra paralelo nos grupos de roteiristas da Róliude de vinte anos para cá, de modo que você poderá apontar meia dúzia de carros tão feios quanto os de que acabo de falar antes mesmo que um fanho termine de dizer “paçoca”.

Sou injusto, entretanto, e devo me retratar. Os carros podem ser pavorosos, e as vias urbanas podem agredir seus olhos além de seus ouvidos e seus narizes, mas há sempre algo mais perverso para ser visto. É sabido que a moda tem suas vítimas, e que expor-se ao ridículo, como diz Pinker, é uma forma de se colocar acima da escumalha ignara das classes inferiores. Felizmente armei-me deste arcabouço sociológico, ou estaria incapacitado a compreender as motivações de algumas mulheres que vi pelas ruas de Floripa trajando uma espécie de ceroula desproporcional e mal-ajambrada a que se convenciona chamar de “calça Saruel”.

Pausa.

Gente, o MC Hammer usava isso no começo dos anos noventa, e ele era naturalmente feio. Entretanto, a tal ceroula medonha conseguia dar um toque abominável ao narcisístico rapaz. Um conselho: não andem na moda se a moda é esta. Sei, deve ser culpa da Gloria Perez e de suas bobajadas pseudo-exóticas, mas existe um mínimo de amor-próprio a ser conservado. Calça Saruel não!

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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8 respostas para O Horror como Elemento do Design Contemporâneo

  1. jose carlos disse:

    pior que isso só o simbolo da WordPress que mais parece a marca da Volkswagen

    • gilvas disse:

      vale observar as carinhas que o wordpress usa para representar as pessoas que não possuem avatar: medonhas.

  2. joão sebastião bastos disse:

    Tenho a cada ano, a hilária impressão que um mesmo designer faz o projeto e vende para todas as montadoras, por conta das semelhanças, que parecem mais simples cópias do que tendências.

  3. marcelo de almeida disse:

    Vanilla Ice tinha uma calça dessa tambem!! Vannila Ice Ice Babay !!!!

    • gilvas disse:

      maldito o dia em que tive meu primeiro carro: nunca mais voc perde o costume, e faz de tudo para manter o vcio. inventa qualquer desculpa para considerar o devorador de gasolina algo til. mas h de ser bobagem.

  4. marcelo de almeida disse:

    Vou comentar isso ainda, mas nao agora !!Tenho probemas com carro!!Para possuir um carro no minimo tem se que ter personalidade!!

  5. Percebi que de gostos estéticos automobilísticos estamos na mesma onda. Mas me surpreendeu mesmo foi a similaridade de gostos modísticos. Essa dita calça eu costumo chamar de saco. Sempre imagino a pessoa saindo de casa, provavelmente com o intuito de em algum momento passar pelo supermercado para comprar bugigangas comestíveis, e resolve economizar o fato de ter de carregar duas coisas: as roupas e a bolsa de compras. E acaba por juntar tudo numa coisa só, vestindo, enfim, a sacola de compras…

  6. glaucia disse:

    concordo com seu senso estético, principalmente no que diz respeito a calça saruel, já que de carro não entendo nada e de moda alguma coisa que me defenda da humilhação. se a moda é essa, crack nem pensar! imagina agora resolver o arranjo de centenas de mulheres de todos os tipos, de todos os tamanhos e formatos, usando as tais ceroulas? como que o olho resolve essa experiência? não sei. só sei que os estilistas tão tirando sarro da minha cara.
    gostei do mau humor.

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