O Tempo da Recuperação

Sentado na cadeira, movendo os pés para um lado e para o outro, os dois sobre uma placa de madeira presa sobre um meio cilindro. Uma angústia desfocada consome seu olhar, que não chega ao outro lado da sala, exceto quando mira alguma das outras pessoas em tratamento. Ele termina rápido, pergunta “o que mais?”, sabendo a hora mesmo que o relógio esteja atrás de si em uma parede anônima. O instrutor diminui sua ânsia deixando entrever em sua atitude que ainda existem mais exercícios, exercícios suficientes para fazê-lo perder mais meia hora. Ou mais, como deter o tempo que escorre. Ele ainda tem esperança, e planeja. Pergunta “posso fazer este aqui em casa?” com a certeza de que a esquiva é uma de suas habilidades marcantes.

A pressa dele é pressa dos outros, talvez menos transparente, mas uma mesma pressa, uma vontade irracional de voltar para uma vida estéril. Ou estarei enganado? Pode ser que eu esteja, e ele está ali na clínica mantido a ferros distante de sua existência criativa e fértil, sua vida que borbulha de relevâncias e diversos sabores de cultura, um sem-fim de percepções sutis, algumas novas e ousadas, outras antigas e a refinarem-se instante a instante.

Um silêncio cinza me carrega de volta: improvável. A pressa é para voltar à segurança, seja lá qual ela seja, um universo controlado que eu não saberia descrever.

Uma pena: a doença é uma oportunidade ímpar de nos estudarmos, de nos descobrirmos. Na condição de convalescentes nos encontramos vulneráveis e lentos, despidos de nossos atalhos habilidosos, de nossos excedentes de energia. As limitações nos ensinam uma sabedoria pragmática, nos fazem perguntas capciosas e enervantes. Sabendo ouvir, talvez descubramos, enfim, o que nos levou a sofrermos aquele acidente ou a adquirirmos aquela doença que vamos deixando pelo caminho tal amantes inoportunos. Recuperar-se é redescobrir-se, encantar-se mais uma vez com a fabulosa substância de nossos gestos mais triviais.

Todavia, para que a magia brote, temos de nos permitir o tempo. Todo o tempo que for necessário.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para O Tempo da Recuperação

  1. Célia Dalva AlmeidaBastos disse:

    Eu diria que vc está”on your track” e por isso só poderia deixar 5 estrelas pra vc.Quando vc tiver mais 15 ou 20 anos como eu,vai descobrir que existe muito mais nas “entrelinhas” e por isto nada é por acaso e que vc tem muito mais estrelinhas pra garimpar neste universo.Fiz muitas fisioterapias e o feeling é igual(paciência forçada,a mente a mil por hora,observamos tudo,contamos inclusive os segundos;contamos todos os detalhes da sala;se tiver propaganda vamos ler todas e várias vezes e o único que está ali dentro mesmo é a parte em tratamento).Será que;só porquê somos de câncer e queremos sempre o aconchego do lar, dos amigos ,dos amores ;para termos a segurança tão necessária para estarmos em harmonia com o universo.Não ! São necessidades básicas, mas que precisam ser desapegadas da nossa mente.Nada é por acaso e “a doença” é um sinal ou quem sabe “um password”.
    Uma coisa é certa,só entenderemos a vida e ela só será válida, quando descobrirmos exatamente qual a finalidade dela colocando-nos à sua disposição neste plano .Bjs.Fique em paz .Fique com Deus.

  2. marcelo de almeida disse:

    Resumo da opera!! Coçando o saco , literalmente!!

  3. maricota disse:

    Legal foi esse anúncio de recuperação de dependência química que o google relacionou… Tais só no álcool então, é?

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