Muse: The Resistance

Matthew Bellamy é um megalomaníaco pretensioso, uma primadonna no sentido mais estereotípico que esta palavra poderia assumir. Há quem odeie, há quem adore, e o mundo não parou de girar um segundo por conta disso. Em 2009, o Muse, banda capitaneada pelo ser descrito na primeira frase, lançou disco novo, sem maiores abalos à gravitação universal.

O Muse, apesar de todas as pretensões, é um sidekick de luxo, como comprovam suas aberturas para os veteranos do U2. Apesar disso, nada impede que os oceanos subterrâneos de criatividade de Bellamy sequem e que sua obra entre em loop, como o disco anterior demonstra. Pense, pequeno Matthew, o que pode ser feito? Pense, pense, pense! Os outros integrantes da banda roem suas respectivas unhas sob o olhar reprovador de seu líder, que as mantêm perfeitas, como convém a uma diva, e sobressaltam quando este desanda a gritar Eureka, correndo para o piano com o olhar ensandecido de quem descobriu o óbvio. “Um disco progressivo e conceitual“, ele cantou em falseto enquanto espancava o teclado em modo Rachimaninoff na anfetamina.

Assim nasceu The Resistance: dois terços de ópera-rock sobre o tema 1984, e um terço formado pela suíte sinfônica Exogenesis. Uma coisa os detratores têm de aceitar: Bellamy é uma pessoa coerente com suas aspirações e declarações. Não há como o Muse nos surpreender com o formato tradicional da compilação de canções em forma de disco, então uma nova seara deve ser explorada.

Tenho ouvido o disco invertendo as partes: escuto antes a parte sinfônica, mais delicada e cheia de detalhes, para depois entrar na ópera, mais roqueira, com andamentos mais nervosos.

A suíte sinfônica confunde seu início com o final da ópera, o que pode subverter minha prática de inverter a ordem das estruturas quando ouço este disco. As cordas são espaçosas neste início, como em uma trilha sonora de filme de fantasia, quando o universo mágico vai se revelando aos olhos mortais, para ter uma idéia. Quando a voz de Bellamy chega, é difícil não imaginá-lo com uma peruca, todo lânguido, por mais assustador que isto possa parecer. Escute e verá.

Bellamy ainda se derrama na primeira parte, agora sobre guitarras diversas e cantando como se fosse o moleque de coral do Geneva. As partes seguintes se desenvolvem num crescendo previsível. Eu não diria que sejauma composição relevante para o mundo erudito, mas, diabos, serve perfeitamente como trilha para delírios de vilão-conquistador-do-mundo. Eu não tentei, mas deve ser legal usar um manto e um cetro para simular um clima para o karaokê.

Na ópera, os clichês metaleiros do Muse estão ainda mais evidentes. Os refrões chamam várias vozes, e algumas canções, como a faixa-título, têm intervenções que remetem ao glorioso Queen da década de 70. Sua base, curiosamente, é um U2 do segundo álbum, com sua percussão pesada dando espaço tenso a um piano de melodia grudenta.

Para quem odeia os vocais grandiosos de Bellamy, nenhuma novidade também. Pior: ele está ainda mais pomposo, e precisa ser encarado com bom humor, como em qualquer exemplar de rock farofa. A cozinha mantém sua excelente forma e empolgação; neste departamento nada mudou. Algum estranhamento pode ocorrer no começo, mas Bellamy reaprendeu o caminho para os ganchos pop, e o percentual de melodias assoviáveis é saudável.

O disco agradará a fãs de Muse que leram 1984, e imagino que há uma considerável sobreposição destas duas características culturais. Levando em conta que faço parte deste grupo, deliciei-me aplicando as imagens musicais de Bellamy às respectivas partes do livro.

Destaque para a bela peça de piano colada a United States of Eurasia, Collateral Damage. Pode ser algo bastante óbvio a nível de partitura, mas ela cria ao redor do ouvinte um espaço de tranqüila melancolia. Eu me senti dentro da sala no segundo andar onde o protagonista de 1984 acha testemunhos da cultura deletada pela ditadura do Grande Irmão. Em tempo: os arranjos orquestrais de United States of Eurasia lembram muito Peter Murphy em Socrates The Python.

I Belong to You/Mon Cœur S’ouvre à ta Voix fecha a ópera com pianos e pompa, com Bellamy se desmanchando com os versos “Ahhh verse-moi l’ivresse, Verse-moi, verse-moi l’ivresse”, para uma última rendição dos belos sopros na parte final. Uma belíssima composição fechando um disco interessante.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Muse: The Resistance

  1. Rios disse:

    è uma pena… Absolution é ótimo… e NENHUM artista ou banda deve ser levado a sério… apenas curtir o som… ai vai do ouvido de cada um…

  2. mafra disse:

    nunca ouvi um disco do muse. achei tão exageradas as versões que eles fizeram para hit’s como “can’t take my eyes off you” e “feeling good” que nunca fui atrás do som dos caras… mas o senhor fala tão bem mal deles que me deu vontade de baixar o disquinho aqui dissecado (só tenho medo é dele não estar a altura do seu texto – o que não me espantaria…).

    • gilvas disse:

      se for para se iniciar com muse, melhor ir de absolution, o mais bem resolvido dos discos deles. ah, eles fizeram uma verso de smiths tambm, please please please let me get what i want, nada demais na verdade.

      eu devo me sentir elogiado por fazer textos melhores do que os discos, ou ser que estou cobrindo de glac um certo mau gosto que emana da minha pessoa? oh, dilemas!

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