Patuscando com Coppola

Olha, mãe, Slash with Lasers!

O cotidiano apressado nos faz assumir alguns costumes estranhos, como assistir filmes em prestações. Noite dessas foi Drácula de Bram Stoker, como é conhecido o Drácula de Francis Ford Coppola. Acho que eu nunca vi este filme inteiro, de uma levada só, e não tenho nenhuma razão para usar neste caso. Deixei de ver quando era hype, no início dos anos noventa, e talvez tenha sido um erro: o filme envelheceu mal, está cafona como os penteados da novela global Rainha da Sucata.

Coppola já estava longe de seus dias de glória. Tinha escavado o baú para fechar a filmagem do Poderoso Chefão de Mario Puzo, e conseguiu um feito apenas na média da época. Al Pacino está mais cansado do que o personagem que interpreta, e Coppola parece estar atendendo em um balcão de repartição pública, definitivamente uma sombra dos gloriosos dois primeiros capítulos filmados na década de setenta.

Pode ser que Máfia seja um assunto naturalmente setentista, e por isso Coppola estaria em uma zona de conforto; besteira: os dois primeiros chefões são absurdamente bons, filmes que conjugam testosterona e inteligência de forma única, um amálgama que deveria ser invejado diariamente por qualquer cineasta ou aspirante a. Não fosse isso, haveria ainda Apocalypse Now, denso entretenimento, um marco em vários aspectos.

Ninguém me tira da cabeça que os anos áureos haviam passado, e Coppola deveria estar cuidando de coisas mais importantes, como manter sua filha longe das câmeras, e nos poupando de irrelevâncias como isso e isso. Esta tarefa, de cunho humanitário, teria também impedido Coppola de perpetrar uma bobagem pomposa como Drácula.

A patuscada é notável no post-mortem, óbvio, e antes dela feita, Coppola não teria certeza de que tinha perdido a mão. O filme ganhou três prêmios Oscar, e todos eram do tipo que não interessam ao diretor: Som, Figurino e algum outro item que só interessa a quem não está gostando do filme.

Bem justo o filme não ter ganhado em direção, por exemplo. Coppola, preguiçoso, manteve todos os maneirismos desnecessários do livro novecentista e das versões de 1922 e de 1931, e que existiam por conta das restrições da tecnologia para os efeitos que contos sobrenaturais quase sempre exigem. Os atores se esbaldam na canastrice, uns usando de trejeitos, outros emitindo frases épicas em idiomas estrangeiros, frases que ficariam constrangedoras em inglês.

Ganhar Oscar em Fotografia seria lamentável também. As truncagens são porcas, coisa de estudante deslumbrado de faculdade de cinema em cidade do interior. A revista Mad foi especialmente feliz em focar este tópico em sua sátira Chátula: os personagens, na revista, fazem coisas absurdas para conseguir objetos que possam interligar cenas.

Ainda que os prêmios perdidos me dêem algum alívio, não há como esquecer que Drácula ganhou Melhor Figurino. Como, diabos? Os personagens em geral usam suas roupinhas de época, nada muito melhor do que aparece nos folhetins das seis na rede globo, então imagino que seja o figurino do personagem-título o motor de tamanha conquista, e, francamente, lamentável.

Se eu fosse um guerreiro cruzado, pensaria muito na indumentária adequada para empalar muçulmanos e estuprar suas mulheres, e provavelmente a última coisa que eu usaria seria uma armadura que me fizesse parecer com uma enorme barata. Isto funcionaria para provocar terror se eu estivesse atacando o auditório do programa da Ana Maria Braga, e o guerreiro, assim uniformizado, ainda arriscaria a ser perseguido por um Louro José ensandecido.

Agora, se alguém quiser defender aquela peruca branca que ele usa no castelo, aquela que, vista de trás, lembra partes estilizadas diversas do corpo feminino e não necessariamente em proporções atraentes, pode deixar suas credenciais e justificativas nos comentários.

O que me encafifa de verdade, entretanto, é que Coppola não consegue imprimir as duas características triviais do bom filme de terror: mistério e medo. As cenas são montadas com cuidado ímpar, cheias de detalhes que vão se somando num crescendo que, subitamente, se desvanece, deixando o espectador com aquele ar de decepção constante.

Estou tão desanimado que acho que não vou retomar o filme, apesar de ter chegado apenas na parte em que o Chátula, quero dizer, o Drácula, dá o bebê como desjejum para suas concubinas. Vale mais rever O Poderoso Chefão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para Patuscando com Coppola

  1. turnes disse:

    Caro Gilvas, eu e meu flatmate malcon bauer fizemos uma sessão dupla em homenagem a sua pessoa: Drácula de 1931 de Tod Drowning seguido por Drácula de Coppolla. Bom, escrevo apenas pra te comunicar que estamos pensando seriamente em cortar relações com você, devido á sua crítica ao segundo. Passar bem.

    • gilvas disse:

      meus advogados entrarão em contato com os seus. noves fora, este negócio de xingar filme ruim é fácil demais. zoar 2012? baba! qualquer longa do garfield? galinha morta! agora, aproveitar quando um medalhão como o coppola desanda na maionese não é para qualquer um!

      e ainda não escrevi meu texto detonando o iluminado do kubrick, que, como suspense, é uma bela aula de design de interiores.

  2. turnes disse:

    vamos, vamos, quando?
    deixa eu perguntar…ao escrever Al pacino, vc quis dizer Gary Oldman?

  3. Pingback: Link Love: Miranda Kerr, Ozzy, Coppola, Tony Stark e Fable 3 | Tudo Pop

  4. turnes disse:

    Santo ceticismo Batman!
    Ao contrário de sua (não)apreciação acho que a abordagem alegórica do filme é coerente e todos os elementos visuais e interpretativos se coordenam nesse barroquismo. Esse conjunto organizado de elementos narrativos vão desde as trucagens artesanais, nitidamente citações à história do cinema fantástico, até as interpretações visuais das metáforas do sangue e do sexo como pulsão de morte. E conformam uma direção consciente e de grande domínio técnico cinemático. Obviamente não é realista, é excessivo e gráfico, e quem só gosta de filme iraniano que tem um objeto no titulo e o protagonista é uma criança órfã e pobrinha, pode não curtir. mas concordo em um único ponto: o alegorismo do filme tende a amenizar a produção do medo, tornando a película mais um drama romântico fantástico de viés barroco do que propriamente uma fita de horror. É um pouco triste ter certeza que a grande adaptação de Bram Stocker, a mais terrível e atemporal, ainda é um filme mudo chamado Nosferatu, de Murnau.

    • gilvas disse:

      eu sabia que Coppola ia ter um defensor na pessoa de turnes, o notvel. o ponto exatamente o que colocaste: coppola decepciona quem esperava um filme de horror, e tambm parece inseguro ao aplicar tanta tcnica, deixando a carroa pesada demais para os bois que ele tem mo.

      outro filme que peca no mesmo aspecto o iluminado, e eu quero escrever sobre isso em breve.

      e, pou, vamos nos encontrar mais!

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