Tom Regan: Jaulas Vazias

A vida de um ativista pelos direitos animais não deve ser exatamente um oásis de paz. Num mundo urbano onde só vemos bichos de estimação ao vivo, e o restante dos animais habita longínquas reservas e insondáveis criadouros exploratórios, fica difícil despertar alguma preocupação pelo destino das criaturas que não vieram ao mundo como homo sapiens.

Para o grosso da população, preocupar-se com ativismo pelos direitos dos animais deve ser uma ocupação de pessoas que nada têm para fazer, “patricinhas”, como já ouvi e li em muitos lugares. O elemento típico do populacho apontará para outras mazelas da humanidade, e dirá que aquele mendigo sob a ponte, ele sim precisa de ajuda, e não animais abandonados ou animais selvagens ou animais de criação. Este poço de sabedoria popular, obviamente, não está fazendo nada para ajudar o mendigo em questão; provavelmente ocupa seu tempo livre para assistir Big Brother ou jogar algum videojogo alienante.

Além da grande massa, existem os que se comovem com o sofrimento animal que entreviram em algum vazado na cerca que a indústria coloca em torno de seus santuários de tortura e morte. O ativista enxerga estes elementos como pessoas a convencer, e precisa de um arcabouço de argumentação para vencer as cartilhas de justificativas previamente desenhadas pela indústria do aproveitamento animal e apoiadas pela mídia onde os primeiros anunciam. Este livro de Regan vem para dar munição ao ativista dos direitos animais que se sentia desamparado diante da saraivada de argumentos furados de seus oponentes.

A estratégia de Regan é plenamente funcional, e isto se traduz tanto na eficiência de seus argumentos quanto no relativo desinteresse que pode causar em quem quer se informar sem necessariamente ingressar nas hostes de libertadores dos animais. Em outras palavras, pode-se dizer que temos em mãos uma cartilha de formação básica para ativistas pelos direitos animais.

Quem busca uma informação mais sólida sobre os direitos animais, provavelmente encontrará leitura mais adequada em Peter Singer, por exemplo, lacuna de minha leitura que devo preencher em breve. Apesar de ser bastante específico, há ao menos um uso essencial para argumentos de rebatimento à ignorância generalizada dos direitos animais.

O planeta Terra atualmente é um lugar altamente conectado, e a informação flui de forma relativamente livre. O trabalho de desinformação, entretanto, pode manter meias-verdades circulando de forma impune, impedindo as pessoas comuns de alcançarem o conhecimento necessário para tomarem algumas decisões críticas por si mesmas.

Há cerca de um mês, um pouco mais talvez, eu li um texto no site Inovação Tecnológica, um espaço que diz trazer “tudo que acontece na fronteira do conhecimento”. O texto falava sobre o aumento da demanda de carne no país, e os “cientistas”, provavelmente os mesmos por trás das célebres bobagens da Superinteressante, aquelas que iniciam-se quase sempre por “Estudos demonstram que”, diziam que a solução era aplicar técnicas de confinamento de gado, seguindo na contramão da história. A taxa de conversão de vegetais em carne é baixíssima, o que nos faz ter uma área plantada de soja muito maior do que o necessário caso a consumíssemos diretamente. Como este dado chegaria à grande população, dado que há uma massa de anunciantes e lobistas da indústria da carne para bloqueá-lo?

O trabalho, assim, é de formiga, e é necessário estar pronto para responder aos argumentos que a mídia papagaia diariamente, e que as pessoas repetem à exaustão. Particularmente, prefiro não professar ativamente sobre os direitos animais, limitando-me a escrever sobre o assunto e conversar com pessoas que estejam interessadas. Discutir com pessoas ignorantes, sobre qualquer assunto, é uma perda imensa de saliva e tempo, e deste eu tenho pouco, assim como tenho pouca ansiedade em me fazer ouvir, ainda mais por pessoas que ficam chocadas quando chineses comem cachorros mas não conseguem ver problema em comer bois.

Por outro lado, os animais continuam nas jaulas. Eles continuam sendo objeto de comércio. Eles continuam sendo explorados como alimentação. Eles continuam sendo ridicularizados e torturados em rodeios. Advogados da indústria farmacêutica ainda os usam para embasar defesas em processos de usuários lesados por medicamentos. Suas peles ainda são arrancadas diariamente e para fins fúteis todo dia. Regan nos ajuda a lembrar disso, e seu panfletarismo continuará sendo, infelizmente, necessário por muito tempo. Ele será tachado, por suas idéias e seu visual, de “patricinho maconheiro esquerdista”, mas sempre poderá ser defendido pela boa compilação de argumentos que apresentou neste livro. Os animais agradecem.

Um trecho, da página 117:

(…)
A maioria do gado de corte passa grande parte da vida em currais de engorda. Alguns dos maiores se estendem por centenas de acres e abrigam mais de cem mil animais. O gado vive permanentemente exposto, sem proteçãonem nada sobre o que se deitar, exceto terra seca, lama e esterco. Por natureza, estes animais são ruminantes, preferindo grama, capim e outras fibras. Nos currais de engorda, sua dieta consiste quase que exclusivamente de grãos, que (junto com fortes doses de estimulantes de crescimento) aceleram a engorda e dão à sua carne o “branco marmóreo” característico dos corte mais caros de carne.
(…)

***

Aproveite o embalo, e atire tomates nas corporações globalizantes também, com a bíblia anti-consumismo de Naomi Klein.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Tom Regan: Jaulas Vazias

  1. Milene disse:

    Regan, ao contrário do que pensa o Christian, é bem cuidadoso na forma de expor sua argumentação a favor dos animais. Ele não tenta enfiar sua ideologia goela abaixo; seu intuito não é que todos virem abolicionistas da noite para o dia. Ele sabe que a luta será longa e acho que ele tenta, pelo menos, iniciar a discussão, fazer as pessoas pensarem sobre o assunto. Antes de começar a defesa, ele faz questão de reforçar que não tem nada contra os humanos, pelo contrário, ele comenta que para respeitar os animais primeiramente temos que respeitar a nós mesmos, a nossa espécie.
    E eu concordo que nossa filosofia antropocêntrica só atrapalha na questãos dos direitos animais. Regan tenta passar no seu livro que somos espécies diferentes, com diferentes capacidades mentais, mas que isso não seria um motivo para nos considerarmos seres superiores.
    Ele consegue passar a mensagem sem ser agressivo (acho que a agressividade de alguns ativistas acaba por atrapalhar e justificar a criação de estereótipos em relação aos defensores) e de forma bem didática. E o leitor perceberá que ele não pretende destruir ou desrespeitar a humanidade. Ele só quer estender o direito a vida à outras espécies.
    Abraço!

  2. Christian disse:

    Não tenho conhecimento suficiente pra me posicionar em relação ao criacionismo ou ao evolucionismo, muito menos para professá-los ou recusá-los, mas confesso que minha agulha pendeu para o criacionismo quando vi o documentário chamado “Expelled: intelligence not allowed”. Pode ser visto no YouTube, separado em 10 partes — recomendo fortemente: http://www.youtube.com/view_play_list?p=979FEC70B8065644

    O autor não chega a invalidar o evolucionismo, muito menos valida o criacionismo, apenas mostra a quantas anda a ciência e os cientistas dedicados a combater o criacionismo.

    ***

    Sobre o antropocentrismo, não creio que seja o caso de professar a superioridade humana, muito menos o antropocentrismo literal. Trata-se de considerar, à maneira do Tio Ben (Spider Man, 2002), que “grandes poderes implicam grandes responsabilidades”. Hollywood e clichês à parte, trata-se apenas de manter o senso das proporções, saber do que somos capazes e agir conforme essas capacidades, preferencialmente de forma que esses poderes sejam usados corretamente. Leia-se “diferente” em vez de “especial”.

    Não sei se somos ou não somos seres divinos, mas temos uma capacidade única para fazer o mal. Só isto já bastaria para imprimir um senso de responsabilidade muito maior do que o senso que existe hoje na maioria das pessoas. Essa capacidade para fazer o mal não diminui nossa capacidade de evitá-lo e de praticar o bem. Mas essa consciência não surge sem que nos reconheçamos como seres realmente únicos.

    O que nos torna especialmente maus não é o poder de que somos dotados, é precisamente a falta de consciência em relação à extensão desse poder sobre todos os seres que nos rodeiam.

    ***

    Ops, comentários aos pedaços e com isso acabei repetindo uma parte. Por favor apague o anterior.

    ***

    Abraço!

  3. Christian disse:

    Sobre o antropocentrismo, não creio que seja o caso de professar a superioridade humana, muito menos o antropocentrismo literal. Trata-se de considerar, à maneira do Tio Ben (Spider Man, 2002), que “grandes poderes implicam grandes responsabilidades”. Hollywood e clichês à parte, trata-se apenas de manter o senso das proporções, saber do que somos capazes e agir conforme essas capacidades, preferencialmente de forma que esses poderes sejam usados corretamente. Leia-se “diferente” em vez de “especial”.

    Não sei se somos ou não somos seres divinos, mas temos uma capacidade única para fazer o mal. Só isto já bastaria para imprimir um senso de responsabilidade muito maior do que o senso que existe hoje na maioria das pessoas. Essa capacidade para fazer o mal não diminui nossa capacidade de evitá-lo e de praticar o bem. Mas essa consciência não surge sem que nos reconheçamos como seres realmente únicos.

    O que nos torna especialmente maus não é o poder de que somos dotados, é precisamente a falta de consciência em relação à extensão desse poder sobre todos os seres que nos rodeiam.

  4. Christian disse:

    Gilvas,

    não entendo por que a questão dos animais não pode ser encarada por pessoas que defendem o antropocentrismo. Ora, é sintomático que um ser humano esteja levantando esta questão e não um chimpanzé a levantar questões sobre a condição humana e sus direitos. É isto que nos diferencia, nos dá poder, direitos e também deveres, é claro. Ainda que muitos eventos fujam de nosso controle, o que nos diferencia é justamente aquele conjunto de atributos que nos trarão alguma chance de estender nossos dias neste planeta. Não é possível levar adiante uma discussão em que o indivíduo defende idéias e ações que igualam animais e humanos sem reconhecer o óbvio — que um animal nunca teria essas idéias e nunca vislumbraria essas ações.

    Independentemente de idéias e de ismos, a superioridade humana sob diversos aspectos é um fato. A inteligência, a linguagem e o polegar opositor realmente nos distinguem.

    Mesmo assim, esses intelectuais dão mil voltas para dizer que não somos especiais. Fica claro que o que eles querem mesmo é a extinção da humanidade. Todos seus discursos são formas de apelar para a “evolução” (note, aliás, como a idéia de progresso está embutida na maioria dos ativismos) e tornar a extinção algo real, palatável e voluntário.

    Prossigamos.
    Abraço!

    PS.: Por algum motivo, seu comentário foi publicado com caracteres estranhos no lugar dos acentos e cedilhas. Dê uma olhada na sua codificação no WordPress.

    • gilvas disse:

      opa.

      a partir do momento em que uma filosofia considera o ser humano superior, invivel discutir qualquer forma de direito, afinal, todo o restante dos seres exatamente isso: restante. o restante no tem direitos quando o homem superior, a cereja no bolo da criao.

      como pinker ressalta, uma das iluses do ser humano a de que o topo da escala evolutiva, o que no vivel, dado que no h topo: a mente humana uma ferramenta desenhada para a sobrevivncia, assim como qualquer outra caracterstica de qualquer ser vivo.

      me conte uma coisa: tu realmente professas o criacionismo, ou estou confuso ao interpretar o que dizes?

      abrao.

      ah, tenho observado este efeito nos caracteres, mas estava com uma preguia imensa de corrigir o problema. agora vou mover-me para verificar isso. valeu pelo chamado ao.

  5. Christian disse:

    Não conhecia Regan; sei apenas que Singer é daquelas pessoas que falam de “direitos dos animais” para dar ares mais simpáticos ao asco que têm da humanidade — decerto apelando ao fato de que a maioria de nós tem animais de estimação em casa e pode olhá-los à luz de idéias birutas como essas, para que pareçam menos birutas. Entre outras coisas geniais, Singer sugere que não há nada de errado no extermínio de deficientes mentais e defende a eugenia — e isso nós já conhecemos e sabemos aonde leva.

    Somando a eugenia de um lado e os direitos dos animais de outro, o resultado obtido é um notável ‘downgrade’ na condição humana. Ora, direito é noção exclusivamente humana. Na natureza não existe tal noção; há no máximo harmonia e proporção — não como princípios, mas como fatos: o leão só mata aquilo que pretende comer. Não haveria nada de intrinsecamente errado nas bandeiras de Regan, de Singer e da PETA se sua defesa propusesse tal coisa. Os maus tratos aos animais não vêm do onivorismo humano (v. a produção de gado wagyu na Tasmania e a comida kosher), vêm da desproporção decorrente de uma série de fatores — entre elas o declínio social, cultural e moral.

    Mas o mundo proposto por esses militantes é um mundo em que a vida humana não tem valor. Este mundo já existe: aborto é crime banal, que se deixa impune com mil argumentos; quebrar ovos de tartarugas ou inviabilizá-los é crime inafiançável. O problema é que quando a desmoralização da vida humana chega a esse ponto, perdemos a noção de quase tudo e mergulhamos numa desordem ainda maior do que a atual.

    É evidente que Regan e Singer querem que essa desordem aumente — por isso defendem os “direitos dos animais” (princípios, leis) em vez de defender um tratamento melhor a eles (ação). Se isto realmente os interessasse, eles estariam falando do gado wagyu na Tasmânia, da comida kosher e de tantos outros exemplos de como administrar a dependência que temos dos animais e reduzir o sofrimento.

    Os animais não agradecem, simplesmente porque não podem. O favor que você fizer a um predador provavelmente será retribuído com você virando o prato do dia. Nós não apenas podemos agradecer os benefícios proporcionados pelos animais como podemos agir conforme essa gratidão, como os nativos norte-americanos que ritualizavam a caça e outras formas de se relacionar com os animais. Se fossem pensadores sérios, Regan, Singer e outros defenderiam o ritual (e o respeito, os valores e a proporção etc.), não a inclusão de animais nas sociedades humanas.

    • gilvas disse:

      christian, pelo que expuseste, recomendo a leitura do livro. regan rebate as acusaes de misantropia imputadas aos ativistas, por exemplo. vou me ater a outros pontos, mas ressalto que a questo dos animais no pode ser encarada por pessoas que firmam sua filosofia sobre antropocentrismo; j deveramos ter evoludo neste ponto, e a no cito singer, mas sagan e clarke.

      a comparao do predador humano ao leo no cabe. as presas do leo esto em seu ambiente natural, convivem em grupos sociais, demonstram comportamentos diferenciados e individuais. a criao de animais em cativeiro nega estes mnimos direitos aos animais, tansformando-os em mquinas de converso de vegetais em outras substncias mais complexas. o homem no um predador; pode ter sido quando andvamos com flechas e tacapes pelas savanas, mas a revoluo industrial mudou isto h muito tempo. os animais tero os direitos que dermos a eles. o “tratamento melhor”, chamado de “tratamento humanitrio”, considerado pela indstria uma realidade. muitas pessoas acreditam nisso, e fecham os olhos para o que realmente acontece.

      a condio humana degradada pelo status quo atual, o mesmo que privilegia prdios altos demais, por exemplo. culpar ativistas por ela uma distoro. comparar o aborto destruio dos ovos de tartarugas uma falcia, dado que o aborto pode ser consentido pela grvida, escolha que no dada tartaruga.

      abrao.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s