John Updike: S.

Caro John Updike.

Dirijo-me a você com grande, e um tanto surpresa, admiração. Sua escrita é, por um lado, de um formalismo irretocável: imprimes um ritmo constante dentro de linhas claras de prosa limpa e que raramente se perde em excessos.

Ao triunfo da forma no aspecto técnico, soa quase natural que o conteúdo seja apenas uma desculpa para o exercício de suas habilidades tão bem estudadas. Se há um pouco de surpresa para mim seria porque eu, sempre pronto a desconfiar da técnica altamente mastigada de escrever como um escudo do jornalista-escritor, me descobri um apreciador sincero de sua arte.

Fosse para tecer uma comparação na forma, diria que te avizinhas de Graham Greene. Como poucos, o inglês sabia dosar ironia e leveza dentro de tramas envolventes por sua simplicidade. Entretanto, Greene escreve sem lançar-se em malabarismos; ele simplesmente não procura escapar de seu estilo registrado, e suas estruturas narrativas são tradicionais.

Você não: escapou de escrever na primeira década do século XX, onde idealismos em estilo naturalista volta e meia se enroscavam com fluxos mal-digeridos de consciência, que havia virado muleta da moda na literatura americana. Pelo lado do estilo, és uma criatura livre, e S. é uma prova irretorquível: todo estruturado com uma colcha de retalhos de cartas, bilhetes, memorandos, gravações, e sem nunca apelar para a voz dos interlocutores, ele é um romance maduro e brincalhão ao mesmo tempo.

Neste ponto, Greene pode voltar a este texto: seu núcleo ideológico é mais duro, ainda que seja visto de uma distância que possibilita aos desentendidos se desentenderem do que se está falando. Revanchismo contra os ianques, os detratores gritariam, e você, estimado Updike, poderia servir de munição. Seu texto fala de uma América altamente criticável, mas que ainda se pode amar, uma espécie de Simpsons avant la letre, e muito mais inteligente.

Tuas escolhas podem ter te causado algumas angústias, a começar pela pecha, bem plausível, de “escritor fácil”. Maldade: não podes ser acusado de travar o texto em quase nenhuma ocasião, mas, ainda assim, dizer que uma prosa precisa se atravessar no estômago para valer algo é um folguedo que apenas pedantezinhos de início de curso de literatura praticarão.

Confesso que me entediei um pouco no um trecho logo após o batismo da protagonista como Kundalini, começando na página 70 da edição brasileira, e que consiste, você lembra, de uma gravação do guru Ahrat discorrendo sobre a tal serpente que fica enrolada na base da coluna de todas as mulheres. São pouco mais de seis páginas, e parecem durar mais. Todavia, eu não reclamaria mais do que reclamei no capítulo XI de O Retrato de Dorian Gray, da bichona irlandesa mais famosa do mundo, e que consiste em um exercício compilatório das frivolidades de Gray e, por exetensão óbvia, do próprio Oscar Wilde.

Sua habilidade em encarnar uma mulher e contar toda a história pela boca dela, em primeira pessoa, sem a arbitragem de um narrador onisciente, ora, ela merece palmas. Escritores mais modernos tentaram, como Nick Hornby em seu Como Ser Legal, mas você foi mais longe. Exploras uma seara semelhante: a terapia alternativa, pelo viés oitentista de gurus indianos falsos e recheados de ioga e budismo, como válvula de escape de relacionamentos frustrantes. Confesso que dei boas gargalhadas, e estou te escrevendo antes de ter terminado o livro porque eu já começo a sentir uma pontinha de falta dele. Devem ser mais umas cinqüenta páginas, e estou ansioso para devorá-las e quero que elas durem. O ashram está caindo, eu sei, e isso só me deixa mais ansioso para ler mais.

Agora eu vou te deixar. Aliás, nem vais receber esta carta, dado que já deixaste as letras e o mundo para trás há algum tempo. Tua prosa leve e intrigante, porém, vai encantando mais um incauto leitor.

Obrigado, Mr. Updike, e um abraço.

***
Um trecho, da página 126, uma carta de Ahrat à prefeitura do município onde fica o ashram:
(…)
Se a nossa população excede a permitida sem que se declare a existência de uma cidade, então vamos declará-la cidade. Propomos o lindo nome de Varunaville, em honra de Varuna, que preside o universo. Esse deus celestial colocou fogo nas águas e pendurou o pêndulo de ouro, o sol, a fim de que balançasse no alto regulando o dia e a noite. O ritmo de sua ordem é a ordem do mundo que se chama rta. Nas sua mansão de mil portas Varuna está sentado observando tudo que se faz; por toda parte, seus espiões vigiam o mundo e não se deixam enganar. Ele é uma divindade gloriosa, apropriada a esta terra ensolarada e a um município chamado Dourado. Mas se o senhor preferir dar à nossa cidade um nome de som mais nativo tal como Cotovelo Rachado ou Pneu Furado, esteja à vontade.
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para John Updike: S.

  1. humberto disse:

    gente, que capítulo é esse do dorian gray??? ai, nao lembro. vou ter que procurar o livro! deu afliçãooooooooo

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