James Cameron: Avatar

patrocinado pela tim, presumo.

James Cameron conseguiu mais uma vez. Ou conseguiu do que na outra vez, de qual eu nem lembro direito. O fato é que Cameron concebeu uma peça de marketing muito maior do que um filme, algo como que foi feito dez anos atrás, em outra escala, com A Bruxa de Blair.

Avatar era um fenômeno previsível. Cameron teve uma percepção perfeita de tempo: a febre do 3D está espalhada por todo o mundo, mas ainda não havia um filme realmente grande e minimamente divertido feito neste formato. Havia bobagens com assassinos seriais de garotas adolescentes que querem loucamente trepar, uma aventura insípida com Brendan Fraser, uma terceira parte morna de Era do Gelo, e a injustiçada jóia que é Up, filme onde não cabia a pirotecnia de um tradicional filme de ação.

Cameron é tarado por filmes de ação, como este escriba, quando adolescente, pôde verificar no auge de sua susceptibilidade ao cinemão-pipoca. Aliens, o Resgate, gerou um impacto fulminante em um garoto de pouco mais de dez anos, e poderia ter permanecido perfeito em minhas lembranças se eu não o tivesse desenterrado há poucos meses, para minha decepção.

Em Avatar, o diretor revisita a ação, Sigourney Weaver, e exo-esqueletos motorizados, e cria um fenômeno curioso onde detratores e defensores têm a cara desses anos 00 com tão pouco a dizer.

Não há propriamente um time de defensores. O grupo que apreciou loucamente Avatar, e acreditou na balela de Cameron sobre uma ruptura, possivelmente teria apreciado as desnecessárias e soporíferas piruetas de 2012. Os poucos que não acham uma comum apreciação entre Avatar e 2012 devem estar procurando um pouco mais do que efeitos, ou o criador de Independence Day realmente forçou a barra.

Cameron não força a barra. Seu Avatar é apenas um filme de ação bobo que pretende te fazer esquecer das dores do mundo por duas horas e pouco. Ele consegue, e não deve ser culpado por isso. Imagine-se na pele de Cameron: “Solicitei quinhentos milhões de dólares para fazer um filme sobre alienígenas azuis: será que devo arriscar, sequer por um instante, incluir algo no roteiro que distraia meus espectadores deste visual simplesmente avassalador?”.

O militarismo é um elemento previsível, embora penda, aqui, mais para o lado dos malvados. Aqui não são mais os anos oitenta, e Cameron sabe disso. O romantismo contemporâneo retomou algumas nuances do bom selvagem, e as formas de luta do bonzinho necessariamente têm de refletir isso. O que gera alguns constrangimentos, muito claros na batalha final, onde os heróis entram com o trunfo relativamente fraco de eliminar a navegação eletrônica do oponente, e sem o conjunto armas + estratégia que possa apresentar uma chance verossímil de enfrentar um grupo de mercenários altamente filho-da-puta.

Cameron também venceu na categoria Pedantismo: Avatar foi um filme falado em todos os sites nerds imagináveis, e todo o povo hype-cult correu para falar mal. O diretor, assim, só poderia sorrir.

Eu resolvi aproveitar o filme. Bloqueei 97% dos meus neurônios, e deixei-me levar pela montanha-russa. E daí se o roteiro era previsível e furado, de modo que as pessoas só não adivinhavam a próxima cena ou fala quando esta era simplesmente mal amarrada com o restante? Avatar é uma viagem do Gilvas velhão para dentro de um turbilhão de tempo. De certa forma, eu já ficaria satisfeito com aqueles exo-esqueletos realmente bem representados, com peso e movimentação corretos, um triunfo memorável diante das gambiarras deploráveis que, hoje eu sei, Aliens apresentava.

É improvável que eu veja Avatar em DVD: a magia está no envolvimento do espectador dentro de uma massa tremenda de efeitos. As renderizações digitais são simplesmente perfeitas, apesar do design de algumas criaturas ser pouco mais do que funcional. A trilha sonora mereceria alguma atenção, sem prejuízo para a fluidez da narrativa: o que tivemos, nos alto-falantes, era desprovido de qualquer vida, o que era convenientemente disfarçado pela orgia visual.

Talvez Cameron não esteja blefando, talvez ele realmente tenha criado um novo capítulo no entretenimento em tela grande. O ponto é que isso, no final das contas, pode não ser necessariamente algo bom, mas, diabos, eu adoro exo-esqueletos motorizados com interfaces gráficas poderosas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para James Cameron: Avatar

  1. turnes disse:

    Ai muito hippie…passo.

  2. humberto disse:

    eu adogo ficção científica. mas este achei ruim demais. vc usou uma palavra que acho que resume: (in)verossímil.

    que final cafona. eu torci pro mundo industrial. hahah.

    fiquei pensando no Tropas Estelares, que é cinemão também. mas achei mil vezes mais legal!!! muito mais interessante e divertido! 🙂

  3. Kika disse:

    na minha opinião, só vale pelos efeitos mesmo, eu não assistiria em casa… mas foi a única coisa decente feita em 3D até agora (não vi o “up”)… estou esperando é pelo do tim burton, que sai lá pra maio.

    • gilvas disse:

      confesso que morro de medo do que vai sair deste alice. espero que os personagens não cantem, e nem façam guerra de comida, duas coisas bestas que costumam ocorrer no vaudeville gringo. de sweeney todd eu gostei, mas provavelmente foi pela periferia do filme: século XIX, canibalismo tendo sido um assunto recente em minhas leituras, mas só pude apreciar as canções pelo aspecto técnico, pois elas não capturaram minha imaginação.

      também confesso que fui ao cinema tentado a massacrar avatar com todo o meu azedume e mau humor. o problema é que acabei encontrando o moleque que eu fui, e que se encantava com uma certa magia que um artesão cuidadoso imprime ao seu produto ainda que seu conteúdo deixe a desejar.

  4. mafra disse:

    pois então, seu gilvas,
    fui ver o filme, também, como a adilene, arrastado… e gostei, embora tenha achado o roteiro, as falas, tudo, em geral, MUITO PREVISÍVEL. agora, de fato, não dá para concordar com aqueles que simplesmente esculhambaram o filme sem levar em consideração sua despretensão. nesse sentido, seu olhar é o mais pertinente que li.

    parabéns.

  5. Minha irmã tinha visto na tela normal e me arrastou para ver o 3D. Achei tudo muito bonito, só senti pena por ser o mesmo roteiro de tantos outros filmes. Acho que estamos na era do excesso de efeitos e falta de roteiristas…

  6. Norman disse:

    Reassisti Aliens dia desses. Pra mim, continua impecável introdução, desenvolvimento e final.
    Avatar é a primazia técnica. Acredito que ainda demorará alguns anos para outros se aventurarem num fotorrealismo tão difícil e caro. Acho que nem os envolvidos em Avatar tem ânimo de tentar de novo a façanha, porque independente da tecnologia, aquilo lá é um trabalho artístico estafante. Sei porque trabalho com 3D.

    Fazer um dinossauro é fácil. Fazer um prédio desabar também. Fazer um robô é brincadeira hoje em dia. Fazer humanóides com olhar e expressões realistas… isso já é OUTRO patamar de computação.

    Quanto à Cameron… ele merece. Ele sempre leva o cinema para outro nível, coisa que só ele conseguiu em 100% dos lançamentos. É um doido perfeccionista. Eu admiro.

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