Bernard-Henri Lévy: American Vertigo

Bernard-Henri Lévy deve ter perdido o trem da história quando ele passou na França, e não parece sofrer demais por conta disso. Talvez nem estivesse tão interessado em embarcar, mas sim em vivenciar os efervescentes anos rebeldes que foram os anos das ditaduras mais ferrenhas, aquela estranha batalha de simetrias sobre costeletas peludas e calças boca-de-sino. Seu livro O Diabo na Cabeça radiografa de forma exemplar aquela época e alguns de seus dilemas.

Lévy está vivo, e isto faz alguma diferença hoje em dia. A confusão o carrega de tempos em tempos, mas ele tem uma estrutura central a mantê-lo em uma espécie pouco trivial de integridade de pensamento. Não, ele não se rendeu às releituras regurgitadas de um canastrão da auto-ajuda como Alain de Botton, apesar de sua preocupação um tanto excessiva com seu cabelo. Penso em porque alguém deveria se preocupar com cabelo depois de haverem freqüentado esta esfera as suíças prodigiosas de um Schopenhauer.

Por alguma razão bizarra, e eu ficaria bem feliz se fosse “pagamento”, Lévy lançou-se a atravessar os Estados Unidos da América, executando mais um exemplar do que Tocqueville eternizou como prática séculos antes.

Seu antecessor teve sorte: as viagens demoravam naquela época, e havia muito o que ruminar, desde que as hemorróidas de tantos trechos surrados não atacassem os fundilhos do tal pensador. Lévy vive numa era apressada, e viaja de avião. Quase impossível não estar acometido de bloguite.

Começa por um texto de justificativa, um pouco longo demais, e próximo de constrangedor. Não há como justificar uma viagem aos Estados Unidos, e mesmo a antropologia mais profunda não é o suficiente para que um homem são se digne a atravessar aquelas terras. Isto fica claro em sua introdução, embora, possivelmente, ele tivesse desejado algo distinto.

O fim se emborca no mesmo tom do início. Lévy tece considerações sobre o que viu, e acerta metade das bolas de meia que atira nas latas. Indolentes, algumas das latas não caem, e ninguém se importa, no final das contas.

O que vale é o miolo, a viagem em si, e as considerações mais rabiscadas, menos rebuscadas. Nestas é que reside a diversão e o ensinamento deste diário de viagem. A graça principal é o olhar do estrangeiro sobre uma terra que seus antepassados louvaram e libertaram, e que, naqueles dias, cuspia na direção de sua madrinha européia coberta de pó-de-arroz tal qual um integrante do Motley Crue.

Toda sociedade deveria, constantemente, receber um observador externo. Um ponto de vista alienígena desnuda situações bizarras, e ajuda a sociedade a se reciclar. Ou a trucidar o observador, dependendo da contundência de suas afirmações ou sua capacidade de se esquivar ao ódio do povaréu e de suas elites conceitualmente tongas.

Lévy, por exemplo, diverte-se horrores com a estupidez congênita de uma direita aparvalhada que entende perfeitamente os mecanismos da manutenção do poder pela falsa laicidade de um estado, assim como enxerga os desvairios de uma esquerda que não soube se adequar a seu tempo, e que se prende a alternativismos improdutivos muito distantes dos centros dos problemas que o país enfrenta.

Seus personagens não fogem aos clichês que aprendemos nos filmes de sessão da tarde, embora sua leitura seja bem mais sarcástica. American Vertigo pode ser apreciado se esquecermos de suas partes inicial e final. Um trecho interessou-me especialmente, na página 159 da edição brasileira, e aqui o transcrevo:

(…) Hoje, conforme demonstrou Dominique Lecourt em L’Amérique entre la Bible et Darwin, a estratégia se aprimorou. Até mesmo se reverteu. Pois, em vez de se opor à ciência, em vez de se construir contra ela e contra seus métodos, em vez, em suma, de opor a uma ciência sem alma a alma eterna do humano e da teologia natural, a corrente criacionista teve a idéia genial de se encaixar no molde do adversário, adotar seus procedimentos e seu instrumental e também começou a falar em nome da cientificidade. É toda a história de um cientista como Jonathan Wells, titular com dois Ph.D, de Yale e de Berkeley, e que desenvolve, sob a influência da seita Moon, uma teleologia da história das espécies que mostra que sua sucessão corresponde a um “desígnio inteligente”.(…)

Este neocriacionismo não exige mais que se exclua o darwinismo dos manuais e do ensino.

Não pretende mais destituí-lo em nome de um saber divino que se imporia ao saber dos cientistas com a autoridade do fanatismo ou da verdade revelada.

Ao contrário, ele o aceita, ou pelo menos finge aceitá-lo – mas exige o direito, só o direito, de opor às “hipóteses” do darwinismo as hipóteses adversas, postas no mesmo plano e identicamente dignas, de seu “criacionismo científico”. (…)

Admirável esse elevar ao nível de “ciência” o que é o próprio rosto da superstição e da impostura.

Há duas teorias, e você pode escolher: essa é a fórmula de um obscurantismo esclarecido, é o princípio de um revisionismo de aparência liberal e tolerante, é o ato de fé de um dogmatismo reconciliado com a liberdade de palavra e de pensamento, é, como quem não quer nada, a manobra ideológica mais sutil, mais esperta, e, no fundo, mais perigosa da direita americana há anos. (…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Bernard-Henri Lévy: American Vertigo

  1. Milene disse:

    Ohh god!! Não posso negar que dessa vez a direita americana foi inteligente e muito criativa. Não aguento mais ouvir minha mãe tentando me convencer sobre a teoria do “design inteligente”; me seguro pra não rir das teorias ditas no centro espírita que ela frequenta. E olha que eu respeito algumas religiões, não concordo, mas respeito e acredito que algumas pessoas necessitam dessa fé (por falta de informação e de outras motivações, na minha opinião). O problema é que essas teorias causam confusão (pra mim é só confusão, pra eles é a verdade absoluta) na cabeça de muita gente. Váaaarias vezes minha mãe me presenteia com a seguinte frase (mesmo quando ela está falando o maior dos absurdos): Filha, isso foi comprovado cientificamente, os especialistas já estão concordando com isso, não tem o que se discutir e bla bla bla.
    Realmente, nessas horas é melhor não discutir…vai que o designer resolve me punir? rsrs

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