O Paradoxo Jobs

lisa simpson e o baixista do pink floyd

Escrevi, ainda nesta semana, sobre Steve Jobs, curiosa cria do sistema de marcas atual, que provoca uma incômoda sensação de paradoxo tanto em seus detratores quanto em seu rebanho de fiéis seguidores. Jobs conseguiu erigir mais do que uma marca, ele simplesmente desenvolveu uma ideologia a partir do que deveria ser apenas uma corporação de produtos eletrônicos. Naomi Klein deve se irritar diariamente com Jobs, e também já redigi alguns resmungos sobre o assunto.

A filosofia de Jobs pode ser arremessada à lixeira com relativa facilidade se a considerarmos como parte de uma bem urdida estratégia para enganar pretensos idealistas da confusa era contemporânea. Se não há mais ídolos e o niilismo devorou seu coração, porque não se render à igreja de Saint Jobs? Pelo menos não temos de agüentar o pavoroso design de quase todo templo religioso atual.

Adentrar a experiência do conjunto de produtos Apple é, segundo se ouve falar, algo inigualável, embora eu desconfie que aqui se aplique o famoso teorema do casamento que, a saber, é igual a uma piscina gelada: o primeiro idiota que entra fica dizendo que a água está boa.

Alguém poderia acreditar que se trata de uma experiência libertadora, o que é um engano mais redondo do que os botõezinhos gostosos da interface gráfica do iMac: Jobs está mais para um Stálin do Vale do Silício, um ditador totalitário que meia-dúzia está disposta a adorar. Ainda que também se configure uma escolha ao trivial da Microsoft, o restante de Jobs se distancia do antigo líder da União Soviética, principalmente porque não sou instado pelo estado a usar Mac sob pena de ser enviado a um gulag lamber guano de pássaros que desconheço.

Pintar Jobs de vermelho e lhe colocar um tridente na mão pode ser uma tarefa complicada. Ainda que a filosofia possa ser furada, não posso deixar de me comover pelo seu credo pelo produto bem feito. Irrita-me profundamente adquirir produtos mal-acabados, cantos mal-feitos, rebarbas porcas de plástico, desenho apressado, pouca durabilidade. Penso no material que se gastou para fazer aquele produto, no ecossistema que teve de ser importunado para se retirar a matéria-prima, e é de lascar.

Numa segunda camada, o produto vagabundo é algo que você joga fora mais fácil. Muitas vezes você o arremessa ao lixo por simples raiva. Coisas mal-feitas podem causar raiva irracional, do tipo que se aproveita de janelas abertas para ampliar a noção de anarquia no universo. Um produto bonito é um produto que você manterá em casa o máximo que puder, nem que tenha de fingir que ainda está satisfeito com o desempenho dele nas funções para o cumprimento das quais o adquiriu.

Existem os monstros impulsivos, que consomem gadgets como se fossem biscoitos de água e sal de grife? Oh, sim, existem, e a Apple não é santa, ela cria modelos para a estação, se compraz na obsolescência planejada que entope os aterros sanitários com plástico colorido e metal escovado. Por outro lado, ela te permite criar uma relação quase amorosa com seus belos produtos, sensação endorfínica que pode te fazer refletir. E inspirar a reflexão, meus amigos, é algo de que poucos no mundo atual podem se gabar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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