O Mistério de Maranello

Falta treinamento, formal ou informal, em apreciação da arte, mesmo considerando suas formas menores, como o videoclipe, ou derivativas, como o design industrial. Este é o diagnóstico a que chego quando observo um rapagão de classe média fotografando, com sua compacta de marca genérica, um veículo esportivo em exposição num dos xópis de Florianópolis.

Trata-se de um exemplo pontual, claro. Se eu ficasse mais alguns minutos por ali, com uma prancheta, poderia anotar outros casos de estudo e detalhes da patologia, mas creio que tal procedimento seria, no mínimo, desnecessário: este é um fenômeno que se observa em diversas escalas e diversos vetores, e o leitor desta coluna de pedantismo mergulhado em mau humor, indivíduo esclarecido, sabe do que estou falando. E eu tenho mais o que fazer, como escrever textos inúteis como este.

O rapaz do primeiro parágrafo se comove com as cordinhas que separam o carro dele e do restante do populacho. Ele também ouviu as chamadas na televisão e na rádio, talvez tenha até lido alguma chamada num jornaleco de dez páginas, o fundo do poço na tática de salvação das mídias impressas diárias. Ele sabe que está diante de um evento porque alguém disse que haveria um evento lá no xópis.

Entretanto, ele não entende o que acontece. Talvez não tenha um diálogo consigo mesmo sobre suas dúvidas, mas, com certeza, não entende que um veículo automotor, ainda que seja de pequenas séries, pode ser considerado uma pequena jóia por conta dos anos de desenvolvimento da indústria, que permitiram que dezenas de conceitos artísticos e de engenharia fossem diluídos e deglutidos até que se chegasse naquele objeto vermelho longilíneo sobre quatro rodas.

É arte menor, é arte vertida pelos filtros castrantes das necessidades da indústria, de dezenas de camadas de marketing vertido sobre um consumidor ávido por status. Ainda assim, possui um verniz de arte, uma camadinha que pode comover algum atento.

Mas não o rapaz que fotografa. Ele, aliás, não fotografa; ele “tira fotos”, registra. Depois ele vai para casa, e mostra para a família, para a namorada, para o primo que tem um Gol rebaixado até o ponto em que os pneus roçam por baixo dos para-lamas, aquele que “entende de carros”, e repassa para eles o pepino. Antes que o impasse se instaure, eles dizem “uau, que massa”, e logo passam a discutir o BBB. São felizes, e eu sou um chato.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para O Mistério de Maranello

  1. Jux disse:

    é, véio!
    confesso minha invejinha verde de vossa pessoa!

  2. gilvas disse:

    no confessionário pessoal que freqüento, meus botões, em suma, eu tenho inveja de consegue captar, em alguma forma escrita, cantada ou desenhada, algo que eu penso mas não sei dizer. mesmo quando é ranzinza, como pode soar este texto velho: https://gilvas.wordpress.com/2005/05/01/inveja/

    adoro ter inveja dos amigos, principalmente os que escrevem o que eu não consigo escrever.

    e dá para analisar os brucutus, sim. dá para analisar até letra de música da kelly key, e usando os preceitos de… derbyn?

  3. mafra disse:

    adoro quando leio um texto teu e penso que adoraria ter dito o mesmo porque penso quase o mesmo ou mesmo mesmo. até dá uma invejinha. mas adoro.

  4. Jux disse:

    ahahahahahahahahahahaha
    querido véio-chato!
    bão… eles são felizes nas pequenas contemplações destinas à patuléia!
    Uél… discutir BBB: acho até válido quando se discute o fator de formação (ou melhor seria DEformação) de opinião que esse tipo de programa tem.
    Sim, é horrível dizer isso, mas é que mais tem nesse micro-cosmo!
    Enton, bóra analizar alguns escrotossauros à luz de… Dworkin???

    Beijukka da Véia-chata!

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