Tobe Hooper: Lifeforce

Boa parte da diversão do cinemão pipoca oitentista se deve à injustiçada produtora de Menahem Golan e Yoram Globus. Foram eles que conduziram à vida filmes de ação como Cobra, Conan, Desejo de Matar e a involuntariamente hilária seqüência de Comando Delta, estrelando Chuck Norris.

Diz-se da dupla de produtores que eles deturpavam os conteúdos originais dos personagens em seus filmes, mas diabos me mordam se isto não é o que qualquer produtora de cinema faz. O que importa é que eles sempre foram corajosos no aspecto mais podrão que a palavra assume, e fizeram filmes divertidíssimos que sobrevivem ao passar dos anos com galhardia.

Se existe um filme que foi especialmente injustiçado dentro desta produtora de injustiçados, este filme é Lifeforce. Eu vim a conhecer esta pequena pérola da sétima arte pelo previsivelmente horrível título brasileiro, Força Sinistra, e, ainda por cima, dublado. Apesar de todas estas mazelas, o filme marcou aquele adolescente que habitava uma Little Boats City vivendo os últimos suspiros da década de oitenta.

A sinopse de Lifeforce é relativamente simples: um ônibus espacial anglo-americano penetra a cauda do cometa Halley, com direito a “ui” do corpo celeste em questão, e lá descobrem uma descomunal espaçonave alienígena. Ao entrar lá, descobrem um monte de carcaças de monstrengos ressecados que se assemelham a morcegões, e logo depois três cristais contendo três humanóides peladões. Depois disso, obviamente, a merda come solta, o que só torna este filme mais divertido.

O começo do filme já é o suficiente para que uma pessoa descarte o adjetivo “Científica” da classificação que estava na prateleira deste DVD; o roteiro possui furos diversos que não me incomodam em absoluto. Se fosse para não gostar de filmes inverossímeis, eu não apreciaria O Império Contra-Ataca; tudo bem que todo o resto de Guerra nas Estrelas é um lixo marqueteiro, mas aí é outra história.

Entretanto, as ambientações são belíssimas: John Dykstra é O cara dos efeitos especiais, e suas paisagens artesanais são construídas, iluminadas e filmadas com um esmero que quase leva este ogro aqui às lágrimas. A música de Henry Mancini, outro monstro, impressiona desde a abertura dos créditos, poderosa e grudenta.

As criaturas de Dykstra são excelentes. Elas entregam ao espectador uma realidade rascunhada, mas táctil, e isto funciona melhor do que milhões de dólares em renderização digital. Revi diversas vezes a cena em que o guarda, a primeira vítima da vampira alienígena, está para receber autópsia. Além do excelente trabalho com modelos de humanos ressecados e raios diversos, a seqüência de confusão do guarda recém-revivido é de arrepiar.

Gosto da mistura de sentimentos doentios que perspassa uma história de heroísmos diversos. O filme não tem um protagonista claro, apesar das figuras fortes dos coronéis Carlsen e Caine. Carlsen possui duas camadas incongruentes: ele está desorientado e seduzido pela vampira, mas retém sua noção de origem. Caine, que deve ser um primo do Martin Gore, é determinado como um militar deve ser, mas não deixa de se surpreender com certas ações de um ensandecido Carlsen, principalmente nas cenas do manicômio.

Um dos trunfos de Lifeforce é seu elenco de quase desconhecidos. O único rosto de fácil reconhecimento é o de Patrick Stewart, que, já em 1985, ia ensaiando seu papel na adaptação cinematográfica de X-Men. Os rostos desconhecidos empresta ao sinistro filme um ar de verossimilhança por se distanciar do espectador. O fato de ser rodado em uma Londres fictícia só reforça o efeito de uma realidade viável a ocorrer com estranhos.

Mamma Mia!

Ainda que o filme tenha tantas qualidades, é provável que o adolescente gilvas não tenha reparado nelas quando viu este exemplar soberbo de FC na televisão ao final dos anos oitenta. O que ele via era Mathilda May. Peladona num horário acessível como Supercine ou Sessão de Gala. Maravilhosa. Seu olhar traduz sua fome de energia com maestria, mas eu mal conseguia desviar os olhos de toda aquela pele branca. Devo ter aprendido a falar “gorgeous” naquela época, ou não conseguiria descrevê-la usando o idioma bretão. E devo ter detonado a fita VHS de tanto rebobinar e pausar.

Qualquer estudo sobre identificação com personangens de cinema deveria ter este filme como parte de sua revisão multimídia. Ser o Coronel Caine dava ao indivíduo aquela certeza de que era um indivíduo que controlava seu destino, e que perseguia sua missão, por mais bizarros que fossem os acontecimentos ao seu redor. Só ele sabia que tinha salvo a Terra depois de enfrentar vampiros do outro mundo e zumbis deste aqui.

Carlsen, entretanto, era a outra face. Dominado pela sedutora vampira e pela dúvida que o fazia sentir-se um estranho em seu planeta, caso fosse mesmo um pré-destinado àqueles eventos, ele seguia em conflito. Em seu interior batalhavam a fidelidade ao planeta onde crescera, o possível pertencimento a esfera totalmente distinta, e a simples vontade de ceder a um Galactus em deliciosa roupagem de súcubo gostosona.

Embora tenha todos estes atributos, aos quais se soma ter sido dirigido pelo mesmo cara que dirigiu Poltergeist, Lifeforce fracassou nos cinemas. Primeiro, tomou um couro de Cocoon, outro clássico oitentista, mas de sessão da tarde, e depois passou a ser classificado em revistas e jornais como um exemplar de filme B. Tragédia, trgédia. Ainda que tenha sido ridicularizado pelo mundo, Lifeforce tem seu lugar neste coração aqui; é um clássico definitivo e injustiçado.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Gringo e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Tobe Hooper: Lifeforce

  1. turnes disse:

    não estou mais magoado com sua crítica ao Drácula, apesar de ter pensado seriamente em romper a amizade. Volte! E traz meu dvd do killer klowns! E me traz esse!

  2. turnes disse:

    “diabos me mordam” é uma expressão que gera imagens de incrível força poética.

    • gilvas disse:

      isto significa que estou perdoado? caso positivo, até devolvo teu dvd dos palhaços espaciais, e te empresto este do lifeforce.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s