Philip Roth: Lição de Anatomia

a capa nacional era feia demais

Conheço uma pessoa, a quem não darei nome, que acredita em revistas de decoração e arquitetura. Seu apartamento é cuidadosamente arrumado, e mesmo a sua bagunça tem aquele jeito despojado que as coisas jogadas assumem nas fotografias que demonstram o conceito de “pequeno apartamento de 63 metros quadrados transformado em um lar aconchegante para um jovem casal empreendedor”. Assim como ela, existem outras pessoas que acreditam que as pessoas realmente vivem em espaços organizados e funcionais.

Marquez, o célebre escritor colombiano, disse, certa feita, que o indivíduo está fadado a repetir para sempre o mesmo livro, ainda que em roupagens distintas. Isto é uma verdade que se aplica a praticamente qualquer escritor que tenha personalidade; o que varia, algumas vezes e para nosso intenso prazer, é a roupagem que o hábil escritor imprime sobre suas criaturas.

Roth, o polêmico escritor americano, acredita na máxima de Marquez assim como a pessoa do primeiro parágrafo se empenha em seguir os cânones rígidos da decoração limpa e cotidianamente inviável. Seu Estudo de Anatomia é uma prova disso.

O conceito do livro é claramente uma tentativa de Roth de impor uma roupagem distinta a um exercício de psico-terapia praticamente idêntico ao de Diário de uma Ilusão. O pai e a mãe têm seu coração dilacerado por um filho que descreve cruelmente o ambiente de seu bairro e as personagens de sua família. o filho não fala com seu irmão, e é um escritor famoso. O filho tem uma pica doce judaica, e as mulheres o servem como odaliscas resolvidas num universo pós-feminista de calças boca-de-sino. Cara, eu não gosto do Zuckerman.

Quando me deparo com uma redação difícil, um texto que não consegue decolar de minha caneta ou de meu teclado, geralmente apelo para um começo ruim. Assim, melhor um começo ruim do que nenhum começo, certo? A idéia é que, uma vez iniciado o texto, por pior que seja seu começo, boas frases surgiram com boas idéias, e terei um texto bom com um começo ruim. Retrabalho o começo com a inspiração do fluxo de texto, e então tenho um texto inteiro bom.

Se fosse criar um romance e este não fluisse de alguma fonte mística, uma das ferramentas que usaria, para me livrar do impasse criativo, seria a de um narrador auto-biográfico injetado na trama. Ele alimentaria as estruturas enquanto o leitor imaginado ainda não tivesse se instalado, e deixaria o livro quando este estivesse pronto.

Quando o leitor real chegasse, desconfiaria da existência passada de um narrador: seus traços estariam impressos em certas parte do concreto, os cômodos poderiam conter um tanto do ar que respirou, e certas escadas estariam infladas de uma presença quase assombrada, mas o romance, este teria uma personalidade própria, uma existência em si, uma nesga de vida quase sobrenatural.

Quando Roth se mostra preguiçoso, e mantém Zuckerman segurando diversas pilastras incompletas, fica difícil mergulhar em seu universo judeu de afirmação e negação, ele inviabiliza a ilusão que a imaginação do leitor desenharia sobre as páginas. Repetir o truque, sem lhe emprestar um disfarce engenhoso, é algo que eu não espero de Roth.

Tudo isto que coloquei transforma Estudo de Anatomia em um mau romance? Nos dois primeiros terços, é possível. Entretanto, Roth pode ser um baita filho-da-puta quando está inspirado, e a epifania de Zuckerman em Chicago é a prova disso: quase apaga de minha memória cento e tantas páginas de um Zuckerman autocomiserativo deitado em um quarto de Nova Iorque distribuindo as benesses de seu sucesso editorial, de seu dinheiro e de seu caralho pelo prisma da culpa judaica por ter traído os judeus.

Se aquela embromação toda do começo era uma preparação, eu não sei, mas Roth sai do livro perdoado.

Um trecho, da página 121, edição brasileira, tradução da Lya Luft:

(…) – Por que seria mais “educado” numa carta escrita diretamente a mim, apesar de ter escrito o que escreveu sobre minha obra? – Sofisma fraco. Pedantismo. Não improvise nem perca a compostura.
Ele procurou em toda parte na cama aquelas três linhas ferinas da noite anterior. A página devia ter escorregado para o assoalho. Tentou alcançá-la sem dobrar o pescoço nem voltar a cabeça, e só depois de rapidamente voltar ao ataque, descobriu que estava lendo a página errada para Appel.
– Uma coisa é pensar que está fingindo com seus alunos quando lhes diz que há uma diferença entre personagem e autor, se é assim que pensa atualmente – mas despir o livro de seu tom, privar a trama das circunstâncias, e a ação do seu tempo, desconsiderar totalmente o contexto que dá alma ao tema, que lhe confere sabor, vida…
– olhe aqui, não tenho mais energia para literatura.
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Philip Roth: Lição de Anatomia

  1. blogdoturnes disse:

    mudei pro wordpress
    me visita!
    (em casa tbem!)

  2. mafra disse:

    duas coisas distintas:

    01. caso interesse saber, deletei sem querer seu último comentário em meu blog. e até fiz um mea culpa por lá. caso queiras redizer o já dito, adoraria ler, pois não o li ainda.

    02. essa não é a primeira vez que venho aqui atraído por um título que não encontro. por exemplo, desta vez foi “eu e meu violão de cordas de aço”, numa outra que me deixou muito frustrado por não encontrar o texto que imaginei que leria, vim aqui atraído por algo como “nação zumbi no espaço fios e formas” ou coisa que o valha…

    abraço,
    mafra.

    • gilvas disse:

      vou reler o texto, e ver se resgato meu comentário da memória. já ouviu falar dos corvos, dois, que se sentam sobre os ombros do aesir odin? chamam-se munin e hugin, memória e raciocínio, não necessariamente nesta ordem. pois então, o meu corvo da memória costuma voar quando eu menos espero.

      o atualizador do wordpress prega algumas peças de vez em quando. agora ele deu para lançar no rss textos antigos que eu estive revisando, por isso alguns anúncios “novos” acabam não aparecendo na página inicial.

  3. André HP disse:

    A princípio, imaginei ser um tipo de literatura científica. Valeu a dica.

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