Matt Hastings: Decoys

Serei direto: Decoys é um filme medíocre, e nenhuma resenha deve te convencer do contrário. Entretanto, um filme ainda é um artefato que pode ser lido em sentidos distintos daqueles que foram previamente desejados pelo grupo envolvido em sua criação. Felizmente, ou eu estaria me culpando por haver jogado fora noventa e seis minutos de minha vida.

A sinopse na capa traseira do DVD é uma bosta: descreve o filme como uma mistura de American Pie com A Experiência com ajustes, o que é verdade, mas, diabos, porque os criadores de sinopses não fazem direito o seu trabalho de nos enganar? Bom, um dos diferenciais é que o filme foi feito no Canadá.

Lá pelos quinze minutos de filme tu já sabes que a sinopse é, pasme, honesta e precisa, e que o Canadá não faz diferenciais desde Invasões Bárbaras. Os garotos virgens correm atrás de garotas, e as fraternidades chafurdam em rituais tão imbecis quanto os de qualquer filme americano de adolescentes bombados na testosterona.

Um apontamento puramente técnica, logo de cara: daqui a vinte anos olharemos para os efeitos especiais digitais em filmes de terror, e acharemos tudo uma bosta ridícula, do nível dos episódios novos de Star Wars. Na verdade eu já acho isso hoje, mas estou tentando me passar por uma pessoa modesta e legal. Deus, eu odeio monstros que adoram se mostrar. O que aconteceu com os saudáveis monstrengos do passado, sempre envoltos em brumas, dados a esconderijos e movimentos bruscos?

Eu dizia que este filme é interessante, e agora eu me sinto obrigado a provar. Bom, vamos lá. O primeiro ponto diz respeito ao herói do filme, ou melhor, ao casal de heróis, que, claro, parte sendo apenas uma dupla de amigos em um grupo de nerds.

A estrutura é clássica: Luke é o mais boa-pinta de um grupo de nerds, e a mais bonita das deslocadas é secretamente apaixonada por ele. Roger é seu amigo gordo e feio que ostenta uma virgindade constrangedora. Há duas loiras quase gostosas em uma fraternidade de loiras quase gostosas, e elas chegam matando sobre Luke e Roger. Básico e trivial.

A diferença é que Luke é um babaca. Ele cai matando sobre a loira quase gostosa, e ela o troca por um alvo estrategicamente mais interessante, num contexto que pode ser interpretado no final do filme. Roger é um exemplar do norte-americano punheteiro que, na realidade, quer casar e ter uma vida estável, dando uma bitoca na mãe loira de dois filhos de manhã e tardinha, pouco antes de umas americaníssimas espigas de milho servidas no quintal.

Luke se mete em todas as encrencas que seu personagem pede, e vemos se desenhar o arquétipo do herói que precisa enfrentar os malvados e os policiais, e apenas a mocinha acredita nele. Roger é o amigo gordo e feio que precisa ser salvo de uma armadilha vil que ele não consegue enxergar. Algumas mortes ocorrem nos núcleos periféricos, e o clichê segue seu caminho.

Entretanto, Roger é o cara, e ele conquista o coração da monstrenga espacial sem umbigo e dotada de um furo cheio de tentáculos logo abaixo dos seios. Ele compreende a situação especial que se apresenta, e também está apaixonado, então faz o que seu personagem super-legal deve fazer: se arrisca. A coisa não vai funcionar, claro, apesar de parecer o contrário no começo. Luke, para variar, entende isto errado também, e parte para uma ofensiva vingativa que, paradoxalmente, magoaria profundamente seu amigo.

Quando ele destrói as loiras quase gostosas, e exorciza o caso sugerido e mais do que furado com a policial, revela-se a garota nerd gostosinha, e ambos se declaram. Oh. Porém, Luke é um babaca, e o diretor é hábil em deixar entrever que ele agarra a gostosinha nerd menos por amor do que por conveniência.

A inversão dos papéis típicos é feita de forma a não estragar o ritmo da narrativa, que é besta, mas ao menos tem o tal do ritmo. Este era um dos pontos.

Outro ponto é que Matt Hastings, co-escritor do roteiro e diretor do filme, bate forte na polêmica questão do instinto de sobrevivência do ser humano. Há quem diga que defender os direitos animais seja prejudicial aos interesses da humanidade. Há quem diga que não quer participar de uma humanidade que não respeita outros animais. Ou loiras quase gostosas de outro planeta, principalmente se elas são criaturas em busca de sua própria sobrevivência.

Roger, a princípio, é o único que compreende o que está ocorrendo. Roger, o bobalhão que divide quarto com o Brandon Loser. Como em todo terror adolescente, ele não consegue comunicar sua descoberta. E penso: se ele conseguisse comunicar isto, faria alguma diferença? Improvável: sua posição no sentido de beneficiar seres alienígenas de intenções duvidosas provavelmente lhe garantiria um quarto acolchoado e um pacote generoso de eletro-choques terapêuticos.

Esta dubiedade de discursos poderia gerar metáforas curiosas, mas seria algo raso. Melhor é navegar na oscilante discussão em que implica a salvação, ou não, de outras espécies. A sobrevivência de uma determinada espécie nunca foi preocupação da natureza, então porque seria diferente com os seres humanos? O pseudo-herói de Decoys não pensa muito nisso: ele mata envergando a justificativa suprema de vingar o amigo. Aquele que ele não compreende, devo lembrar.

O roteirista usa o final para causar uma reviravolta e fixar o final pessimista na mente do espectador. A cena, todavia, tem dois lados, e a mocinha nerd acaba por envergar o anjo da vingança. Talvez ela conquiste o planeta para seu povo, talvez seja apenas a última representante de um povo extinto antes que os créditos passem. Ainda assim, ela dá matéria para refletir.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Matt Hastings: Decoys

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  3. Milene disse:

    “Deus, eu odeio monstros que adoram se mostrar. O que aconteceu com os saudáveis monstrengos do passado, sempre envoltos em brumas, dados a esconderijos e movimentos bruscos?” hahahahahaha, é verdade. Eu também prefiro os tímidos!!

  4. Jux disse:

    olha, apesar de dizeres que o filme é medíocre que só, tua resenha deixou a pseudo-leitora com vontade de ver, principalmente pelo buraco com tentáculos e pelas loiras-quase-gostosas!
    É praticamente um filme-sessão-da-tarde, right???
    hug ya

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