Bichos Invisíveis

Vivemos em uma redoma de ruído publicitário dentro de uma redoma de ruído ideológico dentro de uma redoma de sinais eletromagnéticos. Não necessariamente nesta ordem. Não necessariamente apenas nas redomas citadas. Não sei dizer nem mesmo que sejam redomas no sentido geométrico. O fato é que estamos imersos em ruído branco de mediocridade. O que mais poderia explicar o fato de ainda nos permitirmos paradoxos tão artificiais em nosso cotidiano?

Dos óbvios, salta a corrupção, a cuja imagem super-exposta recorro apenas didaticamente para exemplificar o paradoxo de criticarmos o político ladrão no noticiário que assistimos em uma televisão contrabandeada com sinal pirateado do provedor a cabo. Não é assunto, entretanto, em que eu pretenda me prolongar.

Numa era dominada por mascotes, o paradoxo de nossa alimentação é o que mais me intriga, e, antes de prosseguir no texto, seria interessante que o leitor soubesse que, embora eu não seja um vegetariano, não me conformo com o modo de produção industrial de diversos artefatos que nos cercam, e esta postura se acirra quando se envolve a crueldade com animais. O modo de produção adotado pela maior parte dos fornecedores de alimento no planeta é um exemplo claro de que a sociedade está num rumo muito errado.

Vemos televisão na sexta-feira, e o Chapelin volta e meia nos leva para conhecer algum recanto de algum país exótico, e não raro nos deparamos com alguma cena forte. Você sabe como é: leoas rasgando a barriga de gnus, focas sendo estraçalhadas por orcas, tartaruguinhas forrando o papo de pássaros que as esperam na praia natal.

Minhas descrições provavelmente não conseguem extrair lágrimas de ninguém, mas as imagens, a narração do Chapelin, mais aquele piano safado mela-cueca, bom, isto provavelmente conseguirá. Dependendo da situação, o espectador pode ser movido a ponto de doar fundos para a WWF ou para alguma ONG local.

Corta para a Ana Maria Braga. Ela aparece com uma mascote, cachorrinho lindo, daqueles que dão alegria para a família, e que fazem as crianças chorarem por dias quando desaparecem. Fazem parte da família, algumas pessoas até dão sobrenome para eles, tamanha a conexão sentimental. Bichinhos de casa parecem saber o que sentimos, o que já é bem mais do que se pode esperar dos cônjuges de massiva parte da população, e é bem provável que eles realmente saibam. Se não sabem, fingem tão bem que não há diferença.

No mesmo programa, um animal sem nome, fatiado sobre uma tábua, salta para dentro da frigideira do cozinheiro do dia, tsssshhhh, sob o olhar de aprovação da condutora do programa, que observa tudo inspirando a fragrância inspiradora.

Aquele bife foi um bicho, mas ele não tinha nome. Ele não tinha família. Ele não conhecia os sentimentos de nenhum ser humano, pois só havia capatazes ao seu redor. Ninguém chorou quando ele morreu. Ninguém se preocupou por ele ter levado uma existência miserável que seria insultuoso chamar de vida. Ninguém cuidou dele quando ele ficou doente, e a única preocupação da sociedade com ele foi garantir que nenhuma pessoa se preocupasse com o fato de estar consumindo produtos manufaturados cuja matéria-prima são seres vivos sencientes.

Este pode parecer um manifesto vegetariano, o que seria uma percepção equivocada. O que estou focando aqui é a existência de um arcabouço extremamente poderoso, com ramificações ideológicas, financeiras e religiosas, só para citar as três mais influentes, e que nos mantém molengamente presos em nossas cadeiras tais quais os humanos fugitivos na animação Wall-E.

Ocorre-me que os pesadelos previstos na ficção científica sobre regimes totalitários já está instaurada, mas num vetor invertido: não existe um grande irmão a definir as verdades, mas uma grande opinião pública estúpida e plenamente manobrável por interesses difusos das corporações dominantes.

***
Este paradoxo é bem ilustrado, e de forma mais ampla e mais sintética, em um folheto da Sociedade Vegetariana Brasileira. Tenho uma cópia impressa, mas não consegui encontrá-la no site da SVB.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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9 respostas para Bichos Invisíveis

  1. Ana Corina disse:

    Ai, Jesusii, que texto mais mal escrito o meu… tsc tsc tsc, é nisto que dá não reler e sair teclando.
    😉

  2. Ana Corina disse:

    hehehe

    Adilene Adratt :
    Só posso dizer que me dá agonia aqueles cachorrinhos domesticados que ficam pulando nos pés da gente o tempo todo…

    É o que sempre digo, devemos educar nossos amigos peludos para que eles sejam embaixadores de todos os outros. Tem muita gente que não gosta de animais só pq deu o azar de realmente conhecer os deseducados… Mas todos são maravilhosos e não precisam ficar pulando nos pés de ninguém realmente…

    Milene :
    Realmente o natural de um cachorro e gato é comer carne, mas também é natural eles viverem no meio do mato, os cães caçando em conjunto e o gato caçando sozinho. Nós domesticamos, nós alteramos todos os padrões, nós misturamos pra criar as raças, nós permitimos que hoje tenham tantos animais abandonados nas ruas. Então será que também não podemos alterar sua alimentação (e estou falando somente destes que estão domesticados, é claro), desde que eles tenham todos os nutrientes necessários, para reduzirmos uma contradição que certamente já tirou o sono de muita gente? Sinceramente, eu não sei responder. Não sei se é ético, correto, aceitável. Assim como não tenho idéia sobre qual seria o futuro dos mascotes se tentarmos levar uma vida totalmente sem contradição, de acordo com os preceitos que movem cada ser. Complexo.
    Ahh, sobre a Ana Maria Braga, li que hoje o programa dela mostrou um porco de estimação, e ela ainda brincou que é difícil ver um porco tão grande porque geralmente comemos antes. http://tinyurl.com/y4k37zq

    Bote complexo nisso… Mas, infelizmente, não é pq domesticamos cães e gatos que conseguimos mudar suas fisiologias. Até existem relatos de cães sobrevivendo bem com dietas vegetarianas, já gatos é mais complicado ainda…
    Dois textos (in English) sobre o carnivorismo dos felinos:
    http://maxshouse.com/feline_nutrition.htm
    http://petnerships.com/resources/EvolutionaryNutritionCats.pdf

    Uma vez li no site de um vegetariano que ele se arrependeu amargamente de haver seguido sua dieta com seu cão, que morreu em decorrência do fato… E tbém achei em vários sites vegetarianos a defesa de que realmente cães e gatos são carnívoros e paciência…

    Enfim, como já citado, “É complexo”.

    😉

    • Milene disse:

      É, das coisas que li, realmente ainda não existe uma ração que supra todas as necessidades do gato. Pra cachorros já existem várias, mas não sei sobre a qualidade da ração. E eu nunca daria pros meus gatos alguma ração vegetariana (e olha que um dos meus gatos adora alface e brócolis hehe) sem ter a certeza que o alimento forneceria todas as proteínas, todos os nutrientes necessários e que desse conforto ao bichano, que eu não tivesse que enfiar goela abaixo. Talvez no futuro se encontre alguma maneira…mas ainda assim existe uma questão maior a se avaliar, sobre o futuro dos mascotes (um futuro ainda muuuito distante) se tentarmos levar uma vida sem tantas contradições…

  3. Milene disse:

    Acho que as contradições são inerentes ao ser humano e muitas vezes fácil de perceber. O complicado é tomar consciência delas e tentar ajustar diante do padrão de ética aceito por cada um. Há uma tentativa de amenização e legitimação dos atos que nós criticamos nos outros mas produzimos diariamente, tipo “qual o problema em fazer um gato da tv a cabo se o político ladrão rouba milhões do meu bolso?”
    É como se ele tivesse o direito de roubar só um pouquinho, pra sentir-se menos desprivilegiado. Buscar legitimação no passado também é bastante utilizado: O homem sempre comeu carne, é natural. Há vários relatos de que os primeiros hominídeos se alimentavam de frutas, nozes e sementes, mas considerando que eles realmente sempre comeram carne, na minha opinião isso não serviria como argumento para se criar uma verdade absoluta e duradoura. Tudo muda, se não ainda estaríamos vivendo em cavernas e caçando pra comer (difícil é avaliar se a mudança é positiva ou negativa). Hoje tudo é mais cômodo, compramos nosso alimento no supermercado.
    Sobre a alimentação dos mascotes, realmente é um assunto bem polêmico, como tudo que envolve essas questões éticas. Realmente o natural de um cachorro e gato é comer carne, mas também é natural eles viverem no meio do mato, os cães caçando em conjunto e o gato caçando sozinho. Nós domesticamos, nós alteramos todos os padrões, nós misturamos pra criar as raças, nós permitimos que hoje tenham tantos animais abandonados nas ruas. Então será que também não podemos alterar sua alimentação (e estou falando somente destes que estão domesticados, é claro), desde que eles tenham todos os nutrientes necessários, para reduzirmos uma contradição que certamente já tirou o sono de muita gente? Sinceramente, eu não sei responder. Não sei se é ético, correto, aceitável. Assim como não tenho idéia sobre qual seria o futuro dos mascotes se tentarmos levar uma vida totalmente sem contradição, de acordo com os preceitos que movem cada ser. Complexo.

    Ahh, sobre a Ana Maria Braga, li que hoje o programa dela mostrou um porco de estimação, e ela ainda brincou que é difícil ver um porco tão grande porque geralmente comemos antes. http://tinyurl.com/y4k37zq

  4. Nesse assunto de animais ainda não atingi o ponto de ter uma opinião. Só posso dizer que me dá agonia aqueles cachorrinhos domesticados que ficam pulando nos pés da gente o tempo todo…

  5. Ana Corina disse:

    Oie, bota a licença do CC mesmo, acho que qdo a educação e a ética não prevalecem, não custa lembrarmos aos parasitas que estão sendo desonestos. Vão continuar xupinhando, mas vai ficar mais feio ainda pra cara deles.

    Sobre ‘mascotes corretamente alimentados’ a verdade é que um carnívoro é um carnívoro e ponto. Nós podemos ser vegetarianos, eles não.

    😉

  6. gilvas disse:

    texto liberado para publicação com créditos. aliás, tenho de colocar um daqueles selos creative commons.

    é de se esperar que gringos “reciclem” gatos e cachorros para fazer ração para, ops, gatos e cachorros. afinal, eles faziam isso com vacas, e deu tão certo (sic).

    os nossos animais são carnívoros, e não temos ainda uma forma muito eficaz de perceber efeitos de uma mudança na dieta. sobre nós, é mais simples: sentimos os efeitos, e os comunicamos, apesar da cortina midiática de que fala o meu texto. vai levar um tempo, mas acho que logo teremos mascotes corretamente alimentados.

  7. Ana Corina disse:

    1) se quiser que eu digitalize o folheto é só dizer
    2) complicado é ser vegetariano/vegano e ter carnívoros sob seus cuidados, né?
    3) sabias que nos EUA e no Canadá carcaças de cães e gatos abatidos em abrigos e prefeituras são vendidas para fábricas de rações de… cães e gatos!? (e de outros animais também, claro)

    Na minha cabeça, ainda há um nó.

  8. Ana Corina disse:

    “Bichinhos de casa parecem saber o que sentimos, o que já é bem mais do que se pode esperar dos cônjuges de massiva parte da população, e é bem provável que eles realmente saibam. Se não sabem, fingem tão bem que não há diferença.”

    hahahaha

    Posso publicar parte do texto no Mãe de Cachorro?

    😉

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