Não Cola

A cavalgada da sociedade rumo à extinção conceitual é um destino claro mesmo ao vidente mais zureta, e os sinais estão em todos os lados, a ponto de eu sentir que transito dentro de um daqueles filmecos gringos super-explicados de mistério policial.

Aplicar adesivos em veículos automotores é uma prática típica do poseur, algo que vai além das clássicas camisetas pretas de monstro para os adolescentes cabeludos ou as tatuagens de quem não tem nada para dizer.

Tenho, inclusive, uma teoria para outro tipo de poseur, o vizinho do som absurdamente alto. Como a maior parte da sociedade, este indivíduo não consegue determinar parâmetros para ter a certeza de que está se divertindo. Assim, ele vai direto ao cerne sociológico da questão, que trata não de divertir-se, mas sim de parecer que está se divertindo. Em suma, coloque música, não importa o quão ruim, bem alta, e sua vizinhança pode até te odiar, mas vai te olhar com aquela invejinha classe-média pronta para fuzilar, com o olhar, qualquer um que esteja se divertindo.

A classe média, por outro lado, prefere uma postura poseur mais reservada, e cola adesivos em seus carros médios. É uma prática salutar por um lado, dado que permite reconhecer seu carro genérico e sem graça em meio àquele burburinho louco do estacionamento do Iguatemi. Por outro, que medo de deixar algum bandido saber mais sobre mim pelos adesivos que tenho no meu carro.

A moda muda, sabemos, e já foi de nomes analfabeticamente funcionais a declarações absolutamente óbvias, passando por aqueles hibiscos patéticos de dois pares de anos atrás. Entretanto, “mudar” não implica em “melhorar”, e, como diz alguma citação de alguém que pode me informar a origem caso leia isto, no mais das vezes, piora. E como piora. Agora são bonequinhos idealizados.

Casalzinho de namorado com coração no meio. Família de pai, mãe e dois bacuris de gravatinha. Converso que guardo uma tímida simpatia quando tem um bicho no meio da história, mas pode ser um bicho daqueles comprados em xópis ou a prática pode aumentar, e acabaremos tendo adesivos com famílias mais complexas ou até mesmo bizarras, contendo iguanas, papagaios, ou a jararaca da sogra.

Quando vejo um desses adesivos no trânsito, chego a sentir uma certa ansiedade, e olho para o céu procurando pela janela de entrada do asteróide que vai purgar este planeta da patuléia ignara que o contamina.

***

Mais mau-humor envolvendo adesivos? Não passe vontade: aqui e aqui!

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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10 respostas para Não Cola

  1. osmar disse:

    patuleia ignara… mais uma expressão rabugento-revoltada pra me referir ao zé-povim que escuta músicas escrotas no trem/metrô sem fone de ouvido!!! ô, cambada!!!

  2. Jones disse:

    “a prática pode aumentar, e acabaremos tendo adesivos com famílias mais complexas ou até mesmo bizarras, contendo iguanas, papagaios, ou a jararaca da sogra.”

    Gilvas, tas por fora!!!
    Já existem vários bichos, inclusive os Iguanas citados.

    Uma amiga minha aqui de Londrina, tem uma boneca ao centro (que creio ser sua representação) vários sapos ao redor junto à interrogações (que creio serem os futuros príncipes encantados).

    Dentre os bixos diferentes mais comuns estão as tartaruguinhas (cágados, que sejE) e os papagaios e piriquitos.

    Iguana eu só vi uma vez.

    Sugestão praquele camarada de Floripa que tem um Triciclo e carrega seu iguana a tiracolo…

    Quanto ao preconceito (ou próconceito), na minha modesta opinião, cada um gruda o que quisar no seu possante!

    Ao caso do bandido preferir este ou aquele carro, em função dos adesivos, acho pura Lenda Urbana. Já foi dito o mesmo das que grudavam Penélopes charmosas, gatinahs eflores. Nenhuma estatística de furto ou roubo se montou com aquilo.

    ‘braço.

    • Jones disse:

      hummm

      Mania de digitar e postar antes de revisar….
      Erro de typo e de concordância bombando.

      Terns algum texto rabugento sobre quem posta antes de revisar também?

      hehehe

  3. André HP disse:

    “(…)Assim, ele vai direto ao cerne sociológico da questão, que trata não de divertir-se, mas sim de parecer que está se divertindo(…)”
    HAHAHAHAHAAHAH… adorei isso.

  4. Me lembro da época em que os adolescentes colavam trocentos adesivos na janela de vidro do quarto… sempre achei que poderia ser uma aversão ao sol, quem sabe…

  5. Jux disse:

    Minha irmã-fofa-caçula estava aqui na semana passada, a me visitar (é aquela cousa: é chatooo morar onde os outros passam férias hehehehe).

    E, moça independente, inteligente e motorizada que é, carregou a leve-pseudo escriba para diversos lugares. Coincidências astrais a parte, filosofamos muito acerca do rídiculo que envolve tais adesivos na bunda dos possantes que, tal qual toi et moi, acha tais manifestações deveras estúpidas (o que são aquelas frôrzinhas sem-noção??? e os tal “fulaninha a bordo, ciclaninho a bordo”) Diabos!.

    Ela mesma tem uma filha e NUNCA PÔS TAL COISA NO CARRO (ainda que o EX-catiço quisesse ter concretizado tal desatino, mas muié-macho que é, deu a última palavra: NÃO!)

    Ainda rimos e bolamos o seguinte: que sim, talvez ela colocasse os tais adesivos-familiares, mas seria algo bem chocantemente modernoso: uma mulherzinha, dois carinhas e uns 20 remelentinhos. Ou dois hominhos e umas criancinhas, periquitos, jacarés.
    Ou somente os bichos. Anyway.

    Mas, pelo bem estar da lata do Bonitão dela, melhor manter único um adesivo no vidro do carro – 91ROCK. RÁ!

    Beijukkkkaaaa

  6. mafra disse:

    o que mais me incomoda, na verdade, são os adesivos religiosos. esses sim. mas ok, cada um com sua fonte de mau humor…

    • gilvas disse:

      mafra: como eu pude deixar de fora aqueles peixes e aquelas nossas-senhoras de contas? cáspite! obrigado por me lembrar disso.

      milene: vinte e dois marmanjos e uma bola? como podes? contradição deveria ter limites! 🙂

      • Milene disse:

        O que eu posso fazer se meu pai insistiu em me educar como se eu fosse um guri? Eu jogava bola com os meninos quando era pequena hehe.
        Tenho que colocar a culpa em alguém né? 🙂

  7. Milene disse:

    Permita-me dizer que geralmente eu me divirto com teu mau-humor rsrs. Eu sempre digo que esses carros de hoje são tão sem personalidade (e eu sou uma ignorante nesse assunto, pra mim são todos iguais), por isso gosto tanto dos fusquinhas. Os fuscas são simpáticos!
    Aqui em casa temos um desses genéricos, que eu não dirijo porque tenho medo do trânsito, que eu fiz questão de colocar um adesivo do meu time (amo futebol). Por quê? Talvez pelo mesmo motivo que me fez pagar por uma camiseta do time em questão hehe. Aquele amor meio incoerente que move o futebol e toda sua palhaçada. Essas contradições que sempre acabam aparecendo, sabes como é…
    Abraço!

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