Cinema em Casa FC

Inventaram poucas coisas tão apropriadas a uma tarde chuvosa de sábado tão apropriadas quanto uma boa sessão de cinema no aconchego do lar. Ou pelo menos nada que possa ser descrito neste espaço de família.

Soube da existência de O Homem que Veio da Terra através do IMDB, quando fui atrás de uma chamada sobre filmes atuais de ficção científica. A descrição não era das mais acuradas, mas o p2p te deixa uma pessoa menos tímida, e logo eu tinha uma cópia para rodar no meu aparelho de DVD.

O orçamento do filme deve ter sido ridículo, algo na casa dos milhares de dólares, e não percebi nenhum efeito especial. Confesso que quase adernei em algumas seqüências mais longas, mas os diálogos conseguem manter o interesse vivo na maior parte do tempo, algo admirável em tempos de roteiros fracos e diálogos bobos.

A premissa do filme é muito semelhante à de outros filmes de FC, baseando-se em um imortal. Tome Highlander como referência, mas siga para o lado oposto. Highlander é sobre mitologia, quanto O Homem que Veio da Terra é sobre indagações científicas.

Durante os noventa minutos de filme o espectador é levado a pensar em diversos aspectos triviais que desmontam sua percepção do homem como um ser absoluto, ou de sua experiência como total. Um homem que caminhou quatorze séculos sobre a Terra não tem muito para dizer além do que um acadêmico médio com vida social saudável diria, se pudéssemos encontrá-lo.

Num filme fortemente calcado em diálogos, usar atores desconhecidos é uma opção feliz, pois não há polarização por rostos famosos. Por outro lado, o diretor perde a mão em diversos momentos, e apenas a boa vontade do espectador sustenta a verossimilhança. Não ajuda muito a fotografia burocrática: luzes mais dramáticas dariam mais substância ao filme, que tem um pouco daquela cara asséptica de filmagem para curso de línguas.

Existe a óbvia e dolorosa sensação de perda ao redor do espécime, que vai deixando para trás velhos e carcaças dos seres que amava. Existem perguntas aos borbotões, e os personagens do filme sabem fazer diversas delas, e as respostas só servem para nos intrigar mais ainda. O Homem que Veio da Terra é uma diversão criativa, que encherá sua cabeça de caraminholas salutares, principalmente se você perdoar as patuscadas de andar sobre as águas e arredores.

Serenity possui uma capa tremendamente infeliz. Já havia topado com ela nos sebos por aí, e sempre o desprezei por parecer alguma daquelas lamentáveis adaptações cinematográficas de jogos eletrônicos. Sou um velho rabugento, e, no meu tempo, filmes é que davam origem a jogos, e não o contrário. Pode parecer nostalgia, mas não é. Acredite.

Entretanto, Serenity é escrito e dirigido por Joss Whedon, responsável por uma das fases mais grotescamente divertidas dos X-Men nos dez últimos anos. Ele teve as manhas de ressuscitar Colossus, um dos meus mutantes prediletos, e retomar uma magia que eu presumia ter se perdido lá pelos mil-novecentos-e-john-byrne. Seu conhecimento dos personagens é exemplar, e suas novas adições à mitologia são fantásticas. A saga toda valeria apenas pela interação sarcástico-romântica entre o Fera e a agente da Espada. Folguei em ver o Fera longe daqueles romances requentados com a jornalista indecisa. E as seqüências de ação são nababescas, uma mentirada adrenada ao limite.

Bom, voltemos ao filme: as personagens são interessantes, e a trama não é boba. Entretanto, em pelo menos cinco momentos eu sabia exatamente o que iria acontecer e o que algum personagem ia falar. Exemplo: quando a nave pousa no centro de transmissão, e as lanças dos Arrancadores começam a voar, é óbvio que o piloto milagroso e bem casado vai bater as botas.

Outra coisa que me incomoda terrivelmente são os efeitos calcados em CGI. Como eu disse uns dias atrás, daqui a alguns anos as pessoas verão como o visual destes filmes envelhecerá mal, e como ficarão cafoníssimos.

Antes que você desista, porém, eu digo que o roteiro te prende na poltrona. O mistério sobre a menina paranormal e sobre Miranda alimentam a trama com folga. O executor da Aliança tem um fator psicótico extremamente apropriado a um vilão moderno, e o capitão é um canastrão absolutamente contemporâneo. As cenas de ação são convincentes e, quando tu menos espera, já está na hora de pegar outro saco de Doritos, e você nem está se sentindo idiota.

Tenho os episódios da série por ver, e devo me divertir. Divirta-se também.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Cinema em Casa FC

  1. Pingback: Cha-cha-chá « sinestesia

  2. Milene disse:

    Fiquei com vontade de ver o primeiro…

  3. Pingback: Trackback

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