A Sina do Camellia Sinensis

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Enquanto a alvorada da existência não se anuncia, cabe ao indivíduo pedante e rabugento otimizar seus hábitos, prática que pode levar a um ponto em que se poderia fundar uma religião de uma pessoa só, contendo tal arcabouço de rituais que um desavisado poderia crer estar diante de um culto genuíno.

É certo que a realidade não anda muito distante disso, exceto pela obscuridade funcional que os séculos emprestam aos cultos estabelecidos até o final do século XIX. Depois disso, eles passaram a legitimizar-se em décadas, chegando ao ponto atual, em que jogadores de futebol catalisam o processo, e temos religiões consideravelmente sólidas em semanas.

<pausa para desligar o motor de sarcasmo>

A proposta inicial de hoje era focar no chá verde, assunto de que tratei, por outro viés, algum tempo atrás, e envolvendo inocentes como Guilherme Arantes e Ivan Lins. Prossigamos.

O rabugento em questão, o que vos escreve, tem alguns rituais associados ao chá. Primeiro, há uma alternância de chá verde com chá torrado. Compro sempre Yamamotoyama, e tive de buscar o nome no Google, ou teria perdido a sílaba “mo”. Com a minha sorte, sem esta sílaba o nome passaria a significar algo grotesco, do tipo “a mulher do santo imperador fez nheco-nheco com o dragão de sete asas sob a lua de setembro“, quando é, na verdade, o sobrenome do fundador da empresa.

Em minhas caminhadas pela Liberdade, já tive minha fase de comprar todos os chás possíveis, tudo com intuito de pesquisa. Comprei chás que pareciam mais a varredura do chão de um barbaquá, cheios de tocos e fragmentos não identificáveis. Em outras ocasiões, dispendi fundos adquirindo pacotes de chá com flores, e o resultado, quando frio, era tenebroso: parecia água de vaso de flores em cemitério.

No final das contas, acabei focando no Yamamotoyama mesmo, alternando os tipos. Esta oscilação tem, considero, um paralelo com a mudança das estações, ainda que não haja sincronismo; é como se as estações do chá discorressem em paralelo às da translação da Terra em torno do Sol. Existe algo de haikai aí, se me permitem a disgressão.

O chá torrado é o mais fácil. Coloque a água para esquentar, e ande pela casa até ouvi-la começar a ferver. Jogue o chá lá dentro, aguarde algum tempo. Esqueceu de desligar a água? Sem problema. Demorou para coar o chá? Sem problema. O máximo que vai acontecer é o chá ficar mais ou menos escuro conforme o tempo de mergulho e a temperatura da água.

Agora nem experimente fazer isso com o chá verde. Este retém em suas folhinhas enroladas um tiquinho da vida que ele experimentava nos arbustos das colinas de onde veio. Se for tratado rudemente, o chá verde reagirá como se em suas folhas se escondessem, metaforicamente, pequenos gambás revoltados, prontos a empestear sua bebida com um amargor adstringente.

Preparar o chá verde exige um pouco de paciência. A água deve ser acompanhada até a temperatura correta. Há quem use de cacarecos tecnológicos para isto, mas eu me contento em estimar a temperatura da água usando as pontas dos dedos; costuma funcionar bem, e é melhor quando estou com as mãos limpas, claro.

O tempo de imersão deve ser observado: tempo de menos te entregará água quente, e tempo demais vai te torcer os dentes quando tomares o resultado. Novamente a metáfora se apresenta: o chá verde ensina o caminho do meio, de forma sutil e acessível, e as lições podem ser reforçadas diariamente.

***
Enquanto buscava por endereços no sinestesia, dei de cara com um dos meus esforços iniciais em haikai, e acho que tu podes gostar dele.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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9 respostas para A Sina do Camellia Sinensis

  1. Martha disse:

    Ótimo texto. Gosto muito de chás, exceto os de frutas… Ultimamente só tenho bebido um chimarrãozinho Canárias, mesmo. E fico tremendo depois.

  2. blogdoturnes disse:

    Esse negócio de chá não é pra quando a gente tá doente não?

  3. Milene disse:

    Estes dias eu vi um documentário que falava sobre a camelia sinensis e os processos para transformar em chá verde, branco e outros mais. Notei a complexidade e entendi porque eu achava chá verde tão amargo (ou com pequenos gambás revoltados hehe). Meu marido é viciadinho no branco e no verde, mas eu nunca consegui fazer um que ficasse saboroso…por isso prefiro continuar com os doces chás de flores e frutas.

  4. marcelo de almeida disse:

    Existe cha de maconha?

  5. Christian disse:

    Devo ter percorrido trajetória parecida com a sua. Meu favorito (inclusive pelo preço-benefício) é o bancha Yamamotoyama. O verde da mesma marca me pareceu um pouco azedo, talvez eu tenha errado a mão em alguns momentos. A versão torrada me agrada muito e o tomo aos galões.

    Das marcas consagradas, já saindo dos orientais, este é meu favorito. Não costumo simpatizar com misturebas, tampouco tomo chá para um determinado fim — mas esse aí é bom e muito saboroso. Meio caro, se comparado com o japonês a granel, mas vale a pena em especial para quem, como eu, gosta de hortelã.

    • gilvas disse:

      então: a parada do verde é a temperatura certa, e poucas pessoas acertam, tanto que nunca aceito chá verde que me oferecem em casas de sushi: quase sempre está passado do ponto.

      eu já ganhei uma caixa do celestial seasonings, mas acho que era de outro “sabor”. hortelã é o que há, tanto que eu mantenho um vaso dela aqui no apartamento, e tenho chá fresco a partir dela.

      chá de cânhamo existe, mas não contém thc nas versões que eu encontrei na internet. aqui no sul o que se vê bastante é o chá de coca, feito com as folhas. eu já tomei deste último, mas não percebi nenhum efeito diferente daquele que se espera de um bom chá.

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