Dois Discos com Um Filme No Meio

Estou no clima para falar de coisas que envolvem um bom sofá e uma manta aconchegante. Ou qualquer combinação dos substantivos e adjetivos na frase anterior. E filmes adequados à situação, é claro.

Seguindo dicas internáuticas, cheguei a Quinhentos Dias Sem Ela, vendido como uma espécie de manifesto para nerds perdedores que amam Smiths. Ao menos tem Smiths, eu pensei, e fui lá exercitar as facilidades da rede mundial.

500 dias sem ela, logo de cara, merece ser adjetivado como “bem-cuidado”. A abertura é primorosa. Regina Spektor canta uma canção perfeita para o momento, e você se sente em segurança: não será tratado como um idiota, e a vida será bela de tão doída.

Eu fui enganado no passado por este mesmo estratagema. Não é agradável, mas deixei-me levar. Minha convicção quase vazou quando, logo de cara, o protagonista está quebrando pratos e precisa ser salvo por sua irmã, mas um pouco de goiabice pode diminuir as expectativas de modo saudável.

Sinopse: Tom é um escritor de cartões comemorativos, um goiaba que vive cercado por outros goiabas, boa parte deles emocionalmente imaturos. Esta imensa zona de conforto é abalada quando Summer, uma encrenca encimada por dois sobrenaturais olhos azuis, está de passagem por ali. Summer gosta de descobrir que Tom está interessado por ela, e resolve cair dentro. Obviamente a balança é desigual, e o rapaz vai se ferrar muito bem quando a vaca resolver deixar o barco.

São quinhentos dias entre ele conhecer a moça e finalmente se livrar dela. Marc Webb, veterano dos clipes, tem a mão correta para este tipo de empreitada: os trechos não-lineares do romance, contado a partir da perspectiva confessional de Tom, contam com recursos extremamente criativos.

Quinhentos Dias Com Ela é um filme de roteiro previsível: nem mesmo o fato de Tom se ferrar é uma surpresa. Trata-se de um filme fiel a seu tempo, e já sabemos que ele se ferrou de cara, logo na segunda ou terceira cena. O que mais poderíamos esperar de Tom?

Marc Webb, entretanto, sabe como contar uma história. Ele usa o recurso da citação cinematográfica em mais de um momento, e o faz com carinho e parcimônia, nunca de forma gratuita, nunca se aproveitando da citação para apoiar-se. Seus recursos vão além disso.

Summer é Zooey Deschanel, musa indie da temporada, que eu conheci como a colega de quarto de Sarah Jessica Parker em Failure To Launch, comédia romântica quase boa de Matthew McConaughey. Aqui ela quase repete o papel, algo apropriado a sua beleza de tons esquisitos.

E ela gravou um disco.

uma espécie de malu magalhães gringa

Sentimental Heart é um jeito ruim de começar um disco: Zooey não tem toda a voz que a canção pede, e fica caindo para o lado de lá do desafino de um jeito que teria graça se estivesse acontecendo com aquela menina meio esquisita e linda que você acabou de descobrir. Já na segunda faixa o produtor se liga, e dobra a voz da menina no estúdio. O truque é baixo, digno de filhas de cantor sertanejo brasileiro, mas quando é indie quem faz, beleza.

Volume One começaria melhor com This Is Not a Test, mas Martha Wainwright se viraria melhor com esta canção, ou lhe daria o que ela realmente precisa: uma ponte decente para entrar e sair do refrão. Apesar do pequeno defeito, This Is Not a Test avacalha legal com o restante do repertório, que soa meio burocrático.

Logo seguida ela jura de pés juntos que é a Madeleine Peyroux, mas ser aquela maluca não é para qualquer uma. O clima de revival em I Made For You não funciona, e só indies mocorongos vão se agradar de ouvir uma versão de I Should Have Known Better, que foi aportuguesada no século passado como Menina Linda, aquela em que o marmanjo arranca a boneca da menina, e manda um papo que hoje daria cadeia.

Neste momento você está cheio de ouvir guitarrinha havaiana, e pensa que poderia estar assistindo Lilo & Stitch. Quer saber? Beleza de momento para botar Far, novo disco de Regina Spektor que está no comecinho de Quinhentos Dias Com Ela.

aloprada é pouco

A moça regravou, faz uns dias, No Surprises, do Radiohead, conseguindo o feito de criar uma versão bem interessante. O disco entrou em alta rotação aqui em casa. Spektor encontrou um meio-termo saudável entre as facilidades um tanto descartáveis dos primeiros registros e a crueza aloprada de Mary Ann Meets The Gravediggers and Other Stories.

Os compactos até agora contam a história. Eet traz Spektor com seu piano criativo e seus volteios vocais personalíssimos em uma canção que respira um Cure em sépia. Laughing With tem uma letra tocante com melodias do mesmo naipe, e ela anda encatadora entre os efeitos digitais do clipe simples. Como a canção. E funcional. Dá até vontade de rir com aquele deus dela, repleto de ecos daquele deus que povoa Blasphemous Rumours, velha canção do Depeche Mode.

Machine parece ter vindo de Mary Ann, e você vai se apaixonar por Wallet, uma crônica urbana sensível e inteligente sobre uma, uhm, carteira. Genius Next Door também te coloca para pensar em como a vida se desenvolve pelas esquinas quietas.

Spektor não perdeu seu humor, e ele transborda de forma mais clara em Dance Anthem of The 80s. Não se trata de uma piada, apesar do título, então ela pode ser escutada vezes e vezes sem cansar.  Como o disco inteiro. Eu poderia fazer uma lista enorme de razões para te convencer a ouvir Far, tenha certeza, mas você só precisa de uma única audição para me entender, vai por mim.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Gringo, Música e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Dois Discos com Um Filme No Meio

  1. marcelo de almeida disse:

    Agora sim as ferias começaram de verdade !! E neguinho ainda quer que eu preste atençao em “Romulo Froes ” E seus amigos de sao paulo , daquele bairro que voce conhece muito bem !! A vila madalena . Obrigado velhao os textos ficaram a altura de vitor ramil , Vou imprimir e levar pro boteco e tomar uma . E ao sair deixarei os textos na mesa , para todos terem acesso . Se bem que algum imbecil vai me gritar dizendo que estou esquecendo alguma coisa ……….. Af……… Abraços..

  2. marcelo de almeida disse:

    Valeu !! velhão , agora sim as ferias começaram de verdade!!Porra e ainda neguinho quer que eu de atençao a “Romulo Froes e cia limitada , aquele povo que voce conhece bem la de sao paulo , sabe da vila madalena . Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

  3. Turnes disse:

    Eu vi.
    É mesmo bem contado. Mas eu não acredito em comédia romântica, acho que o amor é ontogeneticamente trágico.
    Zooey é muito cool, só falta aprender a atuar. Do ar blasé à cara de tonga é um pulo sacumé….Pelo menos não é supervalorizada tipo a Scarlet Johanson, que é linbda e faz file do Woody Allen, mas basta entrar um penélope cruz em cena pra morrer afogada em sua própria inexpressividade…mas pra quê que eu tô escrevendo isso? ai que azedo que eu tô, desculpa…

  4. Milene disse:

    Vou ouvir Far pra ver se mudo minha opinião sobre Regina Spektor. Até hoje só ouvi o álbum Soviet Kitsch, e só consegui ouvir 2 vezes antes de sentir aversão e esquecê-lo na pasta de músicas.
    Aquela repetição interminável de frases e palavras afetam meu bom humor. Tem algo que me lembra a Fiona Apple, ela usa alguns elementos parecidos, mas que com a Fiona fica ótimo e com ela fica…irritante e monótono.
    Até tem umas coisas que achei interessante, mas de forma geral meu primeiro contato com ela não foi muito agradável.

  5. marcelo de almeida disse:

    “Vem nada nos prende vamos sumir sumnir ……. ” Fale tambem da Banda que acompanha o cara sao muito bons .

  6. marcelo de almeida disse:

    Por onde anda nosso amigo VITOR RAMIL? Clica algo do cara ae meu velho !

    • gilvas disse:

      nada tema, amiguinho: encomendei disco novo do cara na semana passada, deve estar chegando em breve lá em casa. pelo número de milongas, parece que teremos um disco climático e lento. minhas impressões serão afixadas assim que eu as tiver estabilizadas na cachola.

      ah, olha o vitor véio nos post passados: https://gilvas.wordpress.com/?s=vitor+ramil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s