Tim Burton: Alice

Alguém deve ter dito que toda Alice tem dois lados, e provavelmente é mentira: ninguém deve ter dito e nem toda Alice tem dois lados. Ou talvez apenas a minha Alice tenha dois lados.

Lado A

Sábado em Canoinhas era um dia como qualquer outro. Não lembro das manhãs serem muito diferentes, exceto pelas cigarras e por haver grama a cortar.

Das tardes, lembrei ontem que havia um programa na Globo, Disneylândia. Começava às quatro e pouco para acabar pouco antes da novela das seis. Eu era um garoto de oito anos que odiava quando a Disneylândia tinha um filme com pessoas de verdade: se não fosse uma animação, logo voltava para o quintal para brincar com a cachorrada.

Se eu tivesse visto a Alice atual, mesmo sem o recurso de 3D, teria babado horrores. Ontem mesmo eu babei. Os detalhes são excelentes, os pêlos dos animais se movem de forma quase realística, Alice cresce e diminui e cresce e diminui sem que sejam necessários truncagens e outros truques baixos, como esta aliteração. O gato se desfaz em uma névoa que só falta ter odor. O gato volta como se o vapor tomasse vida. As xícaras da Lebre de Março fizeram mais de um espectador se desviar.

O design das personagens é cuidadoso, e cada detalhe, mesmo que horroroso, se torna digno de apreciação. Alice caminha por alamedas, e Burton acertou na escolha da menina de nome meio russo. Em diversos momentos o próprio captor de imagens parece parar um pouco de seguir o roteiro apenas para deixar algum fundo sublime fixar-se um pouco mais em nossas retinas deliciadas.

E, pasmem, ninguém canta. Em nenhum momento. Alívio para quem odiou Noiva Cadáver.

A Lebre de Março é um caso à parte: era só aparecer em tela, e a hilariedade se espalhava pela sala de projeção como uma doença altamente contagiosa. Excelente animação, excelentes tiradas, usadas na medida.

Lado B

Este filme não é um projeto do Tim Burton, diretor de obras extremamente pessoais, como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça ou Peixe Grande. Este filme é da Disney, que chamou Tim Burton para filmar. E parece que ele não quer repetir a dose.

Estava mesmo estranho um filme de Burton mostrar uma protagonista que se dá tão bem com o seu pai. Pais maravilhosos agora mortos têm muito mais a ver com a filmografia Disney. Fixe Crônicas de Nárnia como referência, e terás uma excelente base de similaridade.

A Disney fez uma versão em desenho animado de Alice no País das Maravilhas. Esta nova versão, apesar do equívoco do abobalhado título na versão brasileira, é uma mescla de elementos dos dois livros, No País das Maravilhas e Através do Espelho.

No caso do desenho animado, havia uma correlação entre livro e película, e havia também como traçar diferenças. Nesta versão 2010, pouco restou. Alice é uma jovem agora, vivendo no ápice e na decadência da aristocracia britânica. O caminho trilhado dentro do mundo na toca do coelho é o caminho do herói, fórmula desvelada inicialmente pelos gregos na Odisséia. A Alice da Disney perdeu seu encanto, seu trocadilho para grandeza, e deve buscá-lo em uma série de acontecimentos que remetem a parábolas.

O enfoque psicanalista pode ser confundido, por alguns, com as metáforas que jorram dos livros de Carroll, e nada estaria mais errado. O Burton disneyficado pinça os elementos dos livros para atender a esta caminhada por trilhos tão marcados e também se aproveita dos visuais que as criativas criaturas de Carroll permitem. Neste aspecto, eu diria que Guillermo Del Toro seria mais apropriado para filmar Alice; senti falta de suas criaturas tenebrosas.

Retomando o paralelo com Nárnia, é tudo muito óbvio: Alice escapa para dentro de uma toca de coelho, enquanto o escapismo dos meninos é pelo armário. Ambos fogem de situações impossíveis de aceitar. O mundo de fantasia lhes ensina, fazendo-os experimentar batismos de fogo que a sociedade vitoriana abafou.

Em livro, ambas as Alices se privam dessas motivações tão triviais. O motivo do herói mítico está presente, sem dúvida, mas é apenas uma das camadas na intrincada tapeçaria de Carroll. Os diálogos geniais são pouco aproveitados, talvez com medo de perder a rarefeita atenção do espectador típico da Disney.

Existe uma vontade imensa de sublinhar certas conexões que eram apenas tênues nos livros. Alice poderia ter alguma projeção psicológica na figura do Chapeleiro Maluco, mas daí a pressupor uma atração física entre os dois é esquecer do personagem e mergulhar em Johnny “Sexy Boy” Depp.

Em outra passagem, durante o goiabíssimo e implausível desfecho, Alice se recolhe subitamente com o antigo sócio do pai, que lhe cede financiamento para um empreendimento arrojado. Talvez eu seja doente, mas aquela cena sugere que o sócio do pai tinha mais do que simples admiração pelo gênio empreendedor da moça. Ficou muito esquisito.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Tim Burton: Alice

  1. Gostei do filme, vi no 3D. Em alguns breves momentos me senti um pouco cansada, desejando ter a possibilidade de dar um avanço no filme. Talvez eu já sentisse que a melhor parte para mim viria no final. A Alice sozinha, amadurecida, querendo descobrir o mundo lá fora depois de ter descoberto o mundo dentro de si mesma… Essa foi a “minha” metáfora…

  2. marthadias disse:

    Ninguém canta? Essa informação é importantíssima, Sr. Gilvas! agora me animei pra ir ao cinema!

    • gilvas disse:

      e aproveite para ir logo, pois a sala estava relativamente vazia, pude comprar ingressos logo antes da sessão, e ainda achei lugares bem decentes. isto significa que logo tiram o filme de cartaz.

      em tempo: a sala do floripa é superior à do iguatemi.

  3. Daniel Varga disse:

    Assista a esse vídeo. Excelente banda de São Luís – MA. Vale a pena! Chaparral – Eutanásia (Vídeo Promo) – http://www.youtube.com/watch?v=TTIJIG7myNg
    Faça um post sobre a banda e concorra a premios.

  4. Jux disse:

    minha irmã e o amigo dela assistiram… e não curtiram (ok, exceto os efeitos tão bem descritos por teus pra-la-de-balzaquianos-olhos).
    Nao deram maiores detalhes, mas… well… acho que vou esperar cair nas locadoras 😛
    Enquanto isso, numa rua qualquer de Patópolis, uma guria-sem-noção ficou toda sorriso para um desconhecido-que-ela-supõs-conhecer que caminhava em sentido contrário ao dela… o moço se assustou.
    Bah! E não é que ele usava suiças?
    😛
    Beijukka

  5. Turnes disse:

    Gilvas,
    Tive impressões muito parecidas com as suas. Tirando o que é Tim Burton ( a saber, a visualidade delirante e a preciosidade da construção das personagens, ao mesmo tempo lunáricas e doces, o tipo de papel que Depp executa com perfeição), o filme soa mais Disney, com essa Alice que mata dragão, cresce e vira capitalista. Colocaria a culpa pelo desânimo geral no roteiro pouco original e bélico…pena que no caso a história é a alma do filme e a direção parece apenas embelezá-la.

    • gilvas disse:

      melancólico turnes.

      eu pensava nesta alice matadora de dragões e em toda a funcionalidade direcionada que guia sua história enquanto eu ia tirando as telas contra mosquitos aqui das janelas do meu moquifo no itacorubi ii. está frio lá fora, o tipo que me faz pensar em alice em círculos.

      abraço.

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