Sem Olhos Em Casa

não sei o que é, só achei interessante e bonito.

Apesar de ser um engenheiro eletricista, resolvi seguir meu juramento de formatura, que fala, em alguma parte soterrada pela choradeiras das avós e das mães, que o formando não se deixaria cegar pelo brilho excessivo da tecnologia e blablablá. Acredito sinceramente que um engenheiro deva, justamente por entender de tecnologia, manter-se homeopaticamente à distância segura dela.

Dito isso, um leitor incauto presumirá que tenho (a) um celular muito simples e que também é velho, que (b) uso um computador de mesa em casa, que (c) assisto filmes na televisão de tubo e que (d) não faço parte do mercado de gadgets, este universo de geeks brochas que a Info propagandeia mensalmente. E seria verdade.

Em alguma etapa da minha vida pregressa eu decidi que uma existência em P&B seria bem mais interessante, e me faria conviver com pessoas mais legais. Não tenho lá muita certeza de que isto seja verdade, mas prefiro pensar que os descaminhos de minha adolescência não tenham sido totalmente em vão.

Neste universo de cinema francês captado por lentes sessentistas, eu sou cronista da vida urbana, uma espécie de Lloyd Cole mais discreto e que canta apenas quando bebe. A crônica urbana, nos filmes pedantes da terra do baguete, surge apenas quando o sujeito está de cachecol, em um quase terno existencialista, e de óculos atemporalmente ultrapassados.

Meu estereótipo, entretanto, remete antes ao suburbano oitentista, que é o que se consegue aqui pelo Itacorubi. Ajudava, num conhecido clube da região, uma senhora a colocar a antena quebrada sobre o aparelho receptor de televisão, o que resultou em uma imagem bem ruim do noticiário matinal que, felizmente, estava sem som.

Ao observar que nossos esforços de sintonizar o aparelho, uma lutadora televisão de quatorze polegadas, redundavam em algo aproximado ao resultado nulo, a senhora se sai com esta:

“Hoje as televisões estão saindo todas para LCD, então estas antigas ficam ruins”.

Certo, provavelmente foi uma variação disto que registrei, e eu provavelmente seria um péssimo jornalista, o que eu já sabia quando desisti de desistir do meu curso de engenharia para tentar jornalismo. Deus, eu seria uma bosta de jornalista.

A fala daquela senhora me remeteu à baderna que está o mercado de televisões, tanto os aparelhos quanto os serviços de fornecimento de conteúdo. Existe uma confusão bizarra entre os provedores: sinal analógico e sinal digital, definição normal, definição HD, definição full-HD. Outra confusão ocorre entre os provedores dos aparelhos eletrônicos: tubos, LCD, plasma, LED. A luta é feroz, e, como de praxe, quem sofre é o capim.

A indústria, claro, se alimenta da ignorância, se empapuça com a confusão que provoca. Os executivos empunham seus tridentes, enlaçam as caudas pontudas, regojizam-se com baba sobre a pele vermelha de nosferatus capitalistas gordos de participações e prêmios de final de ano.

Eles gargalham como trombetas quando vêem, em suas telinhas redondas nos cafundós tenebrosos de seus Hades particulares, pessoas vagando por lojas de departamentos, pessoas que acabam comprando aparelhos de televisão com tecnologia previamente obsoleta, caixas de aquecimento caseiro que vão deixar o Hélio Costa de cada dia ainda mais feio.

O sujeito chega em casa de peito estufado, dobrou aquele vendedor chinfrim, e trouxe para casa quase fino milagre da tecnologia quase mística em seu âmago, e então, depois de algumas horas brigando com os cabos, coloca seu querido Avaí na tela. Gritos de horror invadem a sala: como podem aqueles brucutus terem se estragado ainda mais? A tela mais parece um filme de terror vagabundo, daqueles carregados de CGI, o substituto tanga-frouxa do bom e velho catchup cenográfico.

O consumidor, nesta hora, não quer ser que lhe joguem na cara que foi feito de bobo. Usando o estratagema do rei peladão, ele finge que gosta daquela imagem distorcida, “olha, aquela popozuda ficou mais popozuda ainda, parece a Cirleide antes do Maikarlyson nascer”.

O que se observa é um fenômeno extremamente contemporâneo, que pode ser revisitado por pesquisadores num futuro relativamente distante, três décadas daqui a frente, quando estaremos naquela fase idiota da humanidade que nos mostra o filme O Demolidor, com o velho boca-murcha Stallone. O que presenciamos atualmente é uma cultura viral que transcende as redes geeks de relacionamento, e segue para um nível de cultura de rua, de vivência diária, passando de boca em boca como uma onda viva de desinformação. Ela vive como um conceito, destilada em seu mais puro significado.

Vivemos a era da ignorância mais bem informada de que este planeta já ouviu falar.

***

A citação do título é de um livro do mestre Aldous Huxley, que aparece por aqui bem menos do que merece.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para Sem Olhos Em Casa

  1. Engenheiro eletricista? God, eu podia jurar que vc era engenheiro mecânico. Isso provavelmente fruto da minha péssima memória de longo prazo. Mas já fiz o reparo do fato na minha mente…

  2. marcelo de almeida disse:

    Esse texto !! Vai ser muito atual daqui uns tempos ok , guarde o . Dizem que ta chegando por ai um negocio que neguinho fica lendo o livro numa tela , ai e so passar a mao que as palavras mudam de lugar , aparece personagens na tela ai eles conversam com a pessoa!!! Existe isso mesmo meu caro Gilvan ? Dizem que quem gosta de usar e uma geraçao 2.0 , geraçao sei la das quantas . Dizem que esses moleques ai vao dominar o mundo ! Lembrei geraçao “XY” e vao virar patrao , chefe de seçao .Mas to delirando nao existe isso nao !!

    • gilvas disse:

      o lloyd cole, desconfio, só bebe cenicamente. ele é cool demais para se entregar às delícias triviais do álcool.

  3. marcelo de almeida disse:

    Entao estou bem com a minha “TELEFUNKEN” Porra ja pensou aqueles caras da seleçao dsecendo o onibus com pandeiro,atabaque,cuica numa TV de “42” ou sei la que numero exista !! Ps putz LHoyd cole so canta qundo bebe?Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  4. md disse:

    engraçado este post. ontem eu pensava algo semelhante: “seleção jaburu vai ficar pior ainda nessas tvs 42″ que devem estar vendendo como água.”.

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