Olho Gordo na Ressaca

com trilha sonora do pixies

Estive na Armação do Pântano do Sul hoje à tarde. O local foi assunto de jornais locais, e, possivelmente, também de jornais de circulação nacional. Circulei em alguns pontos do balneário, e pude constatar que os estragos realmente foram grandes.

Constatei também uma considerável população de curiosos, interessados o suficiente, na tragédia noticiada, para deixarem suas poltronas dominicais. Imagino indivíduos gordos deixando suas poltronas ao comando do ex-gordo-mas-ainda-escroto Fausto Silva, obedecendo ao tradicional chamado selvagem da padaria. “Matilde, quantos pães? O teu irmão quer comer também, ou finalmente ele vai embora?”.

Então, sorrateiramente, quando eu e você pensávamos que aquele ser desprovido de imaginação iria fazer exatamente o que pensávamos que ele ia fazer, ele, cáspite, não faz. Ele junto o filho caçula ranhento da frente do plêistêixon trêis, bota um moleton de mano do lojão das fábricas nele, e segue com o golzinho 2003 para a Armação. Sem titubear.

Sim, havia um teatrinho da tragédia alheia lá, e aqui é o momento em que eu uso o Cazuza para me safar, dois segundos antes do leitor me acusar de molestar o sofrimento do outro. O finado cantor-compositor era burguês, mas era artixta, assim como eu sou um suburbano e minha namorada é geógrafa com ênfase em geologia e estudos de geomorfologia costeira. Peguei você, confessa: que beleza de álibi. E tinha também o atenuante de estar a menos de dez quilômetros do local.

Fiquei olhando aquele povo, sem descuidar da pose de fotógrafo pedante. Serviu durante algum tempo, a pose; logo apareceram pedantes com lentes maiores, e usando, acreditem, coletes. Tem gente que não sabe brincar.

Os diálogos eram interessantes. Uns falavam de aquecimento global, alguns murmuravam preces à furiosa Mãe Gaia, mais ao fundo era o aumento do nível dos mares, e diversos discutiam a performance de algum jogador do tigrão da ilha. Ou leão, sei lá. Ou eles nem estavam falando de futebol, vai saber.

Estranhei não haver ninguém vendendo milho, pinhão, ou mesmo uma garrafa de água. Havia potencial, muitas pessoas, horário apropriado ao desjejum. Vai ver temos almas sensíveis o suficientes para saber que não é muito ético faturar com a morbidez do ser humano.

Fiquei pensando se é assim em outros países. Eu não tenho ilusões. Presumo que todo povo seja, em sua maioria, mórbido, do tipo que reduz a marcha quando vê um acidente já cercado de pessoas. Entretanto, embora tenha sido uma tragédia arrebatadora para as pessoas que perderam suas casas ou foram atingidas de alguma outra forma, a devastadora ressaca dos últimos dias perde feio para as hecatombes de outras regiões do planeta. Será que, digamos, os havaianos se deslocam para as cidades próximas que foram atingidas por um vulcão, em excursões familiares com farofa?

De uma coisa eu não tenho dúvidas: o brasileiro não está preparado para tragédias do nível vulcão, furacão ou terremoto. Nossa natureza de Zé Carioca receberia um golpe realmente forte. Nossa famigerada capacidade de rir dos eventos tristes depende do sorriso que a Natureza diariamente dá para nosso país. Ainda que eu questione a natureza do brasileiro, prefiro que a Natureza continue assim. Obrigado.

***

Em tempo: a imagem é ruim, mas é minha.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para Olho Gordo na Ressaca

  1. maricota disse:

    “O planeta esta se transformando num mangue isso e fato !!” Pelamordedeus… A palavra FATO deve ser utilizada com (MUITA) cautela.

  2. Lembrei da enchente de novembro do ano retrasado. Eu estava na minha cidade, Jaraguá, e via as pessoas batendo fotos em frente ao rio transbordante que estava levando embora casas e vidas. Também era domingo. Eu quis sair dali e acabei sendo impedida pelo rio Piçarras. Dois dias na estrada para fazer menos de 200 km…

  3. marcelo de almeida disse:

    O planeta esta se transformando num mangue isso e fato !! O que nos resta ? Catar caranguejo! E isso nao acaba logo o tortura .

  4. mafra disse:

    ah, colete é legal, gente!

    bem que vocês queriam usar também…

    agahahaaahahahahahahahahaahah

  5. md disse:

    imagino o que os transeuntes não dizem/pensam qdo eu fotografo alguém na rua. ou a própria rua. o cara de colete, provavelmente estava de plantão pra algum jornal. maldito estigma. culpa da era digital.

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