Matt Ridley: O Que Nos Faz Humanos

Matt Ridley é um evolucionista de extração mais recente, um cara que se alinha a Steven Pinker na defesa de um caminho do meio na terra de ninguém da contemporânea pesquisa genética. De um lado, ele não se deixa adotar por maus intérpretes como foi seu predecessor Richard Dawkins, e, de outro, toca tomates em Freud como qualquer conhecedor da moderna psicologia.

As rusgas, defende Ridley, são, inclusive, mais antigas: segundo ele, o século XX, apesar de todos os avanços, foi uma centena de anos perdidos para a genética. Houve muita briga para uma relativa pouca evolução do tema, que passou a realmente decolar no final do período citado.

O presente volume faz boa companhia a Como a Mente Funciona numa prateleira. As citações a Pinker são constantes, e Ridley busca, numa postura saudável, o caminho do meio nas apimentadas discussões que ele descreve em seu livro.

A pesquisa em genética é um prato cheio para as críticas dos defensores dos direitos animais. Macacos são importunados, ratos são mutilados e ovelhas clonadas. Do outro lado, gêmeos humanos são perseguidos por cientistas obcecados e mais invasivos do que câmeras de reality show. Entretanto, em última instância, gêmeos ainda podem contratar advogados, e, até que se prove o contrário, não foram manipulados no ventre para se tornarem criaturas especiais para a ciência.

Ridley se arrepia em mais de um momento, assustado com a ética rasa que dominou tantos experimentos, mas os absorve bem na maioria das ocasiões. o que mais me incomoda nos experimentos com animais é menos o fato deles terem sido a base para boa parte das descobertas do passado, e mais que eles ainda sejam reproduzidos desnecessariamente mundo afora e em escala industrial em faculdades de diversos calibres.

Depois de passado o debate ético, que não tem lugar no livro, sinto-me à vontade para falar do que realmente valeu neste livro: algumas conclusões muitos interessantes de Ridley sobre o livre-arbítrio, este cavalo de batalha cansado de tantos filósofos e teólogos.

(…) A palavra-chave é linear, pela qual Freeman, um neurocientista californiano visionário, essencialmente quer dizer de uma via. A gravidade influencia uma bola de canhão em queda, mas não o contrário. Atribuir toda ação à causalidade linear é um hábito no qual a mente humana é peculiarmente viciada. É a origem de muitos equívocos. Não estou tão preocupado com o erro de atribuir causa onde não existe nada, como na crença de que o trovão é a martelada de Tor, ou na busca pela culpa pelos acontecimentos acidentais e a obsessão determinista com os horóscopos. Minha preocupação aqui é com outro tipo de erro: a crença em que o comportamento intencional deve ter uma causa linear. Isto é completamente uma ilusão, uma miragem mental, um instinto falho. (…) A seleção natural deu à mente humana a capacidade de detectar a intencionalidade em terceiros, para prever melhor seus atos. Gostamos da metáfora de causa e efeito como uma forma de compreender a vontade. Mas é uma ilusão, da mesma forma. A causa do comportamento está em um sistema circular, não linear.

(…) O filósofo alemão Henrik Walter acredita que todo ideal de livre-arbítrio é genuinamente uma ilusão, mas que as pessoas possuem uma forma menor dele, que ele chama anatomia natural e que deriva dos ciclos de feedback no cérebro, onde os resultados de um processo tornam-se as condições iniciais do seguinte. (…) Agora tente imaginar isto em um sistema paralelo com muitos milhares de neurônios se comunicando de uma vez. Você não encontrará o caos, assim como não encontrará caos no bando de pássaros, mas verá transições súbitas de um padrão dominante para outro. Você está desperto na cama e o cérebro está correndo livre de uma idéia a outra desta forma agradável. Cada idéia surge de espontaneamente, por causa de suas associações com a última, à medida que um novo padrão de atividade neuronal vem a dominar a consciência; então subitamente um padrão sensorial intervém – o despertador. Outro padrão assume (Tenho de levantar), depois outro (Talvez mais uns minutinhos). Depois, antes que você saiba, é tomada uma decisão em algum lugar do seu cérebro, e você fica consciente de que está se levantando.(…)

Trechos extraídos da página 343. Dá o que pensar. Pelo menos para mim e meus padrões.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Matt Ridley: O Que Nos Faz Humanos

  1. Loan disse:

    Gilvan, o que seria um sistema circular, dentro desse esquema?

    Abraços

  2. André HP disse:

    O homem é individualista pra caralho, como se não fosse possível preponderar a consciência coletiva sobre a individual. No caso da raça humana, ainda é um pouco mais “harmônico”, temos tipos de contratos éticos naturalizados na vida social. Com os animais já é mais complicado… E dizem os que conservam intacta o postulado do individualismo que todos os veganistas só o são por amor próprio – pressupondo que a “dó” seria fator essencial para gerar a postura vegan.

    Aquele Abraço.

  3. Vinicius disse:

    Resenhaste algo do Paul Davies?

    • gilvas disse:

      nopes. na verdade, desconhecia-o, vergonhosamente. coloquei-o em minha lista de autores a procurar em minhas próximas visitas a sebos. entrementes, o universo elegante do brian greene está na minha prateleira aguardando ser lido.

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