Uma Era de Extremos

Vivemos em uma era de extremos, e esta frase já deve ter entrado no baú de clichês lá pela década de setenta. Clichês foram criados com a finalidade de uso, apesar da má fama, então prossigamos.

Lunar é lado bom da história. O roteiro inteligente, as bonitas imagens da superfície da Lua, o bom desempenho de Sam Rockwell, a feliz execução das truncagens de duplos. Tudo aponta para um filme que você deveria ver o quanto antes.

Sam é o protagonista, homônimo do ator. Ele opera, no lado escuro da Lua, uma unidade de captação de combustível para fusão nuclear. Ele estaria sozinho na estação, não fosse o robô GERTY. Neste ponto inicial, a película aparenta estar no meio do caminho entre Iluminado e 2001. Sam é o Jack Torrance na estação, e GERTY é HAL.

A voz de GERTY é de Kevin Spacey, e sinto alívio em não ter de ver a cara de fuinha de Spacey junto com a voz. Gosto dele, só estou cansado de ver sua cara.

Curiosamente, os dois filmes que vêm à minha lembrança são justamente de Stanley Kubrick. Mais curiosamente ainda, são filmes que se colocam em pontos extremos dentro do meu gosto pessoal. 2001 é uma obra genial, provavelmente a melhor ficção científica que alguém poderia filmar. Iluminado simplesmente não funciona; Kubrick não sabe imprimir tensão às cenas, embora filme com requintado estilo.

Esta encruzilhada inicial evapora rapidamente da minha percepção, ficando a gema de um filme resolvido. A situação é FC clássico: o ser humano, lançado a uma fronteira, encara seus dilemas existenciais, o que, não raro, caminha junto à linha do absurdo. Há espaço ainda para a superação dentro de uma pouco convencional formação do herói.

Duncan Jones, acabo de descobrir, é filho de David Bowie com a legendária Angie, da canção dos Rolling Stones. Fico feliz de um fidalgo assim fazer algo que preste, e espero que a onda pegue no Brasil.

O lado podre da moeda é Babylon A.D. Ninguém pode acusar o filme de ser desonesto: sua capa tem estampado, em bom tamanho, o nome de Vin Diesel, e tal marca vem garantindo filmes ruins há mais de uma década.

O benefício da dúvida, percebo agora, foram os nomes de figurões do cinema europeu, a começar pelo próprio diretor Mathieu Kassowitz. Depois vem Gerard Depardieu, Charlotte Rampling e Lambert Wilson, cáspite, não poderia sair algo tão ruim destes caras.

E saiu. Os três interpretam uma trama picaresca com o devido descaso, apoiando-se na parafernália de maquiagem e efeitos. Devem ter combinado isso durante alguma festinha, já altos na caipirinha, e, quando viram, já estavam no set de filmagens queimando seus preciosos filmes.

Diesel, na trama, é um mercenário. Oh, quanta novidade. Ele tem de levar uma mocinha virginal através do Estreito de Behring até Nova Iorque. Oh, estou surpreso. No caminho, a menina vai dar em cima dele. Oh, sério? Ele é durão, mas quer largar esta vida de malvado. Oh, meu deus, entra na fila!

O roteiro é o tipo de coisa que moleques de quinta série escrevem no recreio para o teatrinho na quarta aula. Na verdade, é o equivalente do truque do encanador que os filmes pornô vêm explorando há décadas: a historinha é só uma desculpa para o Vin Diesel dar uma porradas e interpretar muito mal.

Agora que eu perdi noventa minutos da minha vida e você já foi avisado, pode ir procurar algum outro filme na locadora.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Uma Era de Extremos

  1. marcelo de almeida disse:

    Se o iluminado nao funciona !! Aprecie apenas a paisagem !! Coisa absurda!!Sao imagens vivas, aterrorizantes,mas vivas!!

  2. Turnes disse:

    “Iluminado simplesmente não funciona”, não funciona.

  3. marthadias disse:

    o iluminado?? é um dos poucos filmes que não consigo assistir sozinha depois que escurece. ao contrário de ti, acho muito muito tenso..

    • gilvas disse:

      o filme, baseado em stephen king, que realmente me incomoda é pet sematary. aliás, o livro também. tem resenha do livro, coloca na caixinha de busca do sinestesia.

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