Aversão

falcon

As versões em português de músicas gringas deixaram de ser novidade, aqui no Brasil, antes mesmo que a década de 50 desse seu último suspiro. A Jovem Guarda sugava, em ambos sentidos, o veio do cancioneiro bem estruturado de Inglaterra e Estados Unidos, de modo a erigir o que poderia ser chamado de primeiro movimento da música popular brasileira.

Mesmo depois do brasileiro ter absorvido o modus operandi do gringo, muito rapinagem continuou a ser feita por artistas de maior e menor inspiração, culminando na maldição breganeja dos anos noventa, monstros que atacaram, sem piedade, as pérolas pop de grupos como Roxette e Berlin, para ficar apenas em dois exemplos. Nesta altura do campeonato, os roqueiros brasileiros continuavam a copiar, mas com o cuidado de obscurecer as fontes.

Outros artistas entraram nesta cancha com objetivos menos dinheiristas, como Marcondes Falcão Maia, que lançou uma versão de uma canção do Pink Floyd com a letra da cantiga, impopular entre os defensores da causa animal, Atirei um Pau no Gato. Ainda que o chato do Roger Waters não tenha deixado esta pérola ser gravada, ela se perpetuou em rodas bem-humoradas de violão. Antes, o genial cearense já havia experimentado o outro sentido desta via, criando versões em peculiar inglês de clássicos nacionais como Fuscão Preto.

Outra vertente interessante é a do Nouvelle Vague, grupo proveniente da França, que é conhecido por poucos expoentes na música pop, entre os quais destaco M83, Emilie Simon e Air. O Nouvelle Vague é conhecido por haver gravado diversas versões, principalmente de ritmo de bossa nova, para clássicos oitentistas. Dentre os clássicos em questão, destaco Killing Moon, do Echo & The Bunnymen, cuja versão é muito interessante.

Vale ressaltar o aspecto corno-manso de Killing Moon, que, miseravelmente, passa desapercebido entre as duplas breganejas tupiniquins. Imagine que rimas ridículas não ensejaria uma canção destas entre mentes trôpegas como as de Zezé de Camargo & Luciano? O brasileiro, como já dizia o mestre Falcão, mistura em seu ser as naturezas brega e corna de forma muito especial.

iancurtis

Imaginemos uma realidade alternativa em que uma dupla chapeluda se prestasse a emprestar, digamos, Digital, um dos hinos da mais trágica banda de Manchester, e a vertesse para o idioma pátrio com a peculiar incompetência de que apenas os puros de espíritos e vazios de conhecimento são capazes. Aposto dois chifres humanos que seria algo na linha:

Sinto ela chegando
Sinto ela chegando
Só quando eu chamo
Quando eu chamo
Sinto ela chegaaaaando
Sinto ela chegaaaaando

O dia, inteiro
8x

Sinto ela chegando
A silhueta vindo
Ela é fria e quente
O véu vai cair
Sinto ela chegaaaando
Sinto ela chegaaaando

O dia, inteiro
8x

Tenho o mundo todo
Posso ver agora
Sozinho na minha porta
Então ela vai embora

Ela vai embora
Não, não vá embora
Preciso dela aqui
Não, não vá embora
Não, não vá embora

Vá embora, não vá embora
4x

A letra original, impoluta, pode ser vista neste endereço aqui. Ressalto que a tradução é livre e inspirada pela mediocridade de cantores que agradam a pessoas que, por exemplo, gostam dos rituais de tortura de animais conhecidos como “rodeios”.

Confesso que me senti livre para brincar com o espólio do Joy Division apenas depois de ter ouvido a versão ridícula do The Killers para Shadowplay. Obrigado, Brandon Flowers, mesmo a sua banda patética pode inspirar as criações de outras pessoas.

Confesso também que eu pagaria para ver a interpretação desta versão por uma dupla breganeja, mas apenas se eles se prestassem a fazer a coreografia epiléptica de Ian Curtis.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Aversão

  1. Clara disse:

    Gosto de várias versões de músicas legais, mas nenhuma dessas versões é feita por brasileiros…esse sambô é um saco, na minha opinião é para pessoas que tem preguiça…preguiça de escutar um som original, preguiça de pensar, preguiça de tudo…escutam apenas pq todo mundo escuta e está em todas as rodas do momento (eles nem conhecem as versões originais, se bobear…)…já achei versões melhores que as originais, pelos acordes, arranjos…mas, tem que ter a sensibilidade de fazer um negócio tão bom quanto o já existente.

    • gilvas disse:

      gosto das versões da katie melua, por exemplo, e da madeleine peyroux. ah, tem o disco do duncan sheik, só com versões de clássicos oitentistas, e agora saiu o do iva davies, com uma versão arrepiante de uma do bowie. estes últimos dois eu resenhei no blogue.

  2. marthadias disse:

    nossa, não entendi nada.
    depois eu leio de novo.

  3. mafra disse:

    na penúltima frase quis dizer “sobre”…

    • gilvas disse:

      estou me esforçando, mas não encontro nada digno de nota. lembrei das versões que vitor ramil fez de dylan, esforços quase perdidos em meio à obra digna daquele gaúcho. lembrei do j. quest quando verteu aquele clássico de antena um para o português. uhm, missão difícil esta.

  4. mafra disse:

    mas afinal, seu gilvas,
    gostas de algumas das versões ou não?!? ou tens problemas apenas com aquelas que vertem as letras originais para outras linguas?!?
    eu, por exemplo, mesmo não sendo um grande fã de adaptações de letras, confesso que gosto de algumas (é o caso das que erasmo carlos fazia na época da jovem guarda)… agora, quanto a versões/regravações/rearranjos: adoro. claro que muitas e muitas vezes as coisas não saem como deveriam, mas como “uma versão é mais um versão”, fazê-la é uma questão de não canonizar canção alguma e de lançar novo olhar/ouvido sob (afinal, os “intocáveis” estão aí para serem tocados).

    abraço.

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