Tolkien: O Senhor Dos Anéis

John Ronald Reuel Tolkien foi um avô exemplar. Provavelmente. Eu não faço realmente a menor idéia de como ele era em sua vida particular, mas desenvolvi uma certeza bastante peculiar sobre ele. São fatos fictícios que inspirados pelos cabelos lisos e brancos, pelo sorriso bonachão e inteligente, e, claro, pelo peculiar cachimbo.

Eu poderia deixar de fora o aspecto da obra dele, claro. Causar polêmica barata já foi uma das minhas diversões pedantes, e os velhos costumes são os que mais nos tentam. Entretanto, não há como excluir O Senhor Dos Anéis, catatau de mais de mil páginas, do rol das obras mais influentes da história da humanidade.

Este livro deveria ter sido devorado enquanto eu era um adolescente espinhento e esperançoso no final dos anos oitenta, mas a vida tem um jeito interessante de não fazer o menor sentido. Acabei me atracando com este volume apenas na segunda metade da minha quarta década. E estou gostando. Wilde dizia que o segredo da juventude, ou talvez da segunda juventude, é voltar a fazer o que se fazia quando se era jovem. Ou seja, sou jovem novamente, quase tanto quanto quando eu me esbaldava ao ler as aventuras de Xisto.

Um dos primeiros sintomas foi o desenvolvimento de uma patologia nervosa quando alguém coloca Tolkien na mesma prateleira que Joanne Kathleen Rowling. Cáspite, comparar a complexidade de uma obra como Senhor dos Anéis com as bobagens insípidas de Harry Potter é uma declaração de absoluta estultice. Este efeito se deve, muito provavelmente, ao fato das pessoas terem visto os filmes, e não lido os livros. A vala comum das adaptações cinematográficas recheadas de pipoca coloca mestres e pirralhos alinhados pelos ombros.

Tolkien, clichê seja carimbado, maneja as descrições de ambientes com maestria. Suas paisagens enchem os olhos por vezes, e, em outros momentos, nos congelam o sangue nas veias. Suas montanhas desafiam os ares com o atrevimento respeitoso do guerreiros esquecidos, e suas cavernas sufocam toda a esperança que um coração poderia acalentar.

Entretanto, pouco ouvi falar de sua construção de personagens, o que merece ser reparado. Concentremos a lente sobre os quatro hobbits. Eles são, com certeza, hobbits, e diversas características tornam óbvio que Tolkien está falando deles, mesmo quando estou quase morrendo de sono, devorando, por favor, só mais uma página. Por outro lado, Merry é diferente de Pippin, que é diferente de Frodo, que não é Sam. Tolkien soube desenhá-los com sutileza ímpar.

A criação de personalidades, entretanto, realmente não poderia fazer sombra à capacidade de Tolkien em criar nações e tribos, grupos de entidades e etnias dentro delas, regiões e caminhos, acidentes geográficos e lendas históricas. Os escritores de fantasia, depois dele, encontraram parâmetros quase impossíveis de serem alcançados. Asimov é apenas um dos que admiravam Tolkien.

Mas nem tudo não flores na estrada para Gondor, mas isso nem foi culpa de Tolkien. Tamanha imaginação e tantos personagens épicos obviamente encantariam a nação metal e os jogadores de RPG, e assim foi. Não há nenhum cabeludo com camiseta de monstro que não se comova ao falar das peripécias de Aragorn, assim como todo punheteiro de tabuleiro sempre há de exclamar sua paixão pelos personagens aventureiros nos intervalos enquanto espera sua vez no Guitar Nerd.

Melhor focar nos bons herdeiros: os seres da Terra Média encantaram autores de gibis de Thor e Excalibur, na Marvel, e criadores amplos como Neil Gaiman. Jogos eletrônicos e desenhos animados sempre deverão ao escritor personagens marcantes como os elfos e os orcs, entre outros que ganharam sua forma definitiva pela escrita de Tolkien.

Estou adiantado no terceiro livro, e confesso que me esforcei para não encarar a relação entre Sam e Frodo como um romance, estilo Batman e Robin, mas foi especialmente difícil não assoviar os violinos de I Will Survive quando Sam faz algumas carícias reconfortantes em um desacordado Frodo nas cavernas onde Faramir os abriga.

Segue um trecho, mas não da parte citada acima, para manter o respeito.

(…) A escuridão apressada, agora se adensando com grande rapidez, precipitou-se do leste e engoliu o céu. Houve o ruído seco e cortante de um trovão bem acima deles. Um relâmpago de fogo golpeou as colinas. Então veio uma rajada de vento incontrolável, e com ela, misturado ao seu rugido, chegou um guincho alto e agudo. (…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Tolkien: O Senhor Dos Anéis

  1. Jefferson disse:

    Fala sério… o que te move é a viadagem entre Frodo e Sam né? Falando sério mesmo eu não consegui suportar o LOR até o final. O Hobbit é muito melhor, e correndo o risco de ser apedrejado, afirmo que o Peter Jackson (num rompante de genialidade um tanto raro na indústria das adaptações cinematográficas) melhorou bastante a narrativa, que talvez tenha sido mais adequada a outros tempos já passados.

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