A Estética do Mergulho Onírico

Colin Firth é um cara que gastou todas as fichas cinematográficas que eu guardaria para um ator. Ele foi um goiaba em Nanny McPhee. Ele foi quase o mesmo goiaba em Bridget Jones, e este prospecto foi reciclado, para delírio das mocinhas casadoiras que buscam um bundão provedor, em Simplesmente Amor. Tenho memória seletiva, e isto é um alívio, pois Colin Firth deve ter atuado em mais uma penca de papéis ruins que eu devo ter esquecido.

Se regularidade premiasse alguém, Colin Firth teria uma sala repleta de estatuetas prateadas e douradas e bronzeadas. Mas, como regularidade é tema de rally, ele se perderia entre os frutos de uma goiabeira.

Julianne Moore é outra atriz que sempre vi presa a um papel conservador e ultrapassado, e este filme é um bom exemplo do que digo. Filhos da Esperança é uma exceção, e suspeito de que Moore só fez um bom trabalho porque morreu antes da metade do filme, o que proporcionou uma boa surpresa. Se bem que até o Clive Owen consegue estar bem naquele filme.

Firth precisa, desta forma, agradecer a Tom Ford. A façanha do diretor é extrair uma interpretação decente do canastríssimo Firth no papel de um homem adulto que perdeu seu grande amor há poucos meses. Meu lado infame diria que Tom Ford mata a cobra e não continua a expressão popular a que me refiro, mas fiquemos por aqui e mantenhamos as minorias longe de protestos neste espaço.

A Single Man é um filme de beleza acima da média. Seu principal atributo é ser límpido. Seus planos são cuidadosos e lentos, sempre expondo as imagens com extremo bom gosto.

O título em português, alguém desconfiaria, é ridículo. Eu provavelmente nunca veria um filme chamado “Direito de Amar”, mas eu nem estava interessado em ver um drama com Colin Firth, então ficamos empatados.

Jared Leto tem olhos enormes. Muito grandes. Jared Leto, além disso, parece não envelhecer. É estranho, portanto, ver Jared Leto extremamente velho em Mr. Nobody.

Jaco Van Dormael, diretor da película, me deixou confuso em diversas esferas. Ele cria um filme que pode se passar por uma ficção científica num modo semelhante ao de 2046, de Wong Kar-Wai. Como no filme do chinês, aqui os tempos se embaralham assim como as mulheres da vida do protagonista.

Elas são três, o que pode remeter a realizações recentes no campo da comédia romântica, como Três vezes Amor. Mas a comparação ficaria apenas no número de garotas envolvidas. Em Mr. Nobody elas se sobrepõem a fases da vida do protagonista. Elas surgem em ondas, e chegam a ser duais num mesmo trecho da vida dele. Nada mais adequado, então, que Van Dormael cite, em tom de documentário plástico gringo, a teoria das cordas e as conclusões alopradas em que estacionaram os cientistas que tentam explicar a aparentemente trivial força da gravidade, entre outros mistérios do tamanho do universo.

Nemo Nobody, em certo momento, se divide em dois. O mote é a separação dos pais, e o espectador fica ciente dos dois caminhos que podem ter sido seguidos. No papel de degustador, deliciei-me com tal iguaria perceptiva. O jornalista de Daniel Mays, um dos prediletos de Mike Leigh (aqui e aqui), não tem a mesma sorte. Ele entrevista Nemo, e serve de moto para que o idoso último mortal da Terra desfie suas confusas memórias.

Mr. Nobody prende pelas aventuras sentimentais de Nemo, mas encanta mesmo é pela utilização de conceitos da Teoria das Cordas e seu arcabouço elucubrante acerca das dimensões que explicariam o modo como o Universo se comporta. A flecha do tempo, e sua misteriosa possível inversão, estes são os tijolos a firmar este filme como uma realização a ser lembrada, pelo menos por mim, por uma razoável eternidade.

O prazer de assistir Mr. Nobody, voltando a 2046, é justamente estar nas entrelinhas. Compreender plenamente um filme em sua linha central pode ser frustrante, quiçá previsível. A estratégia de injetar conceitos de física contemporânea em diversos pontos consegue elevar Van Dormael ao nível de artista, e Jared Leto ao status de um títere perturbador.

***
A Single Man e Mr. Nobody possuem em comum cenas oníricas de afogamento. É um recurso manjado, inclusive em clipes e outros filmes, mas eu sou fácil, deixo-me levar pela beleza de pessoas a voar dentro da água.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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