A Indústria Faz Água

o futuro apocalíptico já está acontecendo.

O século vinte e um avança com uma voracidade que nem a Lei de Moore poderia prever enquanto, no lado trivial da cerca, as pessoas cismam em acreditar em balelas mundiais do naipe de aquecimento global ou gripe suína. Difícil aceitar que as pessoas, imersas na torrente de informações dos tempos atuais, ainda insistam em perpetrar a barbaridade de várias facetas em que consiste a água engarrafada e seu processo de industrialização.

Carolina Daemons dá algumas dicas sobre o assunto neste endereço. Recomendo fortemente a leitura. Vai lá, e depois volta aqui ler os meus resmungos. Vai!

***

A água engarrafada, e o absurdo de sua existência em países bem servidos do produto natural, serve como um bom exercício de observação crítica do estado das coisas na nossa sociedade. O senso crítico, não é novidade, escapa à grande maioria da população, e este é um fato tão bem distribuído no grupo que poderia ser apresentado como um dos poucos fatores democráticos evidentes entre nós.

A observação cotidiana de alguns fatores permitiria a qualquer pessoa, dotada de uma parcela razoável de raciocínio, chegar à conclusão de que estamos sendo engabelados pela indústria da água mineral. Arregacem as mangas, e vamos lá.

Primeiro, o plástico. Água engarrafada vêm em garrafas plásticas. Algumas são coloridas, outras têm design moderno. Algumas são enormes, uns bujões, e podem ser retornadas no lombo de jegues movidos a motor de explosão. Eu uso garrafas plásticas: compro-as, e, depois que o conteúdo delas acaba, recarrego-as em uma torneira de confiança, ou um filtro, se possível.

Este não é o costume, todavia, de grande parcela da população. Eu sou preguiçoso, e você provavelmente também, mas não precisamos, eu e você, elucubrar muito para ter uma idéia do número de garrafas descartadas em um único dia em Florianópolis. É um valor obsceno, um crime. São garrafas que vão para a tão propagandeada indústria da reciclagem de que se orgulham os brasileiros.

Você já parou para pensar em quanta energia é necessária para reciclar estas inocentes garrafinhas? E quanta água? E quanto ar se polui neste processo? E quantas dessas garrafas se perdem nos rios, lagos e mares, prejudicando a fauna e a flora?

Segundo, o combustível. A água chega nos centros urbanos em tubos, sendo distribuída por empresas que gerenciam água e esgotos nas cidades. Porém, esta água, alguém lhe contou, é ruim para beber, está cheia de doenças tenebrosas e resíduos misteriosos. Sim, a água de um país com o subsolo generoso, uma dádiva que quase me faz acreditar em algo divino, esta água não presta para você beber. Fala sério.

Sim, mananciais podem ser contaminados, tubos de transporte da água podem dissipar impurezas em seu interior, mas olhe para a água que sai da sua torneira. Se você mora em um centro urbano no Brasil, há grande probabilidade de ela ser cristalina, algo a se contemplar, e não a se temer. Eu uso filtro em casa, mas confesso que me preocupo mais em que ele tire o excesso de cloro do tratamento do que impeça improváveis impurezas de me atingirem.

A água, enfim, chega na sua torneira por força de bombas e de gravidade. As bombas são movidas por energia elétrica, e a gravidade funciona muito bem, obrigado. A água engarrafada chega na sua casa por uma combinação de meios poluentes de transporte, algo ainda mais crítico em um país mal planejado como o Brasil.

A água das garrafinhas e dos bujões atravessa o Brasil de um lado para o outro em caminhões, muito provavelmente com motores mal regulados, e que poluem nosso ar impunemente. No processo, nossas estradas também sofrem, desnecessariamente, com a circulação de caminhões fora de regulamentação.

Depois de chegar nas distribuidoras, a água engarrafada se divide nas garrafinhas poluidores de que eu falava logo acima, e nos bujões, de que tratarei agora.

Os bujões de água são presença garantida sobre as motos de cabriteiros que correm loucamente pela cidade para alcançar metas inviáveis e validar margens exíguas de lucro de empresas que lutam ferrenhamente por faixas de um mercado difícil. Alguns podem até rir dos malabarismos de rapazes mal pagos que pilotam suas 125 com dois ou mais bujões, de água ou de gás, em suas traseiras. Eles consomem gasolina em seus paus-velhos de duas rodas, mais um ônus deste sistema sujo.

Terceiro, cedendo ao marketing da falsa saúde. As barras de cereais viraram febre em meados dos anos noventa. A aveia estava em alta, e côco, castanha, mel e outros ingredientes saudáveis estavam nas mãos da geração saúde. A indústria não poderia deixar de explorar o nicho, e para isso contava com a preguiçosa população do planetinha azul. Logo surgiam barras de cereais com chocolate, sob o pretexto de “dar energia”, e não tardou a surgirem bolachas disfarçadas de barras de cereal.

Da mesma forma, a água mineral, vedete dos bons nutricionistas e do povo que procura se hidratar de meia em meia hora, também deveria dar sua contribuição para o capitalismo selvagem. Ora, se o chá verde já havia entrado na dança, porque não aumentar o baile?

Então surgiram as águas ditas “saborizadas”, um embuste eu não engoli até hoje. Como diabos uma população inteira se presta a beber uma espécie de refrigerante diluído e socado de adoçante? Onde foi que o trem da sanidade saiu dos trilhos? Bom, se faltava algum prego para lacrar o caixão da ignorância, foi neste ponto que ele foi adquirido.

Estes são apenas três demonstrações de como o senso crítico pode ser exercitado sem contra-indicações. Recomendo fazê-lo como estou fazendo: acompanhado de uma boa xícara de chá de hortelã com menta, cultivadas na minha micro-horta de apartamento, sem açúcar, e hidratado com água filtrada da torneira.

***

Ocorreu-me que a atual onda de inssurreição contra a água engarrafada possa ser uma conspiração dos fabricantes de filtros de água. Eu poderia discorrer sobre isso, mas já é tarde, e está muito frio.

Outra referência interessante é uma lista de recomendações do Greenpeace para tu ires fazendo a sua parte para dminuir consumo de petróleo. Sim, você pode ajudar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para A Indústria Faz Água

  1. André HP disse:

    O texto é bom.

    Tenho-lhe uma proposta.

    Mande-me um e-mail: paladino-elfo[arroba]hotmail.com

    Abraço!

  2. mafra disse:

    muito bem colocado, seu gilvas.

    eu, que desde moleque sempre bebi água do filtro, já não compro as garrafinhas, mas levo sempre uma comigo que vou enchendo aqui e acolá…

    tirando isso, o melhor mesmo é tomar cerveja!

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