O Dom de Inflamar

Se isto aqui fosse efetivamente o que rotineiramente se chama de blog, seria necessário algum apelo. Escrevo aqui desde 2003, e não sei exatamente o que seria um apelo para este ou aquele público. A motivação, enfim, nunca foi ter público, então não preciso de apelo. Preciso apenas escrever.

Tem semana, entretanto, em que não sai nada.

Se fosse para desenhar uma pirâmide de suportes para a combustão da escrita, eu diria que os componentes seriam material, habilidade e impulso.

Material pode ser praticamente qualquer assunto, por mais bobo que seja. Tudo na existência oculta uma faceta sobre a qual pode-se escrever. Mesmo. O material se revela pela natureza própria do escritor, porém, é ele que enxerga a beleza onde ela poderia ser considerada improvável.

Habilidade é algo que flui de uma vertente alimentada desde a infância com o encanto das letras. Há uma componente genética, é certo que há também. Ela não é uma causa em si. As três circulam livremente cada uma pelos terrenos demarcados das duas outras.

Impulso é o que um escritor retira do modelo que outros escritores disponibilizam em seus livros, crônicas, poemas ou ditos. A habilidade por certo facilita o impulso, desfaz a vergonha que o recolhe à posição fetal dos caneteiros tímidos.

Como saber, então, o que inflama a mente por trás de um teclado chinês anônimo?

Pelo outro lado da moeda, o que culpar quando a escrita não se desentoca? O frio, provavelmente, ou a vida boa e sem percalços que a existência de classe média proporciona. O importante, enfim, é poder culpar algo, de preferência palpável, ou algo sobre o que se possa refletir. A frustração de nada publicar, por banal que possa soar, precisa ser exorcizada, e o fluxo retomado. A leitura de bons livros pode até não ser uma certeza de impulso, mas torna os arredores do cotidiano dotados de contornos mais interessantes. Ao menos isto.

***

O escritor frustrado se exercita num espaço de mediocridade. De um lado, não é inspirado para tiradas perfeitas, que caberiam em um haikai ou mesmo em um tiro de 140 caracteres. Do outro, não consegue se tornar denso a ponto de levar por cima das fuças um texto pouco mais longo, e não falo de um romance de quatrocentas páginas, mas um conto de vinte. Deus, um belo conto de vinte páginas, o piorzinho que foi deixado por um Maupassant ou por um Tchekov, eu estaria muito satisfeito. Iria rir sozinho no sofá, quando ninguém estivesse olhando, com a certeza de ter feito algo relevante pela sociedade. Sentimos fome de algum significado; fico pensando se gênios não reconhecidos em vida morreram com a convicção de que eram relevantes. Emily Brontë, o que sussuras à minha janela nesta noite fria?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para O Dom de Inflamar

  1. Ana Corina disse:

    Pra quem estava sem inspiração, hein? hahaha
    😉

    • gilvas disse:

      é tão reconfortante viver quando eu sei que pessoas continuam lendo e escrevendo, e não apenas com finalidades práticas. agradeço aos mensageiros pelas boas notícias.

  2. A. disse:

    Parabéns pelo blog! Cheguei a ele procurando pérolas sobre Neil Hannon e encontrei a melhor delas aqui. Um abraço!

  3. Tieli disse:

    Leitura bem propícia para este ser que passou a semana inteira a escrever por 8:40h de seu dia, exaustivamente, sobre assuntos que não eram de agrado mas que era obrigada a redigí-los. A inspiração, nestes casos, parece se tornar algo tal como o ar: na falta dele, qualquer sopro enche os pulmões de vida.(com a licença poética do trocadilho com “inspiração”, que juro só ter constatado depois de formular a frase). Obrigada, caro escritor frustrado, pela inspiração. Ambas são vitais para mim.

  4. Joanne disse:

    Yasunari Kawabata – Contos da Palma da Mão.

  5. Talvez se Emily ainda sussurasse, ela diria que a escrita vem da solidão, e daquilo que se encontra nos próprios corredores da mente. Mas, enfim, escrever não é uma arte propriamente popular. Para a grande maioria só resta mesmo é sussurar através do limite dos 140 caracteres…

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