Elastica

1995 corria solto lá fora. Na minha vitrola, um disquinho branco, com um globo terreste azul-escuro estampado, rodava sem parar. Deve ter ficado lá por mais de dois meses, trilha sonora exclusiva de minhas rabugices de pós-adolescente pré-pedante.

Foram necessários alguns meses para que eu desse uma olhada no outro lado do som que os ingleses estavam fazendo naquela baita de ressaca da carreira subsolo de Kurt Cobain. E não falo de Blur ou Oasis, malas pretensiosas que nunca me agradaram. Confesso que o Blur pode ter me interessado, certo, mas foi apenas isso.

A estrela desta noite aqui no Sinestesia não é nenhuma banda da marmanjos reclamões, mas sim de uma banda quase exclusivamente de garotas, o Elastica. Seu disco de estréia, o único que ouvi, é um registro de como a vida pode ser divertida mesmo que você tenha nascido na Inglaterra.

São canções curtas. Um desavisado pode, ao ver a lista de faixas, longa, e as durações médias, curtas, pensar que se trata de um lançamento dos pais do punk bubblegum, os Ramones.

As canções vieram sendo colecionadas desde 1993, e levaram algum tempo para encher o disco. Justine Frischmann, a líder do grupo, namorava Damon Albarn, líder do Blur, e queridinho da absolutamente parcial imprensa musical inglesa. Um casal, duas bandas de sucesso, isso era tudo com que um editor de um jornaleco como o NME sonhava.

Entretanto, a vida não passa no horário das oito, e muito menos no das seis, embora haja quem jure que vive na Malhação. Frischmann se afundou na heroína, e levou o resto da banda junto. Um segundo disco saiu quatro anos depois de muito sofrimento, e quem ouviu jura que é uma decepção.

Mesmo nos bons, muita pedrada voou sobre a trupe de Justine. Acusações de plágio eram triviais, ao que as moças respondiam com bom humor, de certa forma se colocando como proto-manifestantes de um movimento pela liberação dos direitos autorais de qualquer música que soasse divertida e simples o suficiente para seus dons musicais.

Volta para 1995. A urgência era a essência de uma banda tosca, calcada em seus ídolos da ala mais soft dos punk-rockers do final dos anos setenta, e com alguns tiques do post-punk de mesma extração.

Os vocais, quase sempre bem colocados, faziam as vezes de cobertura para uma massa simples ao extremo. Nada de grandes efeitos nas guitarras, solos inexistem. É notável que há um esforço de sofisticação ao longo do disco.

Canções rápidas como Blue e All Nighter convivem com outras de cadência mais lenta, como Waking Up. Esta última é uma das minhas prediletas: seu riff infeccioso soa incompleto, e você fica pedindo para que ela continue. Mesmo a incompetência tem seus méritos.

Elastica, o disco e aquela banda de 1995, são todo um romance de verão em forma de disquinho prateado. Com toda a deliciosa irresponsabilidade que o conceito acarreta.

Reparem na picaretagem das moças, usando as mesmas imagens para compor os vídeos de duas das canções de seu disco de estréia:

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Elastica

  1. Johnny disse:

    muito massa essa banda, genial……

  2. mafra disse:

    um dos meus discos preferidos!

    ouvia sem parar. além dos dois do blur da mesma época – ótimos, seu gilvan! (dê uma chance ao “the great scape” ou a parte do “parklife”!)

    o disquinho do elastica não saia do meu cd player, mas o curioso é que no período ouvia muito uma bandinha que não ouço desde então… cranberries (é difícil admitir), pois é. enquanto uma desapareceu na lembrança, outra continuei ouvindo até em minha fase mais joãogilbertiana radical.

    e falei do elastica, lembra?
    http://jeanmafra.blogspot.com/2009/04/coisas-usadas.html

    • gilvas disse:

      é certo: estou ficando gagá, pois não consegui situar aquele meu comentário no espaço-tempo. muita coisa para pensar, muita coisa para fazer, e já vai mais de um ano que freqüentamo-nos mutuamente-virtualmente.

      cranberries em outubro, né? e nada de sair o preço do ingresso…

  3. marthadias disse:

    lindo

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