Imagem Pública

O fulano tinha estatura mediana. Mas eu não tenho certeza. Digo isso porque este detalhe não chamou minha atenção, portanto ele deve estar na média. Lembro que usava óculos escuros. Mentira, não lembro, eu só penso que ele deveria estar usando óculos escuros, pois sábado era um dia claro.

Ele veio na direção do casal que eu formo em conjunto com a Maricota. Ali na Alfândega, perto do Mercado Público. Talvez tivesse uma prancheta, talvez isto seja apenas mais uma das minhas memórias duvidosas. Minha memória romanceia por conta própria, percebi nos últimos anos.

Pensei, por conta da prancheta imaginária e por um instante, que ele viesse me oferecer um curso de idiomas. Errado, até porque o fulano não tinha o perfil das esforçadas moças que ficam pela Felipe Schmidt tentando de convencer a fazer um curso de idiomas. E também porque não era a Felipe Schmidt, e as moças dos cursos de idiomas não costumam se perder em marés, como fariam os pingüins, vindo parar perto da feirinha da Alfândega.

O fulano se dirigiu a nós dois de forma descontraída e direta. Era do comitê eleitoral do Paulo Bauer, e queria que cedêssemos nossas imagem, ou a imagem do casal, não lembro direito.

Devido à minha pouca exposição à tevê paga, o sobrenome Bauer ainda se refere, em meu universo, a um político catarinense de direita, e não a um cara que bota os bofes à prova correndo atrás de terroristas durante o exato período de um dia.

Nos negamos, claro. “Mas é só um minuto, vocês não precisam falar, precisam apesar ser fotografados”. Negamos de novo, em definitivo, e fomos liberados.

É engraçada esta coisa de ter uma imagem. Eu sou um anônimo, assim como minha namorada, exceto em um pequeno círculo de amigos, colegas, vizinhos e familiares. Entretanto, compomos, eu sozinho, ela sozinha, nós dois juntos, imagens. Imagens que um cabo eleitoral achou passíveis de associação vantajosa a seu chefe.

O senso de realidade, o que alguns chamam de pé-no-chão, me mantém ciente de que sou um zé-ninguém. O chamado do cabo eleitoral, entretanto, deu uma balançada, bem rápida, nesta minha convicção. Por pouco mais de um segundo, refleti sobre o orgulho que poderia ter levado a doar minha imagem a um candidato, mesmo que não fosse um candidato totalmente distante de receber um voto meu.

Uma coisa é votar em um candidato, e aguardar quatro anos para avaliar se valeu a pena, ou se, pelo menos, ele não te decepcionou sendo um calhorda imprestável. A outra é dar embasamento à propaganda do sujeito.

Aliás, fico pensando no mote que ele deve estar imputando à sua empreitada eleitoral. Será um desses candidatos dos descolados? Ou será que reconheceu alguma aura de engenheiro em mim? Será que sabe que sou voluntário da causa animal, será que… não, provavelmente não, ou não teria se arriscado a ouvir da Maricota alguns slogans de esquerda.

O importante, no final das contas, é que aquele fulano, provável portador de óculos e prancheta, e dono de média estatura, me lembrou de que tenho uma imagem. Talvez seja o momento de começar a zelar por ela.

Ou não.  Deixa o verão prá mais tarde, já ouvi alguém cantar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Imagem Pública

  1. Ana Corina disse:

    Você ainda acredita em ‘direita’ e ‘esquerda’ no Brasil?
    Fala sério, Gilvas man!
    O que há é um visual ‘descolado’ que interessa a qualquer político que queira abranger o maior número de ‘tipos’ possível. Bem… Ao menos é o que arrisco afirmar.
    De qualquer maneira, hoje foi verão.
    😉

  2. Milene disse:

    Sim, tu tens uma imagem (te importes com isso ou não) e és julgado a todo o momento por conta dela. As pessoas criam expectativas e preconceitos só de olhar pra você. E é interessante perceber que, em alguns casos e eu me incluo nestes, quando elas te conhecem um pouco mais, mudam completamente de opinião.

    Sobre a abordagem do rapaz, é divertido pensar nas motivações e na finalidade do uso desta imagem. Aquela velha questão de fazer uma campanha com um pagodão e se chamando de zé, pra atingir o povão. No caso de vocês, um bonito casal e que transmite algo de sofisticado. Qual seria o público alvo e a sacada deles, hehe?

    • gilvas disse:

      as fronteiras estão muito difusas. o visual do casal, que é de tendência esquerdista, cause interesse no cooptador de imagens de um candidato de direita.

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