Sobre o Tempo

O tempo é a dimensão mais fascinante, para aqueles que se preocupam com abstrações aparentemente poucos pragmáticas como são as dimensões, obviamente. Existe um restante nesta conta, e ele é tão enorme que fica difícil classificá-lo como restante sem parecer, no mínimo, irônico. Mas deixemos de lado as hordas vegetativas a devorarem pastos de novelas e esportes, e nos lancemos ao tempo.

Vai longe o tempo em que eu me dei conta do tempo como algo distinto e mais amplo do que aquilo que tentamos marcar em nossos relógios. A percepção pura da dimensão neste primeiro insight, entretanto, poderia ser recriada pela visão de um jovem parado diante de uma boate às oito da manhã ou às oito da noite.

Todo o frenesi e toda a magia que uma boate pode significar para um garoto cheio de testosterona existe numa fatia pequena do tempo, algo entre onze da noite e cinco da manhã. Fora desta faixa, se o garoto passar diante dela, às oito da manhã, verá apenas um prédio sujo, vestígios de excessos nas calçadas, papéis voando de um lado para o outro.

O garoto poderia dizer que aquele prédio que ele vê ali e aquela boate que existiu à noite habitavam lugares distintos. A impressão seria a de um deslocamento no espaço, mas se operou em outra dimensão, o tempo.

Duas elucubrações depois o garoto estará ciente de que o tempo é percebido por cada um de forma distinta. O tempo, dentro do cérebro, é uma função da memória. A memória é um dispositivo em cuja linearidade não se pode depositar confiança. Assim, o tempo se esmaga e estica, o tempo é relativo, e, como diz o ditado popular, a velocidade do tempo depende de que lado da porta do banheiro você se encontra.

O tempo, diferente das outras dimensões, nos deixa pistas muito intrigantes. Ainda que meu cérebro entre em parafuso quando penso nas dimensões do universo, eu posso viver sem realmente me preocupar com o que ocorre a milhões de quilômetros.

Minha fascinação encontra um foco quando penso em milhões de anos. Estes milhões de anos nos proporcionam mistérios intrincados gerados por forças triviais.

Tome uma placa de granito nas mãos, por exemplo. Cada um daqueles veios e detalhes se formou em um processo de decantação e deposição de matéria, e por sucessivas ondas de pressão e sobreposição. Uma daquelas lembrancinhas feitas de camadas delicadas de areia colorida dentro de uma embalagem de vidro seriam a versão imediata, rápida, dos fenômenos geológicos que nos entregaram imensas jazidas de granito.

A imensidão do tempo nos esmaga os egos. Somos patéticos diante do gigantismo da idade da Terra, por exemplo. É compreensível que os mistérios da Terra pareçam ao vulgo algo inapreensível. Os processos da formação do planeta são simples, mas se espalharam por uma faixa de tempo que escapa à nossa percepção grosseira.

A reação do abrutalhado, diante de tamanho colosso, é distinta daquela do sábio. Este se curva ao tempo, respeita sua imensa obra, seus gestos monumentais e sua simplicidade funcional tão misteriosa.

Torna-se quase compreensível que tantos creiam no criacionismo. O tempo lhes escapa, como escapa a todos, então eles se revoltam: criam um mito onde o tempo cabe dentro de seus horizontes mortais, entregam o cetro de uma criação de sete dias nas mãos de um alter-ego pomposo e barbudo, envolto em panos brancos, e que passa a maior parte do tempo treinando carrancas iracundas.

O tempo, enfim, seguirá. A minha carcaça não será reconhecível entre todas as carcaças dos que vivem atualmente em menos de cem anos dos que medimos. Eu quase me pergunto porque escrevo sobre isso. Provavelmente é porque eu preciso.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

8 respostas para Sobre o Tempo

  1. Gabriel disse:

    Fala Gilvas!
    Gostei da ilustração do jovem na frente da boate. Lembrei dos momentos em que ia ao clube no dia seguinte a um show. Interessante era tentar reconstruir o tempo com os vestigios da festa no chão.

    • gilvas disse:

      lembra do seriado millenium? então, a pira do dia seguinte era bancar o sensitivo. ou o sherlock holmes mesmo. adoramos tirar conclusões.

  2. Roberta disse:

    as vezes penso que religião, criacinistas ou o que seja, acreditam em uma outra dimensão de tempo. se ela existe ou não, não sei, mas é boa de se imaginar, com certeza. =P

  3. Quando passei dos 30 anos, parei de pensar no tempo, rsrsrs…

  4. Ana Corina disse:

    mafra :
    gilvan, meu querido,
    só nos resta o sexo, a companhia dos amigos, a boa mesa e arte, claro… (será?)

    E os bons livros!! 😉 Mas não deixa de ser ‘arte’, né? Falei besteira 😉

  5. mafra disse:

    gilvan, meu querido,
    só nos resta o sexo, a companhia dos amigos, a boa mesa e arte, claro… (será?)

  6. Ana Corina disse:

    AGORA sim um texto como eu queria!
    😉

  7. Não conhecia esse Gilvan. Reflexões no mínimo interessantes.
    Beijo, volve.
    Tamna

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s