Dicotomia

Jiddu Krishnamurti é um cara especial. Ele mora na minha prateleira, junto com outros caras que escreveram coisas que eu gostaria de ter escrito. É um tanto estranho, porque Krishnamurti pode ser, à primeira vista, confundido com algum guru convertido em escritor de auto-ajuda. Esta impressão pode afastar muitos leitores potenciais, então cabe aos fãs solicitarem alguma persistência daqueles que, como eu, odeiam gurus ou qualquer coisa que se pareça com um.

Em mais de uma das palestras de Krishnamurti é trabalhada a questão da vontade humana. Ele, inclusive, usa um termo específico para diferenciar aquilo que achamos que queremos daquilo que efetivamente queremos. O enunciado poderia ser também algo do tipo “a diferença entre aquilo eu digo que quero e aquilo que eu efetivamente persigo ou realizo”.

Lembrei do Krishnamurti quando lia alguns trechos perdidos de Magra e Poderosa, um livro que recebeu todo tipo de crítica, inclusive esta aqui. A leitura rápida pode ser o expediente típico de muitos resenhistas, mas não pretendo ir tão baixo. Longe de inspirar-me uma impressão firme do texto, as poucas frases que li me remeteram a um sentimento típico do ser humano: a dicotomia entre vontade e atitude.

Vivendo em um universo que cultua, ao mesmo tempo, o consumo e a silhueta, o ser humano, e em especial a mulher, sofre pressões que beiram o insuportável.

De um lado, uma economia que produz mais do que é possível; alguns analistas dizem que cerca de 50% da capacidade produtiva de nossa economia mundial está ociosa, e a abundância de produtos de consumo, e de campanhas para empurrá-los, é um sintoma óbvio.

De outro lado, um modelo de Barbie desnutrida e peituda ocupa o imaginário marqueteiro das fábricas de cosméticos, e contamina toda a mídia que dele se aproxima. Neil Hannon expressou este sentimento à perfeição em The Beauty Regime.

Os homens funcionam de forma um pouco diferente. Somos protegidos da onda de magros pelo machismo reinante, que treinou as mulheres para aceitarem o orgulho masculino pela posse de um abdômem avantajado.

A síndrome de Ken, tórax bem malhado e depilado, entretanto, tem avançado entre as hostes heterossexuais. Rapazes que se cuidam, fazem as unhas, cuidam do cabelo, passam protetor solar e não passam no teste de masculinidade que pinta no e-mail de todo mundo de duas em duas semanas.

Enquanto isso, no covil das mulheres, algumas entram em parafuso, e tornam o fenômeno sociológico ainda mais bizarro. Elas aderem a costumes masculinos, e é óbvio que começam pelos mais idiotas: começam a usar camisa de time de futebol, bebem cerveja até cair, comem como ogras, ou fazem tudo ao mesmo tempo em eventos conhecidos pelos antropólogos como “churrasco da galera do trampo” ou “churras da galera da facul”.

Agora pensa só o que esta mulher vai ter de resolver na cabeça. Ela passa a freqüentar banquetes suburbanos que empalideceriam os bacanais gastronômicos oferecidos por Nero, consumindo doses nórdicas de cervejas de marca duvidosa, e devorando aquela costela monstruosamente gorda.

Apesar de todo este entrosamento com o universo masculino, ela tem de se manter gostosa, ou passará a ser aquela amiga super-gente-fina que todo mundo ama mas só come se estiver bêbado como um gambá vesgo. O enigma de como estas pressões se resolvem dentro da cabeça deste exemplar de mulher deixariam sem sono toda uma legião de cientistas da cognição.

Eu amo dar voltas, e você provavelmente deve estar babando sobre o teclado neste exato momento. Costurarei o final do texto, então.

A moça do último exemplo serve para apresentar um conceito do que ocorre com quase todos nós. Queremos ser bons cidadãos, mas sempre aprontamos algo que nos mancha os atestados de ética. Queremos estar em boa forma, mas somos preguiçosos. Queremos ser cultos, mas os livros mofam em nossas prateleiras, intocados, por meses.

Existe um abismo entre o “querer” e o “efetivamente querer”. Existe uma camada isolante entre aquilo que declaramos e o que sói fazermos, uma camada teimosa e persistente que simplesmente se instala ali.

Para vencer esta camada, é necessário que tenhamos disciplina. Como repetia o Manfredini, depois de ter lido em algum lugar, “disciplina é liberdade”. Tendo disciplina, conseguimos aproximar nossas realidades de nossas utopias interiores. Mesmo que seja de utopias idiotas como os modelos de homens e mulheres que a propaganda nos vende.

Este é um daqueles textos que eu escrevo para publicar, mas que, no final das contas, é para mim mesmo, inicialmente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Dicotomia

  1. J. disse:

    Manfredini é o tal do Renato Russo? 🙂

  2. Milene disse:

    Gostei do texto! Só a vontade não move nossas pernas, é necessário muita
    disciplina. Mas acho que é preciso, antes da disciplina, ter em mente -de forma muito clara e concreta- quais são as motivações que te permitem ter ou mudar um determinado comportamento. Abandonar alguns dogmas também é fundamental. Acho que a disciplina vem como consequência…mas realmente é difícil (impossível)seguir a ética que acreditamos sem deslizar, sem sermos incoerentes em alguns momentos.

    Mas me permita somente expor um outro ponto de vista sobre um fragmento dos teus pensamentos que nem tem a ver com o foco do teu texto. Concordo contigo sobre a pressão que as mulheres (e não só elas, claro) sofrem para exercer a função do “tipo ideal” (não um tipo utópico em que há esperança de realização, mas um tipo ideal didático que somente serve como mecanismo de entendimento geral).
    Sobre tuas impressões das relações entre mulheres x homem x futebol x cachaçada x tipo ideal eu consigo enxergar um outro lado, além do que tu expusestes (não que o que tu dissestes não se encaixe perfeitamente para algumas mulheres). Existe uma visível relação de poder entre homens e mulheres quando o assunto é futebol. Em outros assuntos, muito mais. Mas como falastes sobre o futebol, foquei neste aspecto somente. O futebol, independente do que ele se tornou com esses grandes clubes (máfia do futebol), em essência é um esporte como outro qualquer, que possibilita uma atividade física que faz bem ao corpo e à mente, é uma distração (assim como um filme ou uma música, que também são hobbys que enchem os bolsos de muita gente)e que não necessariamente leva um ser à alienação.

    Mas alguém falou um dia que esse é um esporte para homens. E isso respinga até hoje. Algumas meninas mal aprenderam a andar e já estavam jogando futebol na rua com meninos e meninas, sem distinção de sexo, sem preconceitos. Mas no decorrer de suas histórias elas passam a sofrer com os estereótipos e são vistas como “sapatas” ou como seres influenciáveis e sem cérebro que agem para satisfazer as vontades de algum grande homem ou as tendências atuais. Este conceito gera muita confusão e desconforto.

    Sim, estas que colocastes também existem hehe, eu só quis colocar um outro lado que também sofre pela pressão.

    Abraço!

    • gilvas disse:

      milene, excelente ponto o que colocaste, e que, de certa forma, atingiria o meu texto pelos fundilhos se não fosse um detalhe. o futebol em si é um esporte divertido e saudável, e eu confesso que até jogaria futebol se eu tivesse um mínimo de coordenação motora. quando as pessoas ficam vendo futebol na televisão e torcendo por times corporativos de futebol, elas se lançam em uma atividade idiota, e, ainda por cima, deixam de praticar um esporte muito bom. assim, deve ficar claro que eu não estou criticando quem pratica o futebol, mas quem terceiriza o esporte, independente do sexo.

      aliás, eu ainda vejo muita menina batendo bola com o resto da molecada por aí, e acho muito massa. a merda é quando ela resolve botar uma camiseta do figueirense ou do avaí, e ir para o estádio xingar.

      • Milene disse:

        Acho que teus últimos parágrafos estão impecáveis; o fragmento “Queremos ser bons cidadãos, mas sempre aprontamos algo que nos mancha os atestados de ética” é incontestável.
        A gente tenta, tenta, mas nem sempre a ‘vontade de fazer sempre o certo’ é forte o suficiente. Se tu joga futebol é quase inevitável curtir este esporte na TV; escolher um time para torcer. Esse processo também envolve toda uma relação complexa familiar. E como consequência deste hobby acabamos financiando essa máfia do futebol. Mas no nosso dia-a-dia financiamos diversas indústrias poderosas: compramos discos e enchemos os bolsos das gravadoras (que muitas vezes manipulam toda uma arte para vender), vemos filmes e novelas e contribuímos com a riqueza de alguns, usamos medicamentos (muitas vezes de forma desmedida) e somos condizentes com uma das indústrias mais poderosas e cruéis. Também alimentamos a indústria da carne, entretenimento, vestimentas, dentre muitas outras (que nos seus modelos atuais não podem ser entendidas como exemplo de ética). E eu não estou dizendo que ‘já que não consigo ser totalmente ético, posso continuar assistindo meu futebolzinho e que se foda todo o resto’. Temos que tentar ficar em paz com nossos ideais de moral e ética, mas isso é tãaaao difícil. Questionar sim, sempre temos que questionar e, pelo menos, ter consciência das consequências das nossas escolhas.

        Colocar uma camisa de clube e ser condizente (não alienado) a toda essa merda que rola pode até ser idiota, mas se esmiuçarmos o cerne destas questões, elas são tão complexas que é arriscado simplesmente considerá-las idiotas.

      • gilvas disse:

        o risco de ir a extremos existe. de um lado, posso me jogar nas cordas, e dizer “não posso resolver tudo, então não vou fazer nada”. de outro, tento resolver tudo, e fico louco, seja de trabalho, seja porque ninguém vai me aturar, seja porque o mundo é paradoxal mesmo. melhor é o caminho do meio, e o caminho do menos, otimizar nossa rotina.

        discordo da inevitabilidade do nosso futebol amador encaminhar-nos para o grande futebol corporativo na televisão. eu nado e amo nadar, por exemplo, mas não faço idéia de que competições estejam rolando, por exemplo, não vi nada das olimpíadas. também não vou atravessar a lagoa a nado, não vou fazer iron man ou seja lá o que for rolar. a atividade física, para mim, tem algo de espiritual, e se desenvolve no âmbito do meu individualismo, mesmo quando estou, por exemplo, treinando aikidô, em qual o outro é inevitável.

        isto dá tanto material para papo de boteco…

  3. Christian disse:

    São os «paradoxos de nosso tempo», como diria o George Carlin. O curioso é notar que nossas vidas só se sustentam quando conseguimos suspender (mesmo momentaneamente) suas dicotomias e, portanto, os paradoxos. E assim vivemos, aos trancos.

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